03/03/2010, 12:15

Invictus

Por: Divulgação Divulgação

Invictus

A história do ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, é simplesmente fantástica, desde sua militância contra o regime do Apartheid dividindo o país em brancos e não brancos, até se tornar presidente da nação em 1994, tendo ele próprio sido considerado um terrorista e passado 26 anos preso. Como primeiro presidente africano negro eleito, Mandela pôs em prática a Comissão Verdade e Reconciliação, querendo apagar da noite para o dia 46 anos de segregação racial sob a qual o país havia construído sua recente história.

São esses esforços do primeiro mandato de Mandela que o diretor Clint Eastwood aborda em seu filme. “Invictus” tem início exatamente no dia em que Rolihlaha (seu nome do meio) é libertado da prisão graças a pressões externas e termina na final da Copa do Mundo de Rugby, acontecida na África do Sul em junho de 1995. Mandela viu na copa uma grande oportunidade para inspirar a nação a se unir e a perdoar o passado. O time Springboks vinha de uma série de derrotas quando seu capitão, François Pienaar, foi convocado por Mandela a liderar essa mobilização por uma África do Sul pós-apartheid.

O mais interessante na composição de Mandela, aqui interpretado por Morgan Freeman, num papel que ele cobiçava há anos e que lhe valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator, é o fato do filme não cair na bobagem de esconder suas intenções políticas. Pelo contrário, é claro e evidente desde o início a esperteza dele em usar a copa para promover seu governo apaziguador, tornando-se mais curioso como aos poucos ele vai se mostrando realmente gostar do esporte. Do outro lado, Matt Damon encarna a palavra inspiração com contundência e consegue fazer o espectador acreditar que ele poderia, sim, liderar um time de rugby. Sua indicação como ator coadjuvante é compreensível.

E se Clint Eastwood entrega uma narrativa não muito inspirada, paradoxalmente ao tema de seu filme, ao menos consegue retratar bem as violentas partidas de rugby. Nesse caso, é importante perceber o quanto o espectador não familiarizado com o esporte vai compreendendo sua dinâmica no decorrer do filme, ficando com o coração na mão a cada lance da última partida – como se fosse final de copa entre Brasil e França. Mesmo assim, o diretor sente a necessidade de apelar para recursos batidos como “slow motion” a fim de tornar tudo mais emocionante e épico. Não precisava tanto, e só enfraquece uma direção engessada bem aquém de seu talento.

Circulando em torno do poema de William Ernest Henley que dá título ao filme, “Invictus” apenas se sobressai por demonstrar uma sinceridade narrativa da parte de todos os envolvidos. Contudo, encontra-se muito longe do Clint que poderia ter sido.

Ficha:
Idem, EUA, 2009
Drama
133 min
Indicado a 2 Oscars
Cinema – com Pryscila
Cotação: * * *

 

01/03/2010, 23:02

O Eclipse

Por: Divulgação Divulgação

O Eclipse é a última parte da célebre trilogia da incomunicabilidade

O cinema de Michelangelo Antonioni atingiu seu ápice sartriano nos anos 60, época na qual o intimismo de suas obras revelava todo o pessimismo diante dos relacionamentos. Algo claro e evidente em cada plano, diálogo e, sobretudo, silêncio deste “O Eclipse”, último filme da chamada Trilogia da Incomunicabilidade. Assim como em “A Aventura” e “A Noite”, seus predecessores, o espectador é convidado a ver de camarote o que o crítico Luis Carlos Merten classificou como a crise do casal burguês, e é impressionante constatar como Antonioni, há 50 anos, já lançava seu comentário sobre a pós-modernidade que estaria por vir.

Aqui, o verso narrativo é sobre o medo da entrega a outro relacionamento. Os primeiros minutos traduzem a angústia claustrofóbica do fim da relação, usando brilhantemente o espaço cenográfico com esse propósito. Não só esse, como também outros elementos, como o eixo quebrado e os tempos mortos, fazendo do silêncio o verdadeiro protagonista do filme. No decorrer da narrativa, percebe-se a genial utilização dos diálogos não para expor, e sim para esconder quem são os personagens. Estes são revelados pelo diretor por seus momentos de solidão, gestos, reações e até mesmo pelo próprio enquadramento da câmera.

Essa, por sua vez, está sempre valorizando a arquitetura do ambiente como se quisesse dar dicas das origens da doença de Eros. Está-se cada vez mais prendendo o indivíduo dentro de si mesmo, tanto que as relações terminam se tornando prisões ao invés de fortalezas, uma vez que as pessoas confundem de onde vem o impulso de querer se libertar. O resultado disso é que estar só é confortável e o silêncio a melhor das conversas. Esse eclipse humano é bem estudado por Antonioni, ainda que, compreensivelmente, apenas reforce sua falta de otimismo acerca do futuro das relações.

O final que o diga.

Ficha:
L’Eclisse, ITA, 1962
Drama
126 min
Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes
DVD
Cotação: * * * *

Serviço:
“O Eclipse” faz parte do acervo da Locadora Vilex, que se localiza na Av. Nações Unidas, 1270. Contato: (86) 3218-6054 e (86) 8806-6054.

 

25/02/2010, 20:42

O Enigma de Kaspar Hauser

Por: Divulgação Divulgação

O Enigma de Kaspar Hauser

Um dos grandes trabalhos de Werner Herzog, “O Enigma de Kaspar Hauser” continua a ser um filme fascinante até os dias de hoje, quase quarenta anos depois de sua estreia. A força da narrativa a martelar na cabeça do espectador o estranhamento social experimentado pelo protagonista na Alemanha cheia de etiquetas do século XIX é sem dúvida um dos pontos altos da obra. Sem falar na magnífica interpretação de Bruno S., que o marcaria para sempre, e todas as questões filosóficas, sociológicas e psicológicas suscitadas com clareza de consciência e sensibilidade.

Inspirado numa história real, Herzog conta o drama de Kaspar Hauser, mantido por quinze anos sem qualquer contato com o ser humano. Sem falar muita coisa e com o comportamento introspectivo, ele é deixado numa praça em Nuremberg com uma carta na mão. Rapidamente se transforma em grande curiosidade para os habitantes a especularem suas possíveis origens nobres. Termina por ascender socialmente, a se portar e até a tocar piano, entretanto nunca chega a assimilar os conceitos impostos pelos outros e suas lógicas no fundo falhas.

Herzog aponta sua câmera para o personagem com a curiosidade de um estudante e para as pessoas ao redor com o desprezo de um observador da imbecilidade humana. Ele enquadra de forma brilhante a indiferença de Kaspar Hauser para com o estranho mundo que o rodeia, mostrando-o puro como uma criança ao entrar em contato com as sensações desse mundo. Chega a ser comovente de um jeito raro ver o protagonista queimar o dedo numa vela ou segurar um bebê. Aula de cinema da melhor qualidade. A sacada da narrativa é tornar o espectador tão inadequado quanto Kaspar Hauser, enxergando o mundo por meio de seus olhos.

E então fica absolutamente compreensível a indiferença do personagem a conceitos como Deus, sonho e a própria realidade. Herzog faz aqui seu questionamento sobre a teoria da tabula rasa, base tanto do empirismo quanto do behaviorismo, da maneira mais contundente possível. Como se não bastasse, mostra com intimidade, e até um pouco de extravagância, que todas as coisas não passam de construções sociais, a diferença entre aquilo o que somos e o que expomos. No mundo de Kaspar Hauser, a sensação se sobrepõe à razão. Não é tão difícil assim se identificar com um personagem como esse.

Obrigatório para todos aqueles que se sentem um tanto deslocados no mundo, possui o título original bem mais instigante: “Jeder für sich und Gott gegen alle” quer dizer “Cada um por si e Deus contra todos”.

Pode ter certeza disso.

 

Ficha:
Jeder für sich und Gott gegen alle, ALE, 1974
Drama
110 min
3 prêmios em Cannes
DVD
Cotação: * * * *

 

24/02/2010, 09:37

Entre os Muros da Escola

Por: Divulgação Divulgação

Imagem do filme Entre Os muros da Escola

O que mais impressiona neste contundente e premiadíssimo filme francês é sua espontaneidade em conduzir o espectador por uma radiografia do sistema educacional daquele país. Em vários momentos, parece um documentário registrando a relação professor-aluno sem qualquer tipo de intervenção por parte do diretor e coroteirista Laurent Cantet. Entretanto, trata-se de uma ficção, uma ficção muito mais real e honesta do que diversos documentários. Pode-se tomá-la também como perturbadora se perceber que os movimentos mostrados no filme fazem parte da realidade escolar de outros países, inclusive do Brasil.

“Entre os Muros da Escola” segue um ano letivo da problemática turma da 8ª série, sempre do ponto de vista dos professores. E esse detalhe é importante, pois serão eles a terem (ou não) os insights sobre seu método de ensino do respeito e da disciplina. Cantet foi feliz ao assumir essa abordagem, tornando seu filme um verdadeiro estudo sobre como os professores lidam com sua condição de educador. Embora no início a produção faça um esforço para permanecer neutra e deixar que o espectador reflita por si só, não consegue disfarçar seu posicionamento em relação à figura autoritária do professor, tanto que a escola (onde o filme transcorre por inteiro) remete a uma prisão, a recreação no pátio sempre é vista de cima, como se os professores fossem guardas vigiando os presos.

Tal foco se reflete no fato dos alunos serem mesmo quase tratados como insolentes e desrespeitosos, enquanto evita-se questionar até certo ponto a postura do professor dentro e fora da sala de aula. O conselho disciplinar se transforma num verdadeiro julgamento, no qual o aluno é um réu praticamente condenado. Ainda que possa soar forçada essa vilanização do professor, faz-se uma atitude necessária e, sobretudo, corajosa para que se reflita acerca dos limites dessa hierarquia dentro da escola. É comum a visão do aluno não possuir a “luz do conhecimento”, enquanto se transfere ao professor direitos de pai e mãe na hora de vigiar e punir.

Mas o que dizer da cena na qual uma aluna confessa pesarosa não ter aprendido absolutamente nada naquele ano, tendo como resposta o ceticismo total do professor?

“Entre os Muros da Escola” é um soco certeiro no estômago do sistema educacional falido, o qual precisa urgentemente rever sua relação professor-aluno antes que, ao invés de cidadãos de bem, comece a formar pessoas frustradas que apenas conseguiram sobreviver à passagem pela escola.

Ficha:
Entre les Murs, FRA, 2008
Drama
124 min
Palma de Ouro em Cannes
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Cotação: * * * *

 

23/02/2010, 08:44

Um Olhar no Paraíso

Por: Divulgação Divulgação

Um olhar no paraíso

Há duas maneiras gerais de se contar uma história: vai-se apresentando elementos da trama de forma a só fazer o espectador matar a charada no finalzinho ou mostra-se de cara todas as intenções narrativas e confia-se no poder do que está sendo contado para manter o interesse em alta até a conclusão. Grosso modo, os cineastas (também os escritores) brincam com essas duas possibilidades desde sempre, fazendo do público verdadeira cobaia de suas decisões, nem sempre acertadas, como contadores de causos. Com isso, explica-se o fato de alguns bons condutores da montanha-russa do cinema fazerem o trem sair dos trilhos em um ou outro momento de suas carreiras.

“Um Olhar no Paraíso” é um desses momentos para Peter Jackson. Com a bola da vez desde a trilogia “O Senhor dos Anéis”, mantida a duras penas com “King Kong”, o cineasta neozelandês derrapa feio nesta adaptação do livro “Uma Vida Interrompida”, de Alice Sebold. O enredo gira em torno de uma menina de 14 anos, Susie, que narra sua vida, seu brutal assassinato e toda a repercussão dele na vida de sua família. Para intensificar o drama, o assassino é vizinho da família e começa a prestar atenção em sua irmã mais nova.

O problema todo do filme é a falta de tom na narrativa, o que a torna inconsistente. O primeiro ato até que convence, o pré-assassinato de Susie ainda mantém o espectador na esperança de ver um grande filme, embora a câmera de Peter Jackson faça uns movimentos fora de contexto narrativo apenas para mostrar que é ele que está dirigindo o filme. Uma bobagem desnecessária. Então vem o assassinato e tudo se perde de vez. E se perde mesmo: as viradas do roteiro se tornam inorgânicas e sem sentido. A avó doidona quebra qualquer clima construído, a mãe se manda de repente para o meio do nada e fica mandando postais, enfim, a narrativa toma as escolhas erradas e vira uma bagunça, enquanto Susie brada seu ódio de um céu particular com visual chocante mas nenhum impacto para o desenrolar da história em si.

E esse lado espírita da produção só a enfraquece, pois soa muito forçado. Jackson já demonstrou sua atração pelo tema, como em “Os Espíritos”, mas aqui ele se deixa confiar demais pela abordagem claramente literária. Os personagens têm impulsos soltos para mover a trama, como a desconfiança em relação ao assassino surgir de um latido de cachorro ou de uma inspiração do além. O psicopata feito por Stanley Tucci (indicado ao Oscar de ator coadjuvante) é tão caricato que Jackson usa planos e lentes que forçam a perspectiva para torná-lo assustador. E quando a direção precisa de recursos assim pode apostar que o texto não é lá esses primores. Tal fragilidade de construção do roteiro se mostra também na cena em que Susie retorna ao mundo dos vivos (não dá para dizer de outra forma) para poder dar seu primeiro e último beijo – e há até mesmo uma insinuação de sexo. A impressão que fica é mais de fraqueza carnal se sobrepondo ao espírito do que o romantismo à lá “Ghost” o qual devesse ter sido pretendido.

Efeitos especiais lindos se tornam vazios sem uma função dramática. Era de se jurar que Peter Jackson já tivesse aprendido essa lição.

Ficha:
The Lovely Bones, EUA/GB/NZ, 2009
Suspense
135 min
Indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante [Tucci]
Cinema – com Pryscila
Cotação: * *

 

21/02/2010, 20:29

A saga de "Dona Maria"

Por: Divulgação Divulgação

Dona Maria, A Saga de um Filme Piauiense

De “Senhora ou Senhorita?” a “Dona Maria”:
A Saga de um Filme Piauiense

Quando penso em “Dona Maria”, e, mais ainda, quando assisto ao filme, automaticamente me vêm à cabeça os últimos seis anos da minha vida, porque tão interessante quanto um filme em si, é a trajetória percorrida para chegar até ele. Seis anos, eu somo mentalmente sem querer acreditar. Mas é isso mesmo. Não tem como negar que a semente foi plantada no ano de 2003. Eu ainda estava na metade do curso de Psicologia e apenas sonhava em um dia fazer filmes quando me enturmei com o pessoal da banda Madame Baterflai. Logo eu, absolutamente tímido e introspectivo, prestes a entrar na casa dos vinte – ou melhor, na “crise dos vinte” –, andando pra cima e pra baixo com uma banda de rock. Um mundo totalmente novo. Se bem que a Madame parecia tão tímida e introspectiva quanto eu, ainda que fizesse mais sucesso entre as mulheres.

Enfim, os caras sabiam que eu tinha idéias e vontades visuais – eu já escrevia críticas de filme pro jornal – e me convidaram para dirigir o DVD do CD que ainda iam gravar. Menino empolgado, topei na hora. Por que não? E desde o começo nunca foi um DVD normal. Seria um filme inspirado nas músicas da banda, colocando o Hermano, vocalista, numa espécie de crise existencial em pleno lançamento do álbum, até então sem nome. Houve algumas reuniões com a produtora daquela época, porém contratempos fizeram o projeto ser abandonado. Eu, que já estava triste por quase ter conseguido fazer um vídeo para a AMA, Associação de Amigos dos Autistas, no ano anterior (mas que acabou sendo feito por uma produtora profissional), pensei: “É, deixa eu esquecer esse negócio de fazer Cinema que não dá certo não. Meu futuro é ser mesmo Psicólogo”.

Foi então que o Hermano me tirou da miséria propondo fazer um filme pequeno, nós mesmos, sem recursos, só pra ver qual é. O resultado da brincadeira, gravada ainda em 2003, foi “No Meio do Caminho”, que chegou a ser exibido no Cine 3 do Teresina Shopping, em março de 2004. No ano seguinte, lançamos “Insone”, novamente no Cine 3 do Teresina. Neste mesmo ano, fizemos “A Noite e a Cidade”, documentário para a gincana cultural promovida pelo Instituto Dom Barreto, e no ínterim entre esses dois filmes o projeto do DVD renasceu, agora que a banda já tinha entrado em estúdio e gravado o CD que, por abordar o universo feminino, foi intitulado “Senhora ou Senhorita?”.

Nessa nova oportunidade, dois anos depois da primeira tentativa, ampliamos o conceito do que seria esse DVD. A personagem dona Maria nasceu em agosto/setembro de 2005, quando estimulei os membros da banda – Hermano, Gabriel e Daniel – a criarem cada um uma personagem que representasse o seu lado feminino. A idéia era gravar três histórias com essas personagens e fazer o painel do universo que o CD abordava. Foi o Gabriel quem me trouxe a figura de dona Maria, uma senhora de mais de setenta anos sozinha em casa escutando Vivaldi enquanto esculpia obras de artes. Achei melhor ela pintar e quem sabe fazer um quadro para alguém que não visse há muito tempo, e esse seria o mote da história. No dia 22 de outubro de 2005 comecei a escrever esse grande roteiro que intercruzava histórias intimistas com a banda tocando dentro de uma piscina. A idéia parecia genial na época.

No entanto, o roteiro empacou, não ia pra frente nem pra trás. Eu não me identificava com aquilo e, portanto, não conseguia escrever. Reuni os meninos e fui sincero, falei não estava dando muito certo, e pedi autorização para escrever outra coisa, inspirada numa das músicas da banda. Autorização concedida, larguei o que já havia escrito e, no dia 26 de dezembro de 2005, em Inhuçu, estado do Ceará, comecei a escrever um roteiro chamado “Jardim do Éden”, inspirado na música de mesmo nome da Madame Baterflai. Um mês depois, outra reunião, mostrei o que eu tinha feito, cerca de 86 páginas. Todos gostaram, mas acharam que aquilo era mais um filme meu do que um projeto da banda. Arrasado com o veredicto e com dor de consciência, voltei ao roteiro original e no dia 4 de fevereiro de 2006 estava pronto “Madame Baterflai: Senhora ou Senhorita?”, que incluía a história de dona Maria. Felicidade geral e alívio para mim. Mas a jornada ainda nem tinha começado.

2006 foi o ano da Virada, como pregava meu amigo Eduardo Paiva Costa, que tinha produzido “A Noite e a Cidade” e estava na produção de “Senhora ou Senhorita?”. Foi ele quem trouxe para o projeto a Drica Veras, produtora cultural e uma das muitas que passou por este filme. E de repente eu tinha que me virar para conseguir me formar em Psicologia, ao mesmo tempo em que ficava rodando com a Drica atrás de dinheiro pra começar as gravações do DVD-filme. Tempos difíceis, mas bem divertidos, se eu me esforçar um pouco. Quem primeiro acreditou na gente foi o prefeito Sílvio Mendes. Eu lembro que ele perguntou como eu conseguia fazer esses filmes tão baratos, no que eu soltei um riso amarelo e disse: “Rapaz, tentando não ficar doido e perdendo um fio de cabelo por dia”. Quem vê minhas fotos de três anos atrás sabe que eu não exagerei muito ao responder isso.

Com a ajuda da prefeitura, e em seguida da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, na figura do prof. José Reis Pereira, conseguimos gravar a história de dona Maria, em parceria com a Associação Brasileira de Documentaristas – seção Piauí. Quando a ABD entrou, o projeto deixou de ser algo entre amigos (como tudo o que eu havia feito antes) para adquirir contornos mais sérios. Teve até entrevistas para formar a equipe técnica. Era um toma lá dá cá. A ABD me usava para seus propósitos e eu a usava para garantir a realização das gravações. Cheguei até a ministrar minha primeira Oficina de Cinema, pela ABD, no município de Anísio de Abreu. Uma experiência inesquecível para todos. Em três dias realizamos dois curtas com os meninos de lá e literalmente mexemos com o local. “Dona Maria” foi gravado logo após retornarmos de Anísio. Na primeira vez que me deparei com aquela equipe nova, estranhei. Onde estava o Saulo para eu dar cagaço e onde estava o Hermano para me dar cagaço? Foi traumático no começo, mas conseguimos finalizar as gravações no prazo. Na pizza de encerramento, estavam pessoas que eu veria com freqüência, umas que eu veria com cada vez menos freqüência e outras que nunca mais veria.

Aí começaram os problemas. Primeiro as chuvas de fim-de-ano adiaram o resto das gravações das outras duas histórias para 2007. Depois problemas de orçamento. Em seguida de produção, de disponibilidade... Era uma bola de neve que não parava de aumentar. Produtora sumia do nada, gente não dava mais notícia, minha família querendo que eu criasse vergonha na cara e fosse ser psicólogo ou fazer concurso. Resumindo, um caos. A essa altura, já não tinha mais ABD nem nada. Éramos só eu e o elenco que estava pago. Entrei numa especialização para não parecer um completo vagabundo e pra fechar a ópera a banda decidiu pendurar as chuteiras. Era o fim do projeto. Bem, ao menos parecia.

Em meados de 2007, escrevi outra versão do roteiro, agora em torno de “Dona Maria”, a história gravada. O tema da velhice já havia tomado conta da produção, que não tinha mais nada a ver com a Madame Baterflai, mas insistia em não morrer. Alguma coisa me obrigava a não abandonar aquilo. A outra parte acontecia num teatro, a velhice e a morte sendo abordados de uma maneira lúdica. Todos abraçaram a proposta. Entretanto, mais uma vez tornou-se logisticamente impossível de ser feito e dolorosamente difícil de aceitar isso. E já era o terceiro ano seguido de produção. Nesse ponto, eu já havia perdido a credibilidade de todo mundo, inclusive de mim mesmo. Foi então me juntei à outra produtora, levantamos uma grana e saímos gravando depoimentos de senhoras acerca da vivência da velhice, das alegrias, da solidão, da saudade e da iminência da morte. Eu estava tão envolto pelo tema que cheguei a começar um artigo científico sobre a velhice. Após quase dois meses gravando, eu tinha horas de material lindo colhidas com muita luta e sensibilidade.

Resolvi reescrever “Dona Maria” com base nos depoimentos que tínhamos feito e percebi que ali tinha uma coisa especial, vivências reais, momentos tocantes, lições interessantes. Finalmente, vislumbrei o filme que hoje está pronto. Começamos a montar no fim de 2007, e no decorrer do ano seguinte o filme foi se afinando e ganhando corpo. Ainda assim, encontrei diversas dificuldades. 2008 foi um ano cheio de altos e baixos para mim. A montagem passou por várias versões e literalmente atravessou o ano, enquanto eu me sentia na urgência de terminar o filme antes que todos se esquecessem de como ele começou.

Os primeiros meses de 2009 foram árduos. A finalização requereu um gás novo e um impulso total. Só então percebi que este já não era o mesmo projeto que embarquei anos atrás, assim como eu já era mais a mesma pessoa que embarcou de cabeça nele. Seis anos tinham se passado. Muito tinha acontecido. A trajetória de “Dona Maria” se confunde com a minha própria vida. Ganhei e perdi pessoas durante o processo. Ganhei e perdi momentos. Ou só ganhei? As experiências acumuladas ao longo desses anos de “Dona Maria” foram as mais ricas que já tive. E gosto de pensar que no fim das contas fiz um filme modesto, artesanal, intimista, que possui história dentro e fora. É justamente o acúmulo de experiências contidas no filme que me fazem gostar dele. Não é uma história pessoal minha, mas termina sendo meu filme mais pessoal, por tudo o que passei ao longo de sua feitura.

Contudo, sôo pretensioso ao chamar de meu filme. O filme é delas, das Marias e de suas histórias de vida. O que aprendi com elas repasso a quem tiver interesse. Se suscitar em alguém alguma reflexão, alegre ou triste, acerca de ser velho, os seis anos terão valido a pena. Aos jovens, sintam-se velhos. Aos velhos, sintam-se jovens. Pois a idade é aquela que sentimos, não a que temos. “Dona Maria” está aí para nos ensinar isso e várias outras coisas. E o que é a velhice, afinal de contas?

Monteiro Júnior
Teresina, 18 de fevereiro de 2009
01h11

PS: A pós-produção foi ainda mais dolorosa e atravessou mais um ano, passando por diversas mãos, computadores e quartos. Cheguei a ser internado em abril por conta de stress e, quando resolvi desistir, entrei numa terrível e autodestrutiva depressão que me consumiu boa parte de 2009. Por fim, encontrei a pessoa certa para terminar a finalização do filme (todos os outros não querem me ver nem pintado de ouro), consegui mais grana e tudo parece estar dando certo. A vida é estranha, mas sinto que estou tirando o peso do mundo das costas. “Dona Maria” vai ser oficialmente lançado em [4 de] março de 2010 [no Clube dos Diários], com quase três anos de atraso. Antes tarde...

Teresina, 19 de dezembro de 2009
02h09

 

 

19/02/2010, 18:13

Vício Frenético

Um dos atores com a carreira mais irregular do cinema norte-americano, Nicholas Cage vez por outra se beneficia de um personagem realmente interessante para não ser tragado pelo ostracismo da mediocridade. É o caso de seu protagonista desta releitura do filme de 1992 dirigido por Abel Ferrara e estrelado por Harvey Keitel: um policial tentando desvendar um crime enquanto se deixa consumir cada vez mais pelas drogas e o vício do jogo. Cage está tão bem no papel que é de se espantar como ele alterna pérolas assim com produções pavorosas do naipe de “Motoqueiro Fantasma” e outros títulos esquecíveis. Ator de uma expressão só, o sobrinho de Coppola faz isso com tanta naturalidade – ser bom e ruim ao mesmo tempo – que fica difícil saber se seus filmes ruins são apenas um deslize ou se os bons são na verdade um mero golpe de sorte.

Bem, o fato é que este “Vício Frenético” mostra Nicholas Cage num de seus momentos inspirados. Com um problema crônico na coluna, ele está incrivelmente torto o filme inteiro sem, entretanto, usar isso como muleta de interpretação. Pelo contrário, a caracterização do personagem vai além: a expressão facial, as olheiras, a inflexão da voz, tudo colabora para o protagonista segurar as pontas da primeira a última cena. E o mais interessante é que o espectador assiste ao personagem evoluir em sua entrega (ou seria involuir?) praticamente de camarote, apesar de, felizmente, essa jornada não ter o típico falso moralismo das produções hollywoodianas: é sempre “doidão” que as coisas vão se ajeitando para ele e sua família desestruturada composta por um pai alcoólatra, mas consciente da doença, uma madrasta idem que não assume seus vícios e uma namorada prostituta.

Sem precisar provar mais nada ao cinema (vide seu currículo), o grande cineasta Werner Herzog prossegue sua nova fase estudando os tipos desequilibrados no contexto catastrófico da América do Norte, não sendo à toa esta história se passar em New Orleans “no rastro do furacão Katrina”. Nesse sentido, a direção de arte do filme é perfeita ao mostrar a cidade semi destruída. Para melhorar, o roteiro de William M. Finkelstein está o tempo fazendo o espectador embarcar na jornada dos personagens, uma vez que inteligentemente a trama gira em torno deles, com ótimas pitadas de humor negro realçadas pela direção de Herzog: ele usa câmeras de vídeo nas “viagens” do personagem principal, uma quebra de protocolo muito bem vinda.

Nada mal para aqueles que já não sabem o que esperar de um filme com Nicholas Cage.

Ficha:
The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans, EUA, 2009
Policial
122 min
Cinema – com Samira
Cotação: * * * *

 

18/02/2010, 22:25

O Lobisomem

Por: Divulgação Divulgação

O Lobisomem estreou em Teresina

Indo direto ao ponto: esta nova versão de “O Lobisomem” é uma grande bosta. Perdoem-me o linguajar, mas dos monstros ressuscitados pela Universal nos últimos vinte anos, a trágica criatura amaldiçoada pela lua cheia ocupa o último lugar da lista até agora. “Drácula” e “Frankenstein” ao menos têm a marca da personalidade de seus realizadores, Francis Ford Coppola e Kenneth Branagh. Já Joe Johnston, responsável por bobagens legais como “Querida, Encolhi as Crianças” e “Jumanji”, tendo cometido um belíssimo filme chamado “O Céu de Outubro”, conduz o remake do clássico de 1941 inteiramente no piloto automático. Não há nada aqui reluzindo qualquer vestígio de talento por parte de sua equipe técnica e/ou criativa, da música sem graça de Danny Elfman ao elenco sob o inebriante efeito da apatia.

Benicio Del Toro, por exemplo, parece ter saído extasiado das gravações dos “Che’s” de Soderbergh, pois só isso explica sua cara de cansaço em cada cena na pele de Lawrence Talbot, ator de teatro que retorna ao vilarejo onde nasceu por conta da trágica morte de seu irmão. Decidido a desvendar o mistério, não demora ele ser atacado por outro lobisomem e se transformar na terrível criatura em noites de lua cheia. Além disso, Talbot se envolve com a viúva do irmão (Emily Blunt, quase um mero enfeite na trama) e reacende seu conflito edipiano com o pai, interpretado por Sir. Anthony Hopkins numa de suas piores performances. Hopkins praticamente não muda de expressão o filme inteiro, dizendo frases importantes para a história com a banalidade de quem sabe estar ali para pagar mico junto com as contas.

Se o filme original com Lon Chaney Jr. não era lá essas coisas, esta roupagem pós-moderna é mais fraca ainda. Os roteiristas Andrew Kevin Walker (“Seven”) e David Self (“Estrada para Perdição”) não conseguem fugir dos clichês mais óbvios e das reviravoltas mais previsíveis. A trama em si é boba demais, recheada de personagens sem um pingo de profundidade, sendo apenas caricaturas dos elementos do roteiro. Walker literalmente copia seu roteiro de “Sleepy Hollow – A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça” em diversos momentos, como os flashbacks do protagonista. O fluxo narrativo parece forçado, levando a um final patético, sem qualquer relevância, surpresa ou ao menos ironia dramática.

Para finalizar, a maquiagem de Rick Baker não é nada que se possa dizer “uau”, ao contrário do que foi para a época ver Chaney se transformando na trágica criatura com seu destino selado. O filme de Johnston (ele está dirigindo “Capitão América”, meu Deus!) mata o trágico do personagem, restando apenas a criatura desencontrada numa obra abaixo do nível da mediocridade.

Update:
Uivo por uivo, ainda fico com a brincadeira fabulosa de John Landis em “Um Lobisomem Americano em Londres”, com aquela insuperável transformação ao som de “Bad Moon Rising” do Creedence Clearwater Revival.

Ficha:
The Wolfman, EUA, 2010
Terror
102 min
Cinema
Cotação: *

 

18/02/2010, 07:17

Viver

Por: Divulgação Divulgação

Viver

O mestre Akira Kurosawa faz aqui uma profunda reflexão (por que não dizer celebração?) sobre a vida a partir da iminência da morte. Ele tinha 42 anos quando realizou "Viver", talvez sua obra mais pessoal, que está entre dois de seus filmes mais festejados, "Rashômon" (1950) e "Os Sete Samurais" (1954). Quem sabe por conta dessas comparações, não seja um filme tão consensual no meio da crítica especializada. Todavia, a abordagem direta das angústias de Kurosawa acerca do tema torna esta uma experiência quase transformadora. Claro, se você se permitir isso.

O ator Takashi Shimura brilha de forma comovente na pele de um funcionário da prefeitura que passa a questionar a vida apagada que teve ao se deparar com um câncer no estômago. Restando-lhe poucos meses de vida, ele de início se entrega aos prazeres e à bebida até por fim decidir dar um novo significado à sua existência. Resolve desafiar os trâmites burocráticos para transformar a fossa de um bairro em um playground para os moradores.

Com uma estrutura narrativa simples, o roteiro carrega nos diálogos expositivos como se fazendo verdadeiros tratados sobre esse lado da condição humana. O protagonista está sempre sendo guiado por personagens a lhe servirem de insights. A total falta de sutileza do urgente texto escrito a seis mãos tenta ser equilibrada pela estupenda mise-en-scène orquestrada por Kurosawa. Algumas cenas de diálogos são construídas de maneira fantástica, como a do homem no hospital dando ao protagonista as dicas sobre o modo como o médico lhe dará a notícia da doença. A maneira como ele muda de lugar, aproximando-se da câmera, é apenas uma das provas da brilhante direção deste filme.

Construído todo em cima de detalhes da mudança de perspectiva do personagem de Shimura, "Viver" quebra qualquer expectativa pré-formada ao apresentar uma radical reviravolta estrutural bem na metade, transferindo o ponto de vista aos então coadjuvantes da história (tal como fez em "Rashômon"). A partir disso, o filme adquire novo fôlego. Literalmente vai além da proposta inicial, escapando das armadilhas desse tipo de história e desaguando num desfecho que acomete várias reflexões ao mesmo tempo.

A vida celebrada através da morte. Um tema sempre caro ao artista, aqui contado com toda a maestria que só Akira Kurosawa poderia conceber.

Ficha:
Ikiru, JAP, 1952
Drama
143 min
P&B
DVD
Cotação: * * * * *

 

16/02/2010, 15:19

Onde Vivem os Monstros

Por: Divulgação Divulgação

Onde vivem os monstros

Spike Jonze continua a demonstrar seu enorme talento como contador de histórias nesta fábula melancólica acerca da solidão na infância. "Onde Vivem os Monstros" conta a história do travesso Max, que, após receber um castigo da mãe, foge para uma floresta selvagem onde termina se tornando rei das criaturas que ali habita. Encontrando uma rara oportunidade de ser o centro das atenções, Max tenta fazer com que tudo seja perfeito e divertido. Contudo, termina por perceber que mesmo distante da realidade nunca conseguirá fugir de si mesmo.

Inspirado pelo livro de Maurice Sendak, Jonze consegue transformar as poucas frases e ilustrações do autor em uma narrativa única, estruturalmente simples, mas explorada com uma sensibilidade surpreendente. O roteiro, assinado por Jonze e Dave Eggers, não esconde o fato das criaturas serem todas projeções das angústias de Max e facetas de sua própria personalidade. Isso torna a experiência mais interessante e lúdica, trabalhando questões como divórcio dos pais, raiva, tristeza e rejeição sempre do ponto de vista da criança, o que torna o filme significativo e muito comovente.

Não bastasse isso, Spike Jonze cria uma narrativa visual única, abrindo mão quase por inteiro da computação gráfica em prol dos bonecos animatrônicos criados pelo pessoal da Jim Henson's Creaure Shop. O resultado é tão perfeito que nos faz esquecer que são apenas fantasias sofisticadas, uma vez que a interação com o protagonista é muito bem trabalhada e cada criatura possui características e personalidades distintas.

No fim das contas, Spike Jonze fez um filme especial, que retrata a infância de uma maneira como poucos artistas fizeram. Cortesia tanto da empreitada corajosa do diretor (em seu primeiro grande trabalho sem o texto de Charlie Kaufman como apoio) quanto da fértil imaginação de Maurice Sendak. "Onde Vivem os Monstros" merece, sim, ser descoberto.

Ficha:
Where the Wild Things Are, EUA, 2009
Infantil
97 min
Indicado ao Globo de Ouro de Trilha Sonora
DVD -
Luis Correia
Cotação: * * * *