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Um delegado da PF em Toronto: "Sou mais Brasília"

Por: Arquivo Josélio Azevedo

Josélio brinda com "loura vermelha" sua estada em Toronto, no Canadá

(MS, 08/08/2009, às 11:51:04)

A pedido do Acessepiaui, o delegado de Polícia Federal Josélio Azevedo escreve suas impressões sobre Toronto, no Canadá. Lá, ele iniciou curso de capacitação no final de junho. Mesmo com toda a tranquilidade e segurança oferecidas pela cidade, Josélio afirma: "Sou mais Brasília". A seguir, a crônica:

Se fizeres uma pesquisa rápida na internet você vai ver que Toronto é a maior cidade do Canadá, e a capital da província de Ontário. Situa-se na margem norte do Lago Ontário. A cidade de Toronto propriamente dita possui aproximadamente 2,5 milhões de habitantes, com 6,1 milhões de habitantes em sua região metropolitana. Aproximadamente um terço da população canadense vive dentro de um raio de 160 quilômetros da cidade. Toronto é considerada uma das cidades mais dinâmicas da América do Norte, atraindo milhares de imigrantes anualmente, desde a década de 1850. Seus habitantes são chamados de torontonianos (Torontonians, em inglês).

Toronto é conhecida como o "motor da economia do Canadá”, e é considerada uma cidade global beta, exercendo significativa influência em nível regional, nacional e internacional. Toronto é o centro financeiro do Canadá, bem como um dos principais centros culturais e científicos. Toronto é o maior pólo industrial, financeiro e de telecomunicações do Canadá. A cidade possui uma das economias mais diversificadas da América do Norte, com a maior concentração de sedes de empresas, instituições culturais e a maior comunidade artística do país.

É uma das cidades mais seguras do continente americano - sua taxa de criminalidade é menor do que qualquer grande cidade americana, e uma das menores do Canadá. Informações da internet à parte, o principal traço de Toronto para mim é a diversidade. É uma mistura de culturas, cores, etnias e religiões muito bonita de se ver. Aqui você vê pessoas dos quatro cantos do planeta, convivendo de forma ordeira e pacífica, respeitando-se mutuamente. É realmente bem interessante.

Em se tratando de segurança pública, realmente a cidade impressiona. Aqui eu descobri o verdadeiro sentido da expressão “andar despreocupado”. Não importa a hora do dia ou da noite, as pessoas andam sem medo pelas ruas. E é curioso porque você também quase não vê policiamento ostensivo.

Deve contribuir para esse baixo número de criminalidade o fato de que as pessoas, em regra, são muito educadas e pacíficas. Aqui é um ótimo lugar para se constituir uma família e criar filhos. É, de fato, uma metrópole que exala tranquilidade.

Outro fator que deve contribuir para a segurança pública são as restrições ao consumo de bebidas alcoólicas – o que para mim é, às vezes, até irritante. Certa vez saí com um amigo, às 6 h da tarde de um domingo, para comprar cerveja e voltarmos à residência. Foi aí que descobri que, ao contrário do Brasil, onde podemos comprar cerveja até em postos de combustíveis, aqui você só pode comprar cervejas e demais bebidas alcoólicas em estabelecimentos específicos e que têm horários restritos de funcionamento, ou então em bares e somente para consumo no local. Nada de supermercados, lojas de conveniência etc. Tivemos então de ir para um bar. Mesmo nos bares e casas noturnas só é permitida a venda de bebidas até 2 h da manhã.

De igual forma, você não pode beber em locais públicos como ruas, praças, parques etc. Para nós brasileiros a medida é antipática, mas tenho de confessar que ela ajuda nos níveis de segurança encontrados aqui. No dia 1º de julho é comemorado o “Canadá Day”, o “Sete de Setembro” canadense, e eu fui à festa de comemoração. Enquanto que nas nossas datas festivas é um esfaqueado a cada cinquenta metros, a festa aqui se parece mais com uma quermesse. As pessoas nas áreas públicas não bebem, apenas se divertem à beira do lago ao som de bandas locais e comidas típicas.

Outra coisa surpreendente é que, mesmo nos horários de pico, você quase não vê congestionamento de veículos. O sistema de transporte atende bem, chegando a quase todos os pontos da cidade através de composições de metrô e de trens elétricos de superfície que eles chamam de “streetcars”. Apesar de alcançar os diversos pontos da cidade, achei os veículos de transporte público meio velhinhos e de pouco conforto.


 
Trens elétricos "velhinhos" e "pouco conforto" atendem à população de Toronto (foto: Josélio Azevedo)

O clima no verão é bom. Parece com o de Brasília. O problema é que aqui o inverno é rigoroso, podendo chegar a temperaturas de 30 graus negativos, além do que a cidade passa pelo menos quatro meses coberta de neve.

Quanto à limpeza, confesso que esperava mais. Tá certo que desde que cheguei os “city workers”, assim chamados os garis, estavam numa greve de mais de 30 dias que só acabou no último sábado – não imagino uma greve num serviço como este durar tanto tempo numa grande cidade brasileira.


 
Greve de 30 dias dos garis de Toronto deixou muito lixo acumulado na cidade (foto: Josélio Azevedo)

A cidade tem restrições a outdoors, a exemplo de São Paulo, mas há algumas ruas nas áreas principais da cidade com um visual feio por conta de infindáveis anúncios colocados um sobre os outros nos postes e cestos de lixo. (Tirei algumas fotos para ilustrar, mas os principais pontos de acúmulo de lixo já haviam sido limpos após o fim da greve, quando tentei registrar).

No aspecto econômico, perguntei para algumas pessoas qual a taxa de desemprego da cidade e ninguém sabia me responder, então fiz uma pesquisa simples no google e vi que a taxa de desemprego do Canadá é a maior em onze anos e a de Toronto está atualmente em 9,3%, números de maio, um pouco maior que a média da taxa de desemprego das seis principais regiões metropolitanas do Brasil. De fato, não é raro você andar na rua e encontrar um “homeless”, como eles chamam o “sem-teto” aqui.
 
A sensação presente, não sei se por conta ou não da crise mundial ou por conta do meio que tenho tido contato, é de que a despeito de ser um país rico as pessoas suam bastante para manter um padrão de vida razoável/bom. Prova disso é que quando você paga por um serviço, especialmente de bares, é quase que obrigatório você dar o que eles chamam de “tip”, a nossa popular gorjeta.
 
Só que o que aí nós pagamos a título de liberalidade e em torno de 10%, aqui é quase uma obrigação no valor médio de 20% do consumido, sob o pretexto de que os trabalhadores ganham muito pouco e necessitam de uma complementação de renda – como se nos outros países não precisassem. Essa gorjeta de 20% faz uma pequena diferença no preço da cerveja, por exemplo. E por falar em cerveja, aprecie bem as do “Beira” (boteco Beirute, em Brasília) porque se estivesses aqui com certeza tu irias reclamar da temperatura da “loura”.

A cerveja aqui não é servida tão gelada quanto a que nós nos acostumamos no Brasil e o pior, é bem mais cara. Essa vermelhinha que tu estás vendo na foto custa em média R$ 8,00 o copo, fora a maldita gorjeta. A qualidade, porém, é boa e elas em regra são mais fortes que as que consumimos no Brasil. E não esquecendo dos petiscos, estou  te mandando uma foto com a versão canadense do frango a passarinho....rs. Na verdade esse aí é o “Chicken Wing”, um tradicional tira-gosto local à base de asa de frango.


 
"Frango a passarinho" canadense, petisco tradicional de Toronto (foto: Josélio Azevedo) 

Ao longo dessas cinco semanas tenho tido contato com pessoas de diversos países do mundo, como mexicanos, guatemaltecos, chilenos, colombianos, russos, coreanos, franceses, espanhóis, italianos, turcos, tunisianos, árabes, alemães, chineses etc. Procuro sempre conversar com eles a respeito da qualidade de vida em seus países.

Como resultado, percebo que o mundo se mostra cada vez mais como a chamada “Aldeia Global.” As aspirações e vicissitudes de um povo são em maior ou menor medida as mesmas dos outros e as diferenças na verdade tem se mostrado muito mais no plano do idioma falado e de outras peculiaridades culturais, mas que ainda assim estão sendo suprimidas a passos largos.

Voltando os olhos para o nosso País, vejo que ainda sofremos um pouco com a “síndrome de vira-lata”, aquela que nos faz pensar que somos inferiores, que qualidade de vida só existe no exterior, que o que é bom vem de fora etc . ISSO É ERRADO!

Temos problemas sim, e alguns muito graves, que não podemos deixar resolvê-los, em especial de educação e segurança pública, mas a qualidade de vida da classe média brasileira não fica muito aquém das de outros países e se considerarmos algumas cidades brasileiras, como  Brasília, por exemplo, não tenha dúvida de que vivemos melhor do que muitas pessoas que vivem nos chamados países ricos.

Com relação a Toronto, é difícil você comparar uma cidade com um país, ainda mais se esse país for o Brasil, com tantas diversidades e contrastes. Mas comparando Toronto com Brasília - entenda-se Plano Piloto -, diria que a nossa capital tem problemas de segurança pública e transporte e que Toronto é uma metrópole formidável do ponto de vista da tranquilidade, especialmente para quem tem família, mas no cômputo geral, se eu tivesse de escolher onde morar, na atual fase da minha vida, diria que sou mais Brasília.