30/08/2010, 00:01
“(...) na Cidade de Deus, se correr o bicho pega... e se ficar o bicho come”. Mais do que um ótimo filme, Cidade de Deus é um prato cheio para a Psicologia Social mostrar a que veio, o que estuda e o que tenta modificar. Claro que, como na fita, a realidade não é pintada de rosa com laços coloridos completando o enfeite. O Brasil é um país de desigualdades sociais muito fortes e de políticas que nunca se acertam, portanto é um verdadeiro caldeirão de problemas de todos os tipos, sendo os sociais os mais relevantes para o nosso estudo. A frase acima talvez seja o melhor resumo do que enfrenta a Psicologia Social: a violência atinge a todos, sem discriminação. O conjunto habitacional retratado no filme, criado nos anos sessenta/setenta com um dos intuitos de amenizar a inchação urbana no Rio de Janeiro provocada pelo êxodo rural, o que decerto fazia crescer as favelas e todos os seus problemas, quer dizer, ainda faz, certamente é um laboratório perfeito para a observação da violência e suas tangentes; entretanto até mesmo nos bairros mais nobres convive-se com esse mal social. É algo de interesse de todas as classes e culturas, e a Psicologia Social bate justamente nessa tecla. Este texto vai se concentrar não numa análise geral do filme, e sim na abordagem de assuntos específicos dentro do contexto proposto, no caso as agressões, os tipos e os fatores sociais, usando para isso três personagens centrais da estória: Busca-Pé, nosso narrador-observador, Zé Pequeno, o vilão, e Mané Galinha, o anti-herói.
Define-se por agressão qualquer atitude ou comportamento que tenha a intenção de causar danos, sejam físicos ou psicológicos, em um outro organismo ou objeto. Portanto, estamos falando de um comportamento anti-social, e, se formos analisar bem, é só o que mostra o filme, seja no desejo de servir uma galinha no almoço quanto nos inacabáveis xingamentos entre os personagens, que é aquilo que chamamos de agressão simbólica. Vejamos o caso da grande figura do filme, Zé Pequeno. Podemos atribuir a ele a agressão do tipo hostil, ou seja, o desejo exclusivo de ferir o outro. Pequeno mata qualquer um sem pestanejar, o que revela uma personalidade completamente anti-social e perversa. Porém, não é assim tão simples. Uma só pessoa pode cometer todos os tipos de agressões. No momento em que Pequeno sai matando os donos de “bocas”, que são os lugares onde se vendem drogas, com o objetivo de tomá-las para si, ele está cometendo a agressão instrumental, que é o mesmo tipo de agressão que vamos encontrar em outro personagem mais na frente: Mané Galinha quer inicialmente apenas se vingar do estupro sofrido pela namorada e da morte do irmão e do avô, do mesmo jeito que Othon deseja vingar a morte do pai. A agressão sancionada é aquela aceita pela sociedade, como numa situação de legítima defesa. No filme, o exemplo mais próximo disso são os policiais em sua guerra diária contra os bandidos.
Existe uma infinidade de teorias que explicam os comportamentos agressivos. Em vez de enumerá-las todas, vou pegar alguns conceitos e trabalhá-los em cima de certos personagens do filme, incluindo os já citados, uma vez que esse é o objetivo do texto. A teoria biológica afirma que existe no indivíduo um impulso agressivo inato e instintivo. Seria então algo próprio do organismo, seja por fator hereditário ou por disfunções neurais. Isso explicaria porque num mesmo ambiente social existem pessoas boas e ruins. Levando para o filme, podemos notar que Dadinho, antes de crescer e ser rebatizado como Zé Pequeno, sempre teve um instinto de agressão mais apurado, que pode ser fruto de algo interno mesmo. A teoria é reforçada pelo fato de Busca-Pé não ter a mínima vocação para bandido, ainda mais quando tenta ser um. Isto é: ambos cresceram na Cidade de Deus; um enveredou pelo caminho da marginalidade enquanto o outro alimentava o sonho de ser fotógrafo. Já a teoria psicológica diz que o comportamento agressivo pode ser aprendido com outros seres humanos através da aprendizagem instrumental, reforçada, e da aprendizagem observacional, na qual temos os modelos agressivos. Isso também está representado no filme com os moleques da Caixa Baixa. Temos também a chamada hipótese da frustração-agressão, cujo comportamento agressivo é gerado pelo impedimento de alcançar um objetivo, como um emprego ou status social, que basicamente é o desejo dos bandidos tanto no filme quanto na vida real.
Agora vamos falar um pouco dos fatores sociais que influenciam a agressão. O efeito das armas é o que mais podemos notar no filme. Sem dúvida é um dos fatores mais importantes, uma vez que as armas facilitam e até mesmo estimulam os comportamentos agressivos. Um sujeito como Zé Pequeno com uma arma na mão tem coragem para encarar qualquer um que seja, sem medo algum. Daí passamos para o segundo fator, que é a provocação direta, que pode ser física ou verbal e que tende a gerar comportamento recíproco. A obediência à autoridade seria como uma “agressão legitimada” praticada por capangas, que se sentem executores de ordens lá de cima, do chefe. A desindividuação é a ausência do sentimento de individualidade, possessão do anonimato. Indivíduos que não podem ser identificados estão mais propensos a comportamentos agressivos. É o caso dos lenços e máscaras no rosto ao partir para cometer algum crime, como podemos ver algumas vezes no filme. O ambiente familiar também é um fator muito importante na perpetuação da agressividade, pois é nele que a personalidade ganha forma e conteúdo. Ambientes familiares violentos terminam por fabricar indivíduos violentos. Infelizmente isso é pouco mostrado na fita, assim como a questão das normas sociais, que ditam o que é ou não aceitável, muitas vezes de maneira nada justa.
Por fim, podemos afirmar que Cidade de Deus indubitavelmente cutuca a ferida da sociedade, nos mostra o quanto somos passíveis da violência e o quanto estamos desesperados para nos livrarmos dela. Nós estamos bem representados na fita: Busca-Pé é alguém que cresceu no meio daquilo tudo, mas que nunca se deixou entregar e nem de ter esperança. Mas o que pode fazer de fato a Psicologia Social para combater isso? Muita e ao mesmo tempo pouca coisa por causa da burocracia e da instabilidade do país. Primeiro, é preciso ter em mente que a violência é fruto das desigualdades sociais, e é por aí que devemos começar a agir. Particularmente, acredito muito na lei do desarmamento fora do papel, efetiva, por mais radical que pareça ser. Situações drásticas certamente requerem medidas drásticas. Entretanto, isso por si só não vai resolver o problema. A Psicologia Social tem que trabalhar com mais afinco no projeto de prevenção à violência, com acompanhamento psicológico e tudo, e possui o dever cívico de dar oportunidades às pessoas que querem mostrar o seu valor. Não é apenas observar a situação e formular teorias com o intuito de escrever livros para estudantes de Psicologia lê-los. Não adianta nada, apenas perpetua o mal. A Psicologia Social tem que ser ativa e cobrar do governo os meios para sê-lo. Temos a obrigação de tirar os marginalizados da violência. É tudo uma questão de conscientização, uma vez que eles nada mais são do que fruto da sociedade, individualista e injusta, na qual vivemos. Como o filme mostra com espantosa clareza, não é uma guerra simples de se vencer, muito pelo contrário. Entretanto, a esperança não pode morrer assim tão fácil, derrame o sangue que derramar. Nada de balas voando no ar. Este é o som que todo mundo quer ouvir.
16 de outubro de 2003 (antes do Novo Acordo Ortográfico)
9h46
Ficha:
Idem, BRA, 2002
Drama
135 min
Cotação: * * * *
Meu artigo sobre a obra de Fernando Meirelles escrito à época do lançamento pode ser acessado neste endereço: http://cinefiliaonline2010.blogspot.com/
23/08/2010, 02:51
A Origem
Uma ideia é como um vírus: uma vez despertada, ela corrói o organismo de dentro para fora na incessante busca de realização. As ideias podem ser perigosas no sentido de se tornarem tão resistentes a ponto de transformar o indivíduo por completo, bem como todo o seu futuro e o das pessoas à sua volta. Essa parece ser a tese defendida por Christopher Nolan em A Origem (péssima tradução do original Inception, ou inserção, termo explorado no filme), voltado ao sempre fascinante mundo dos sonhos e das portas ao inconsciente humano. Sabemos da descoberta do inconsciente por Freud como sendo uma das quebras no egocentrismo da humanidade, depois da aceitação da Terra girando em torno do Sol, e não o contrário, e da teoria evolucionista de Charles Darwin. Extrair coisas da mente é algo feito desde o início dos tempos, seja voluntária ou involuntariamente. Uma pintura, escrita ou até mesmo uma conversa são atividades de expiação do nosso subjetivo, pelo qual escapamos das armadilhas de um confinamento existencial em nós mesmos. Por isso todo ser caminha em direção ao externo de si, mesmo em um nível subliminar; o não dito se expressa de uma forma ou de outra, pode ser por meio dos sonhos ou de atos falhos durante o estado de vigília. Para os estudiosos, é a maneira que encontramos de estarmos em equilíbrio sem criar conflitos com nosso orgulhoso ego. A mente humana é de uma complexidade sensacional, e todo artista que se debruça sobre ela deve reconhecer o quão profundo pode-se ir num território desconhecido. Da mesma maneira, plantar sementes de ideias na cabeça dos outros passa por mecanismos conscientes e inconscientes, a eterna dialética da perpetuação de um jogo de poder e conhecimento. Ideologias já resultaram tanto em evolução quanto em involução do devir da experiência humana. Sim, ideias são coisinhas realmente perigosas. Elas constroem e destroem em proporções semelhantes. Engrandecem o espírito no mesmo passo com o qual alienam o coração. O que é uma ideia, afinal de contas? Para início de conversa, é a chave para entrar no fantástico mundo de A Origem.
Saído do estrondoso êxito de O Cavaleiro das Trevas, Nolan pôde realizar seu filme mais audacioso até agora: um thriller de espionagem corporativista transcorrida dentro da mente de seus personagens. Ao invés dos protagonistas voarem de um país a outro para roubar informações para seus contratantes, acessarem contas no computador ou sequestrarem parentes, eles entram em diferentes níveis da consciência dos concorrentes a fim de pegá-las da fonte. Isso é feito por meio do sonho compartilhado, técnica de fato existente só que exagerada em prol do grande cinema de entretenimento. No mundo real, o experimento do sonho compartilhado se baseia nos conceitos de Jung, o dissidente filho adotivo de Freud, acerca dos sonhos e dos arquétipos. Para ele, todos nós sonhamos o mesmo sonho, a diferença reside apenas nos símbolos usados por cada um. Se todos os sonhos de uma população fossem anotados, seria possível criar uma única história somente com trechos dos sonhos de pessoas que nem se conhecem. Incrível, não? No experimento, os participantes são divididos em três papéis: os arquitetos são aqueles que mantêm a estrutura do sonho, os atores ativos vão, como o próprio termo sugere, ativar os símbolos arquétipos primários e os observadores apenas observam o desenrolar do cenário montado no sonho, induzido pela leitura de algum relato no meio da noite (isso se restringe aos portadores dos símbolos). Ao despertar, todos escrevem o que conseguirem lembrar para assim construir essa narrativa onírica. Nolan encena a técnica do sonho compartilhado pondo os personagens efetivamente dentro da mente da “vítima”, digamos assim, durante um sono induzido; ela não sabe que está sonhando, ao contrário da equipe liderada por Leonardo DiCaprio. Nessa parte de ter consciência do sonho, podemos atribuir o conceito de sonho lúcido, quando é possível planejar aquilo o que se quer sonhar. Imagine você indo dormir querendo sonhar em visitar algum local específico do outro lado do mundo. Pela técnica do sonho lúcido, você poderia fazer qualquer coisa, ali na hora, sem perder a consciência de estar dentro do sonho. São mais ou menos esses os conceitos, calcados em estudos reais, que dão o mote para o enredo de A Origem ser desenvolvido, com toda a imaginação de seu brilhante realizador.
Quando se fala em sonhos, mente e inconsciente, a primeira coisa que vem à cabeça é a possibilidade de infinitas possibilidades na exploração desses temas. Se estamos dentro da mente de alguém, qualquer coisa se torna possível, não? Errado, pelo menos para Nolan e seus sonhos altamente estruturados. Tudo bem, ele precisa ter um roteiro amarrado, no qual tudo se interconecta de maneira excitante para o espectador não ter chance de piscar os olhos durante ininterruptas duas horas e meia de uma narrativa engenhosa. É cinema, uma história tem que ser contada e minimamente compreendida. Contudo, eu senti falta da quebra disso tudo, da desconstrução, nem que fosse só na camada mais profunda do inconsciente. É como se o ser humano de Nolan, em sua própria complexidade de motivações, fosse raso como um pires. Pense no inconsciente como um universo infinito se enchendo de outros universos infinitos a cada segundo e se desconstruindo em de volta de si ao mesmo tempo. Pense numa esfera espelhada assistindo a si própria se transformando por dentro em diferentes formas espelhadas. Agora veja que essa esfera é apenas um quadro de giz sendo arranhado por figuras geométricas sem uma forma conhecida. O que estou tentando dizer é que nosso inconsciente, nossa camada mais profunda, não se resume a um só sintoma latente. Em outras palavras, o trauma não produz a forma do nosso inconsciente, não é uma lembrança recalcada, e sim a junção holística de todos os pensamentos barrados pelo nível consciente. Estou fazendo o máximo para não falar nenhum detalhe específico da trama escrita por Christopher Nolan. Na verdade, é o que dizem: quando menos você souber da história, melhor deverá ser sua experiência. Sendo assim, pare de ler este artigo por aqui mesmo e corra para a sessão mais próxima de A Origem.
Não parou? Então vamos lá.
Quem assiste a muitos filmes, e não estou dizendo ser esse o meu caso, há pessoas mais jovens que já viram o dobro da minha lista, sabe que A Origem não é o filme mais original dos últimos tempos – aliás, sempre desconfie de frases assim. Dennis Quaid já entrou na cabeça das pessoas para assassiná-las durante o sonho em Morte nos Sonhos, de 1984, só para citar um exemplo. A sacada de Nolan, e o subtexto mais forte do filme, é entrar no que há de mais íntimo no ser humano, sua liberdade para pensar qualquer coisa, e descobrir um jeito de plantar uma ideia, de fazê-lo ter um insight. A perda da individualidade é um tema caro ao cineasta. Em Amnésia, Guy Pearce precisa se tatuar, expondo todos os seus pensamentos pelo fato de não conseguir retê-los. Já em O Cavaleiro das Trevas, Batman adere ao Ato Patriótico de Bush acessando os celulares de todos os cidadãos de Gotham City para encontrar a localização do Coringa. E agora os pensamentos escondidos até do próprio sujeito podem ser acessados, a última instância de uma liberdade individual se quebra. É como se ele estivesse indagando: você se considera uma pessoa livre, dona de seus próprios pensamentos? Você pode mesmo pensar o que quiser na segurança de ninguém nunca ficar sabendo? Se meu subconsciente pode ser vasculhado por uma quadrilha de ladrões sofisticados, então tudo o que eu penso conscientemente está saindo num alto-falante para todos ouvirem. Uma pessoa próxima e muito querida teve seu diário lido e copiado pela dona da pensão onde morava. Como se bastasse a repugnância do ato, a tal mulher, no mínimo uma megera frígida (a vontade de dar nome aos bois é um pensamento tentador; alguém está me escutando?), ainda ameaçou a garota de processo pelo o que estava escrito no diário. Você acredita nisso? Alguém, sem nenhum caráter, rouba seus pensamentos e ainda quer lhe condenar por tê-los? Pensei muito nessa história enquanto assistia ao filme de Christopher Nolan, e isso me fez ficar mais tenso do que o próprio filme em si. Bom eu ir avisando: se alguém entrar na minha cabeça, não me responsabilizo pelos sérios danos psicológicos que o invasor terá.
Esse aspecto amoral da premissa de A Origem não é mencionado por nenhum personagem. Um filme cresce muito quando se questiona, quando põe em cheque sua própria natureza. É ótimo quando isso acontece, quando a ousadia do comentário do autor vai além do subtexto e se volta contra a própria obra. Pena Nolan ter-se esquecido de ir além de um grande filme de imagens hipnotizantes. Mas isso não abala as inúmeras e sensacionais qualidades narrativas de uma obra cheia de camadas, que leva o espectador a uma viagem raramente vista no cinema. Sem ofender a inteligência de ninguém, o que por si só já é um excelente motivo para embarcar nessa experiência, a construção da trama é sem dúvida algo impressionante, embora um ou outro artifício seja usado de forma conveniente demais, como o tiro levado por um dos personagens apenas para complicar a vida de todos os outros. No entanto, tudo flui tão organicamente que é difícil alguém reparar nesses pecadilhos. Um que particularmente eu considero perigoso, no sentido do filme plantar uma ideia na cabeça de quem o vê, é como a morte é tratada dentro dos sonhos. Não é uma sacada nova, pois já estava presente em um dos conceitos da série Matrix, sobretudo na animação The Kid, na qual Neo faz um adolescente cometer suicídio para acordar no mundo real. Ideias assim não me comovem em prol da estrutura dramática. Já estão falando em A Origem virar uma religião, num gesto de compreensível entusiasmo diante da proeza alcançada por Nolan. É mais fácil ver o filme como uma distopia das formulações de Berkeley sobre o “olho que tudo vê”, o que é ou não real, até onde vai nossa liberdade, pensamentos monitorados. Enfim, quem já leu ou viu 1984 de George Orwell sabe que esses são medos antigos. Pensando bem, analisando a obra de cima, parece uma sofisticação do tema da lavagem cerebral nos filmes sobre a guerra fria, nos quais ideias são implantadas na mente das pessoas para fins políticos. Mudam-se a época, o cenário e os vilões explorados atualmente pelo cinema norte-americano, ou seja, as grandes corporações.
Contando mais uma vez com a incrível montagem de Lee Smith, indicado ao Oscar por O Cavaleiro das Trevas, e a música original de Hans Zimmer, muito diferente de seus trabalhos em comédias ou animações, A Origem literalmente segura o espectador na poltrona até o desfecho, no qual muita gente daria tudo por um frame a mais só para não ficar na dúvida cruel arquitetada por Nolan. Os fóruns de discussão sobre o final estão repletos de teorias para tentar descobrir quem foi enganado, o espectador ou o personagem de DiCaprio. As pistas para cada uma das hipóteses estão estrategicamente plantadas no decorrer da trama, mostrando como Nolan sabia o que estava fazendo. Afinal, ele mexia nesse roteiro há dez anos. O ritmo imprimido à narrativa disfarça bem seu lado absorvente, geralmente nas cenas com Ellen Page, representando o público. Smith e o diretor tentam ao máximo montar como um sonho estruturado a primeira camada da história, dando atenção às elipses e, principalmente, ao estado crepuscular, a transição entre o sonho e o despertar, quando ambos coexistem (lembra-se da Cameron Diaz indo beijar o Máskara e de repente começar a lamber a orelha dele, quando o corte nos faz descobrir o cachorro acordando Jim Carrey lambendo sua orelha? pois é). É um recurso usado em quase todos os filmes com cenas de sonhos, aqui levado a uma escala gigantesca, em determinados momentos de tirar o fôlego, como a melhor sequência de A Origem: a do corredor do hotel girando e depois perdendo a gravidade. Mas não para aí. Pelo menos quarenta minutos de filme ou mais acontecem em quatro níveis diferentes da consciência ao mesmo tempo, cada uma com um ritmo de montagem distinto da outra. É quando Christopher Nolan diz a que veio, extravasando o conceito griffithiniano da montagem paralela sem perder nunca o fio da meada. Quem conhece ligeiramente os mecanismos da linguagem cinematográfica, vai sentir uma emoção avassaladora por estar vivo presenciando àquilo. A segurança dessa construção da montagem é espetacular. Quando você percebe que um terço da história se passa em alguns segundos é que entende a grande experiência proporcionada por uma ideia plantada na mente de um cineasta no auge de sua criatividade. E o que é uma ideia, afinal de contas? Uma informação inserida com tanta maestria na nossa mente, que sequer notamos que o tempo todo as verdadeiras cabeças invadidas foram as nossas.
Ficha:
Inception, EUA/GB, 2010
Suspense
148 min
Cinema – com Jamila, Renée e Torge
Cotação: * * * *
04/08/2010, 00:07
Salt é, na verdade, um híbrido cinematográfico. Híbrido se diz quando as possíveis referências deixam de ser tratadas como referências para se entranharem na obra como parte orgânica de seu processo. Explico: trata-se de um filme de ação tematicamente retrô, já que ressuscita a guerra fria no cinema, remetendo a um montante de plots populares nos anos 70 e 80, nos quais os russos eram os vilões e o imperialismo norte-americano era defendido por heróis patriotas e imatáveis. Sempre renderam filmes absorventes e algumas vezes descompromissados. Mas Salt é também um thriller antenado com as tendências do gênero, basicamente as impostas pela trilogia Bourne, tanto nas peripécias da protagonista quanto na condução das sequências de ação, frequentemente jogando o espectador no olho do caos, por assim dizer. Contudo, não é nada disso que faz dele um filme interessante de se ver. Se formos levar em conta a estrutura e os desencontros do roteiro escrito por Kurt Wimmer (Equilibrium e o péssimo Ultravioleta), Salt até poderia não passar de uma matinê, de uma cria comum dos filmes de ação da atualidade. Há um nome a ser considerado aqui: Angelina Jolie. Sim, num mundo onde os Jason Bournes e os Ethan Hunts dominam esse filão do mercado do entretenimento audiovisual, é maravilhoso termos uma mulher protagonizando um “filme de homem”, e à altura. Na minha memória recente, Milla Jovovich chegou primeiro com a franquia Resident Evil, mas seu personagem sempre fora uma mulher desde o game. No caso de Jolie, ela pegou um papel originalmente escrito para um homem – no caso, Tom Cruise, que obviamente iria se repetir – e fez melhor. Se não fosse ela protagonizando todas aquelas sequências de ação já vistas um milhão de vezes no cinema, eu certamente cairia no sono. Numa época traumatizada com a decadência do machismo, ver Angelina Jolie como uma agente da CIA suspeita de ser uma espiã russa (sim, a Anne Chapman de Hollywood) é no mínimo empolgante, e sinceramente torço para isso se tornar mais e mais frequente.
Mas “quem é Evelyn Salt?” Esta é a pergunta que fica martelando nossas sinapses até os minutos finais do filme dirigido por Phillip Noyce, cujo último trabalho digno de nota fora o ótimo O Americano Tranquilo, de 2002. Noyce não é nenhum marinheiro de primeira viagem em relação ao gênero, vide Jogos Patrióticos e sua continuação, Perigo Real e Imediato, ambos com Harrison Ford interpretando o agente da CIA Jack Ryan. Lidar com russos tentando anarquizar os Estados Unidos é uma praia conhecida, além de excelente desculpa para cenas de ação capazes de competir com um Duro de Matar desses da vida. E o que não falta nem sobra é Salt saltando (não pude resistir) de pontes para caminhões em movimento e destes para motos, na boa e velha linha de tentar provar a inocência. Mas o roteiro se dá ao luxo de algumas reviravoltas apenas para continuarmos reverberando “quem é Evelyn Salt?” Um bom filme deixa todas as respostas para o final. No caso de Salt, o roteiro de Wimmer segue à risca a fórmula “inocente-culpada-inocente”, assumindo sua obviedade no desfecho, estragado por um erro básico de direção: a escolha do elenco. Não é preciso ser gênio para saber que um ator famoso num papel de aparente coadjuvante sempre se revela no final, principalmente quando tal ator participa de um filme (ou remake de um) com abordagem semelhante. Estou falando de Liev Schreiber, cujo papel em Sob Domínio do Mal (2004) possui certa ligação com sua presença em Salt. Outro ponto do roteiro é o fato de Wimmer parecer mais preocupado em dar, prioritariamente, motivações à protagonista em detrimento de uma maior sensação de otimismo para a jornada da heroína. Não chega a ser um grande defeito, mas os irritantes flashbacks que pipocam a toda hora e quebram o ritmo só servem para uma cena em particular, como se o roteirista não acreditasse que o simples fato dos personagens terem uma ligação afetiva seja o suficiente para comover o espectador. E depois isso resulta apenas num Ponto de Virada forçado para o último ato.
Numa análise geral, Salt é bom cinema pipoca. Inteligente em seus pontos estratégicos, mirabolante em poucas sequências, mas, sobretudo, cativante em sua primeira parte, quando o carisma de Angelina Jolie nos faz acreditar nela e torcer para os seus obstáculos serem cada vez mais difíceis, somente para nosso deleite enquanto apreciadores da desgraça alheia. Afinal, ser cinéfilo é, antes de tudo, ser voyeur da superação da realidade, da dor física e dos nós sentimentais. É para isso que pagamos o ingresso, para desconstruir por pelo menos duas horas todos os conceitos que nos prendem a nós mesmos. Angelina não supera seu trabalho anterior, o ótimo O Procurado, porém comprova ser mulher suficiente para segurar sem problemas um grande papel físico e ainda ir para casa no fim do dia cuidar dos filhos e do maridão. Fora isso, é sempre refrescante gastar algum tempo num filme de espionagem e contra-espionagem com todos os exageros a que tem direito. Não arranha pérolas como as baseadas nos livros de Frederick Forsyth, ou Maraton Man (Maratona da Morte), The Naked Runner, O Dia do Chacal, até mesmo o The Manchurian Candidate original de 1962. Em contrapartida, é excitante uma versão feminina de Bourne-McClane-McGyver-Hunt-Bauer sem, contudo, soar como um apelo feminista. Enquanto beldades como Megan Fox se apóiam em seus dotes corporais para atrair bilheteria, Angelina é capaz de se disfarçar de homem (numa maquiagem estranha, devo dizer) para mostrar que a mulher pode servir à história sem qualquer distinção de gênero. Pena não ser assim o tempo inteiro – para os marmanjos cheios de espinhas a lógica deve ser outra. Por diversas vezes em Salt eu quis gritar algo como “Angelina Jolie é o cara!”, mas o máximo que saiu foi um “Ela é boa” tímido para não enfurecer os prováveis machistas perto de mim. Se o filme funcionaria do mesmo jeito com um protagonista masculino não sei afirmar, visto a saturação do gênero (o fracasso de Encontro Explosivo, exatamente o oposto de Salt, indica isso) acredito que não. No fim das contas, a fórmula de filmes de ação continua a mesma. Entretanto, da próxima vez que eu ver Angelina Jolie derrubando vinte figurantes sem pestanejar ou se lançar com carro e tudo de cima de um viaduto sem sair toda quebrada, prometo que grito com todo o ar dos meus pulmões: “Ela é o cara!” E saio correndo.
Ficha:
Idem, EUA, 2010
Ação/Suspense
100 min
Cinema – com Marcão
Cotação: * * *
Serviço:
A Locadora Vilex se localiza na Av. Nações Unidas, 1270. Contato: (86) 3218-6054 e (86) 8806-6054.
02/08/2010, 00:09
Antes de mais nada, quero pedir desculpas aos possíveis leitores deste texto, pois desde já afirmo que esta suposta crítica será completamente afetada, desde a primeira à última vírgula. O motivo disso é muito simples: descobri o Demolidor nos quadrinhos basicamente na mesma época em que descobri o Homem-Aranha e o Hulk, talvez um pouco antes até. Estes três super-heróis ficaram sendo os meus favoritos, cada qual por uma razão particular, apesar de hoje só continuar comprando as revistas do Aranha (que atualmente está em uma de suas melhores fases, graças ao roteirista J. Michael Straczynski, que substituiu o herege Howard Mackie), por questões óbvias de dinheiro. Confesso que foi uma decisão difícil (a saga do Demolidor havia terminado e haviam matado Betty Banner). Conhecia a obra de Frank Miller, que reinventou o Demolidor nos anos 80, por alto e realmente adorei o que Kevin Smith (sim, o próprio diretor de Procura-se Amy e Dogma e... você sabe o que mais) fez com o personagem na ocasião. Talvez seja por culpa de Kevin Smith que criei uma imagem fixa do Demolidor em minha cabeça e tenha tido uma expectativa reversa em relação ao primeiro longa-metragem levado às telas do alter-ego do advogado Matt Murdock. Entretanto, é meu dever informar que não me considero um exímio especialista no Homem Sem Medo e minhas considerações terão como base meu simplório conhecimento sobre o caso (parece um advogado inexperiente falando, não?), vindo de fontes diversas e quase todas recentes.
Demolidor tem exatamente 39 anos, ou seja, é dois anos mais novo que o Homem-Aranha, tanto é que, nos quadrinhos, Matt Murdock se “inspira” no Amigão da Vizinhança para combater o crime travestido de demônio. Parece um paradoxo, hein? Na verdade, o personagem criado por Stan Lee e Bill Everett parte de um clássico paradoxo: Murdock vira advogado por acreditar cegamente (este trocadilho não foi intencional, juro) na lei, mas faz justiça com as próprias mãos quando ela se mostra falha. As semelhanças entre o Demolidor e o Homem-Aranha são grandes, assim como são suas diferenças. Ambos habitam a cidade de Nova York e geralmente estão na ativa à noite, possuem vermelho em seus uniformes, de certa forma têm sentidos aguçados (um sobrevive com um sexto sentido e o outro com quatro ampliados), viraram super-heróis após a perda de um parente, uma ou outra vez compartilham os mesmos inimigos e se ajudam “numa boa”. Demolidor se considera um justiceiro, enquanto o Homem-Aranha quer somente ajudar. O primeiro é mais sombrio e atormentado que o segundo. Este tem piadas mais descoladas e tenta encarar a vida com bom humor, mesmo tendo menos condições financeiras. O bordão das desventuras de Peter Parker, dito por seu tio Ben, é: Grandes Poderes Trazem Grandes Responsabilidades. Já o das de Matt Murdock, dito por seu pai, é: A Gente Pode Conseguir Tudo se Não Tiver Medo. Enfim, não podemos dizer que um é o exato oposto do outro, apesar de terem seus momentos, e nem que são primos. Onde começa o Aranha e onde termina o Demolidor? Aqui está uma pergunta que só o próprio Stan Lee pode (arriscar) responder.
Introduzido o personagem e feito o paralelo com o Homem-Aranha (que não foi por acaso, como você verá), vamos nos deter a partir de agora ao filme do Homem Sem Medo. O diretor e roteirista Mark Steven Johnson sempre foi fanático pelo Demolidor e literalmente teve que implorar para que os produtores, entre eles Avi Arad, o mesmo de você sabe quem, lhe confiassem o projeto. Conseguiu, através de Kevin Smith, Ben Affleck para o papel principal, sendo que o pretendente a ator também é fã incondicional do herói, e reuniu um time de apoio de primeira qualidade: a bela e talentosa Jennifer Garner (já falaremos dela), em seu primeiro papel de destaque no cinema, o novo astro em vertiginosa ascensão Colin Farrel e o sempre ótimo (até mesmo quando está fantasiado de macaco) Michael Clarke Duncan. Não há como negar que é sempre melhor confiar em alguém que conhece o material profundamente do que em quem nunca leu uma linha sequer daquilo o que vai trabalhar. Será certa esta afirmação? Nem um pouco. É só pensar em Bryan Singer e outros para quebrar ao meio tal lógica. É só pensar no próprio Mark Steven Johnson. Não quero dizer que seu trabalho em Demolidor – O Homem Sem Medo é ruim. Longe disso. Johnson até conseguiu desenvolver alguns conceitos interessantes que só somam ao legado do personagem. Entretanto, ele se entusiasmou demais e cometeu deslizes e equívocos no percurso. Aqueles que tiverem adorado o filme devem estar neste momento me xingando de tudo o quanto é nome. E com razão, talvez.
Ao menos, Johnson foi esperto o suficiente para se manter fiel o máximo possível ao herói e sua origem. Quando criança, Matt Murdock sofre um estranho acidente envolvendo isótopos radioativos num produto químico, o que tira sua visão para sempre. Em compensação, tem seus demais sentidos sobre-humanamente aguçados, o que confere ao garoto uma “visão” até mesmo melhor que a de quem enxerga. O pai pugilista é quem o ajuda a superar a perda da visão e a viver como uma pessoal normal. No entanto, ao recusar entregar uma luta, Jack Murdock é assassinato por seu chefe. Este é o estopim (pelo menos no filme) para Matt se transformar no Demolidor após crescer e se formar em Direito, abrindo um escritório de advocacia na Cozinha do Inferno, lugar onde cresceu, junto com o amigo e sócio Franklin Nelson, a quem apelida carinhosamente de Foggy. A trama realmente começa quando Matt conhece a grega Elektra Natchios, cujo pai trabalha para Wilson Fisk, o intitulado Rei do Crime. Quando o velho Natchios decide cair fora da organização de Fisk, este contrata o assassino Mercenário para resolver o problema. De fato o resolve e ainda por cima incriminando o Demolidor. Elektra promete vingança sem saber que o rosto por trás da máscara é bastante conhecido e Mercenário parte para um acerto de contas com ambos.
Bem, em relação à direção serei o mais claro e direto que conseguir ser: Mark Steven Johnson concede uma direção técnica irregular e abusa do estilo equivocado de videoclipe, explicitamente inspirado nos filmes de ação japoneses. Desde o trailer tinha ficado meio desconfiado com todo aquele estilo pós-moderno e ao ver o filme na íntegra minhas suspeitas se confirmaram: houve entusiasmo demais por parte do diretor e (falando como alguém que é fã de todo tipo de cinema) acredito que o filme não foi dirigido corretamente. Não precisava tanta estilização. Bastava um clima sombrio e assustador para que o efeito da história fosse ainda melhor. Um personagem até certo ponto sombrio e perturbado requer imagens sombrias e perturbadoras, e não perturbadas. Tudo bem, reconheço que Johnson fez algumas tomadas bem elaboradas, principalmente na primeira metade do filme, e isso deve ficar registrado. Porém, o geral contém falhas. Alguns críticos disseram que Sam Raimi, na época de Homem-Aranha, havia dirigido o longa com tomadas “tiradas” dos quadrinhos. Conferindo o trabalho de Johnson, essa afirmação se mostra um tanto equivocada (embora não seja de todo mentira), já que as imagens de Demolidor lembram mais ainda uma história em quadrinhos. Repare bem nos planos parados ou com um mínimo de movimento contendo o herói para perceber que existe alguma verdade no que estou dizendo. Sam Raimi pegou o Homem-Aranha e fez um filme, enquanto Johnson fez uma história em quadrinhos em película, em carne-e-osso e CGI. Mas não vamos somente atirar pedras no diretor, pois, como disse há pouco, ele criou algumas coisas interessantes, como o efeito “mundo das sombras”, que nos revela a perspectiva do herói e sua visão através da audição (isso poderia ser considerado um caso de sinestesia?) e de componentes que irrompem o ar, como fumaça, perfume, ou a própria chuva, que concede algumas das cenas mais bonitas do filme.
O roteiro, do mesmo Johnson “fuzilado” no parágrafo acima, é outro ponto controverso: demonstra muito conhecimento de causa, mas pouca habilidade narrativa. Não me entendam mal, é um roteiro divertido e tem lá seus momentos. Entretanto, não vemos muita criatividade na elaboração do desenvolvimento da trama. É fiel o quanto pode à história original e à relação entre os personagens, e ganha ponto por isso. No entanto, Johnson, que era especialista em comédias bobas (vide Dois Velhos Rabugentos e sua continuação, escritos por ele), peca em não desenvolver ao máximo o potencial de cada personagem, tornando alguns bons coadjuvantes meros enfeites, e em não amarrar direito as pontas. Todo mundo se encontra facilmente nos momentos certos e as soluções encontradas pelo roteiro são as mais fáceis possíveis, tirando do espectador o direito de uma angústia saudável sentado na poltrona. Cabia ao Demolidor pelo menos desvendar a identidade do Rei do Crime e a verdade por trás da morte de seu pai (repare que o recurso da rosa não serve para coisa alguma, no fim das contas), mas nem isso é o personagem que faz. O julgamento que se tem mais ou menos no início do filme é ridículo, parece tirado de algum desenho do Cartoon Network. Matt Murdock é ou não é um bom advogado? O filme de Mark Steven Johnson não responde isso, infelizmente. Também temos a maneira como ele começa a se relacionar com Elektra: na minha opinião, parecia um filme infantil de ninjas-mirins brincando no playground. Isso sem mencionar os furos do roteiro, como não explicar de onde vem o Mercenário, por que ele precisou ser chamado de longe só para dar cabo num velho grego (qualquer capanga seria capaz de tomar conta disso, não?), quem na verdade deu ao herói o adjetivo de “homem sem medo” e o pior de todos: a motivação para Matt Murdock se transformar no Demolidor.
No filme, a alcunha dada ao herói de o “homem sem medo” é simplesmente jogada no ar, digamos assim. Sem mais nem menos, o Rei do Crime passa a se referir ao Demolidor como o Homem Sem Medo, quando na verdade foi Karen Page quem o apelidou assim. O título original Daredevil quer dizer algo como “Demônio Ousado”, o que torna também mais compreensível o rótulo dado ao herói. Isto é, o público leigo não norte-americano e que não é familiarizado com o personagem pode ficar se perguntando como diabos o Rei do Crime chega a essa conclusão tão bruscamente. Por falar em Karen Page, quem lê ou já leu os quadrinhos do Demolidor sabe que ela é quem foi na verdade o grande amor de Matt Murdock, assim como Peter Parker e Mary Jane ou Bruce e Betty Banner, e que Elektra foi apenas um dos fortes casos que o advogado justiceiro teve. Nada contra o diretor preferir dá ênfase ao romance entre ela e Murdock, é mais comercial e fácil de interligá-lo ao Mercenário. Mas chegar a ponto de reduzir Karen Page a uma ponta ridícula? A personagem pode não parecer, mas é muito rica, cheia de altos e baixos e passagens obscuras. Para fins de curiosidade, ela é assassinada pelo mesmo Mercenário do filme na edição 4 da Marvel 2000. Já o vilão interpretado por Colin Farrel sofreu mudanças radicais no visual. A fantasia azulada cedeu lugar a um sobretudo esverdeado e o símbolo de alvo que ostenta na testa se transformou numa cicatriz no mesmo local. É um personagem bárbaro, um Jackie Chan do mau, pois tudo o que toca vira uma arma mortal, inclusive os próprios dentes (leia a saga de Kevin Smith). Falando no que Smith fizera com o Demolidor, é possível notar algumas coisas sutis tiradas dessa saga, mas até onde sei o padre que sempre escuta as confissões de Matt Murdock não sabe que ele e o Demolidor são a mesma pessoa. Nos quadrinhos, o personagem é extremamente religioso e cheio de conflitos com sua fé, como todo católico que se preze, o que também é muito pouco retratado pelo filme de Mark Steven Johnson.
Falemos um pouco sobre o elenco. Não tenho certeza se Ben Affleck foi de fato a melhor escolha para viver o herói. Affleck é e dificilmente deixará de ser um canastrão e sua atuação limitada como um cego comprova isso (tiveram que pôr nele lentes de contato grossas para ajudar no convencimento). Quando está fantasiado é difícil dizer alguma coisa, pois a pancadaria é tão grande e rápida (culpa de uma edição confusa) que todo mundo vira bom ator. Já Jennifer Garner só acumula elogios e suspiros. Sou suspeito de falar, a acompanho desde a série Alias, com a qual ganhou o Globo de Ouro, e a considero bastante talentosa em todos os sentidos. Ela se dá muito no papel de Elektra, tanto que a personagem deve ganhar um filme solo em breve, e sua química com Affleck convence (os dois se beijam pela primeira vez debaixo de chuva, o que nos faz ter uma sensação de deija vú). De qualquer maneira, se Quentin Tarantino aplaudiu a moça e disse categoricamente que ela não fica desempregada não importa o que faça, quem sou eu para discordar. O queridinho da América Colin Farrel também rouba a cena. E como! Na pele do Mercenário, ele é o melhor motivo para assistir ao filme, até mesmo depois que ele termina. Após puxar (ou ensaiar puxar) o tapete de pesos-pesados como Bruce Willis (A Guerra de Hart), Tom Cruise (Minority Report – A Nova Lei) e Al Pacino (O Novato), ele encara seu primeiro grande protagonista no thriller de Joel Schumacher, Por um Fio. Se continuar assim, ele ainda vai longe. Houve uma polêmica fascista em torno da escolha de Michael Clarke Duncan para o papel de Wilson Fisk, o Rei do Crime, somente porque o personagem nos quadrinhos é branco. Pura perda de tempo. Duncan é um grande intérprete e está bem no filme. Se houve alguma desvirtuação no perfil do vilão, a culpa é do roteiro (ou do diretor, se preferir). O simpático e engraçado Jon Fraveau interpreta Foggy, o amigo de Matt Murdock, e aqui faço uma ressalva: nos quadrinhos, Foggy se destaca bem mais do que no roteiro de Steven Johnson, que o transformou em um mero coadjuvante de segunda (sim, isso existe) ao invés de deixá-lo como ele é, ou seja, um alívio cômico de primeira (não, para mim uma cena só não basta). Fechando o elenco, temos Joe Pantoliano dando vida ao repórter Ben Urich, um dos poucos defensores do Demolidor na mídia (talvez o único).
Demolidor, o filme, foi inicialmente concebido como um projeto modesto, um experimento de pouco risco, até o sucesso de Homem-Aranha fazer subirem os números do orçamento da produção da noite para o dia. Talvez esta tenha sido a grande sorte (ou o grande azar) de Mark Steven Johnson. Ele simplesmente recheou a obra com muita ação e pancadaria, o que decerto agrada os adolescentes e aumenta a bilheteria. Em compensação, esqueceu-se da história a ser contada. O que vemos na tela é um filme extremamente rápido, que de repente pula para o final como se muita coisa estivesse faltando. De fato, a impressão é de que estamos assistindo a um filme todo recortado e remendado, e muito de seu resultado não tão satisfatório deve-se a isso. Steven Johnson afirma que a obra sofreu sérias modificações e cortes para que chegasse aos cinemas com baixa censura (por causa de quem? Do Homem-Aranha!) e promete um filme maior e melhor em DVD. Esperamos que a promessa seja prontamente cumprida. Enquanto isso fiquemos apreciando a melhor coisa em Demolidor – O Homem Sem Medo: suas referências. É de deixar qualquer leitor de quadrinhos empolgado. Há referências ótimas desde o desenhista John Romita ao editor Joe Quesada, passando por aparições do próprio Frank Miller, do mestre Stan Lee (melhor do que em Homem-Aranha) e de Kevin Smith, que interpreta o encarregado do necrotério Jack Kirby. É como muitos estão dizendo: funciona bem como uma matinê, e sendo assim comparo este filme com Malditas Aranhas!, pois se você teimar em levar a sério pode se frustrar bastante. Nem sempre o fã faz o melhor trabalho. Pelo menos não neste caso.
Teresina, 16 de março de 2003
20h04
Ficha:
Daredevil, EUA, 2003
Aventura
103 min
DVD
Cotação: * * *
Serviço:
A Locadora Vilex se localiza na Av. Nações Unidas, 1270. Contato: (86) 3218-6054 e (86) 8806-6054.
* Artigo escrito antes do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
* Existe uma “versão do diretor” com trinta minutos a mais.
19/07/2010, 09:46
José Mojica Marins é um dos cineastas mais prolíficos do nosso cinema: participou de mais de cem filmes, dentre diversas funções. Assina mais de vinte e cinco longas-metragens como diretor, um número que deve ser mais do que respeitado. Precursor do cinema de horror no Brasil, embora tenha transitado por diversos gêneros, desde o faroeste (seu primeiro filme, “Sina de Aventureiro”) ao melodrama, passando pela comédia e pornochanchada, e, lógico, o cinema fantástico que o consagrou. Influenciou também dois importantes movimentos da cinematografia tupiniquim, nada menos que o Cinema Novo e o Cinema Marginal. Não bastasse isso tudo, é o criador de umas das figuras mais populares de nossa cultura, Josefel Zanatas. Vulgo Zé do Caixão.
Nascido num pesadelo no qual Mojica é arrastado por uma figura escura, sem rosto e com uma capa preta até um cemitério e lá contempla uma lápide com o seu nome, a data de nascimento e o ano em que iria morrer, Zé do Caixão veio como resposta ao seu conflito com os padres que colocavam dificuldades para a exibição e distribuição de seus filmes. Tudo começou porque “Sina de Aventureiro” tinha uma cena de nudez, embora contextualizada. Então, seguindo o conselho do padre Lopes, Mojica fez “Meu Destinos em Tuas Mãos”, drama sobre crianças tendo os padres como os heróis da fita. A jogada não deu certo e num surto de revolta e criatividade nasceu Zé do Caixão, o sombrio agente funerário que ri das crenças e dos mitos religiosos e que vive à procura de uma mulher ideal para ser mãe de seu filho. Segundo Zé, o sangue é a razão da existência, e ela só faz sentido se um filho for gerado para dar continuidade ao sangue.
“À Meia-Noite Levarei a Sua Alma”, primeiro filme com o personagem, possui uma apresentação teatral do próprio Zé do Caixão: “Prestem atenção, pois meu criador fez minha primeira aparição neste filme, em 1963”. Pede atenção aos diálogos e às vítimas, ou, como ele mesmo chama, os escolhidos que vão para uma outra. Péssimos sonhos. Então o filme começa: “O que é a vida? É o princípio da morte. O que é a morte? É o fim da vida. O que é a existência? É a continuidade do sangue. O que é o sangue? É a razão da existência.” Nessa abertura, Mojica deixa claro logo de cara sobre o que fala seu filme. Como bom cineasta, ele sabe que o público somente entenderá que ele está falando sobre a perpetuação da espécie, da continuidade do sangue, ou seja, da paternidade mais adiante ou quando assistirem ao filme uma segunda vez. É possível perceber por essa construção lógica que a morte só pode ser vencida pela vida, ao se gerar um filho, um fruto, um perpetuador do seu sangue. Afinal, como diz Deuterônimo: “sangue é vida”.
A entrada do personagem Zé do Caixão, que é um agente funerário, é antológica, uma apresentação de impacto. Primeiro, acontece durante um enterro, nada mais apropriado. Então, um clima de tensão e as pessoas olhando desconfiadas numa mesma direção. Corte seco. Um plano geral do personagem, numa postura mais superior do que ameaçadora. Novamente uma certa ambiguidade. Mas já estabelece a relação de medo dos moradores daquele vilarejo para com essa soturna figura. Os diálogos do Zé do Caixão têm um misto de humor negro e subversão, afinal ele insiste em comer carne mesmo sabendo que é sexta-feira santa e, portanto, ninguém come carne. Talvez a cena mais forte do filme, nesse sentido, seja a dele comendo carneiro e zombando da procissão dos fiéis pela janela. O humor é um dos principais atrativos do filme. Zé do Caixão sempre termina a cena tentando sair por cima com uma frase de efeito ou uma risada maldosa. E é assim que Mojica consegue criar e manter o mito de seu anti-herói junto aos demais personagens, dando-lhe a autoconfiança necessária para se impor, a frieza para decepar um dedo ou enfiar uma coroa de espinhos no rosto de um. O medo exercido por Zé do Caixão vem de seu descaso com a religião, sempre zombando dela com falas e atitudes, o que leva à crença popular de que ele é compactuado com o próprio demônio ou algo do gênero. Mojica, mais uma vez, brinca com o público em relação a isso, já que não fica claro até certo ponto do filme se é verdade ou não.
O filme tem sua primeira virada na trama quando Zé do Caixão percebe que não adianta permanecer com uma mulher que não pode ter filhos. “Qual o valor da vida, se não há um filho para a continuidade do sangue?”, ele reflete. Seus versos no início da projeção começam a fazer sentido. Atraído pela noiva saudável do melhor amigo, Zé entende que é ela que pode aplacar sua angústia existencial de não ter um filho. Para isso tornar-se realidade, ele precisa tirar os obstáculos de seu caminho. Com requintes de sadismo, primeiro ele se livra da esposa infértil. Interessante perceber que após a cena do médico confirmando o óbito, Mojica parece fazer uma referência ao seu filme anterior, “Meu Destino em Tuas Mãos”, ao mostrar um pai maltratando o filho, justamente o tema (ou um dos) do filme citado.
O diálogo entre Zé do Caixão e Antônio, antes daquele dar fim neste, é interessante por conceber ao público uma chance de conhecer melhor o fúnebre protagonista desta obra. O roteiro se mostra inteligente dentro de sua própria concepção, ampliando-a um pouco, quando Zé fala de si e de por que consegue se impor e ser temido pelos outros. A essa altura, já se sabe que ele não é supersticioso e nem acredita no sobrenatural, mas ele faz questão de ressaltar que não pode ter descrença quando nunca teve crença e que as pessoas são fracas porque são escravas de algo que elas mesmas desconhecem. Zé acredita que, no fundo, não é sua roupa preta ou sua suposta descrença que fazem as pessoas o temerem, e sim pelo fato de ser mais forte e inteligente. Enquanto as outras pessoas são escravas da vida por causa de suas crenças, ele, Zé do Caixão, acredita única e exclusivamente em si mesmo e por isso consegue ser superior a elas. Sem lances de humor, essa cena critica duramente a alienação da humanidade em acreditar mais na religião e no que ela dita do que em si mesma. Um exemplo de porque José Mojica Marins foi considerado transgressor pela ditadura e levado a fazer cinema pornô para pagar as contas.
Embora tenha empregado atuações teatrais ao filme, Mojica sai-se como um excelente diretor. A cena na qual Zé do Caixão abusa de Terezinha enquanto a câmera fica no detalhe da mão dela estrangulando o passarinho é um dos exemplos mais claros disso. As cenas de violência também são muito bem filmadas, considerando-se as limitações da produção à época. Para se ter uma ideia dessas limitações, a morte de Antônio seria durante a pescaria comentada em certo ponto do filme, mas terminou sendo numa banheira. No geral, Mojica consegue lidar de forma extraordinária com a falta de recursos e surpreende por entregar uma obra bem resolvida, cheia de nuances interessantes que podem ser notadas até hoje, mais de quarenta anos depois de sua estreia.
A genialidade da construção do personagem Zé do Caixão está na maneira como foi inserido numa história que fala de superstição e crendice popular acerca da morte. Não é à toa que tudo se passa numa cidadezinha interiorana, na qual Zé vai de encontro ao inconsciente coletivo do lugar ao questionar com seu senso de humor mordaz as introjeções da população. Apesar de ser uma criação nacional, Zé do Caixão é uma figura de apelo universal, tanto que sempre fez enorme sucesso fora do país (nos Estados Unidos, é conhecido como Coffin Joe). E Mojica construiu sua trama como se pudesse acontecer em qualquer lugar do mundo, por isso o clima do filme pode lembrar muito as histórias de vampiros e monstros europeus, uma vez que o próprio cinema norte-americano importou de lá seus três monstros mais iconográficos: o Drácula, o Lobisomem e o Frankenstein. Para nosso orgulho, Zé do Caixão é de berço tupiniquim, fruto de um pesadelo do seu criador e que saiu das telas do cinema para se tornar parte do próprio inconsciente coletivo da nossa cultura. Quando se pensa em personagens nossos, Zé do Caixão vem logo à mente.
“À Meia-Noite Levarei Tua Alma” é um filme fascinante por introduzir um gênero o qual não se achava que pudesse ser feito aqui no Brasil. Quando a grande maioria dos cineastas se voltou para questões de cunho social, prestes a nascer o Cinema Novo, veio Mojica com uma fita de terror modesta, quase que rodada num quintal, mas com grande apelo de público e crítica – mais de crítica do que de público, para falar a verdade. Glauber Rocha não o bradou de gênio à toa, não. Ele era conhecedor das enormes dificuldades encontradas por Mojica para realizar o filme. Mesmo assim, Mojica conseguiu fazer uma obra original, concisa e cheia de camadas, apoiando-se numa narrativa clássica, redonda, que fez com que o filme fosse sucesso no estrangeiro. Zé do Caixão é, em essência, um serial killer brasileiro, um psicopata no mínimo inusitado: ele está apenas em busca da mãe perfeita para seu filho. Mojica fez dele um personagem iconográfico ao inseri-lo numa trama acerca das superstições em relação à morte, notadamente as do interior, fazendo dele um agnóstico com senso de humor mordaz. A genialidade do autor está em criar o contexto ideal para sua criação sair da dimensão meramente ficcional e criar ecos no inconsciente coletivo. E José Mojica Marins conseguiu isso. Zé do Caixão é o arquétipo da contestação dos mitos religiosos. Profano ou não, é um personagem brilhante, universal, e, ao mesmo tempo, nosso, da nossa cultura.
Confundindo criador e criatura, Mojica fez de “À Meia-Noite Levarei a Sua Alma” uma pequena obra-prima do cinema nacional. Um filme de certa forma transgressor e provocativo, muito bem dirigido, com tendências teatrais shakespearianas, em especial “Hamlet” e “Macbeth”, influência marcante das histórias em quadrinhos, seja no monólogo da feiticeira no início ou nos próprios planos concebidos pelo diretor, um humor negro muito particular e um desenvolvimento que leva o protagonista a uma jornada delirante contra suas próprias negações e, por que não dizer, medos. Com um personagem que se tornou maior que o próprio filme e virou ícone genuíno de nossa cultura, “À Meia-Noite Levarei a Sua Alma” é uma obra que merece ser vista, revista, redescoberta. Antes tarde do que nunca.
Ficha:
Idem, BRA, 1964
Terror
P&B
81 min
Prêmio L'Ecran Fantastique pela originalidade
Prêmio Tiers Monde da imprensa na Convention du Cinema Fantastique
Prêmio Especial no Festival de Cine Fantástico y de Terror de Sitges
DVD
Cotação: * * * *
Serviço:
A Locadora Vilex se localiza na Av. Nações Unidas, 1270. Contato: (86) 3218-6054 e (86) 8806-6054.
06/07/2010, 10:26
Filmes são puras experiências estéticas de contemplação e reflexão. Ou são mais do que isso? Bem mais? Quem sabe a representação do belo na tela às vezes seja apenas uma projeção reconfortante de fantasias tolas, enquanto imagens cruas e brutais da desolação do homem por si mesmo, seus desejos, medos, ambições, ultrapasse a ideia de estética, ignore o poder da reflexão, para voltar a quem as assiste como um forte soco no estômago e, sobretudo, no ego. Quando se vê o mal sair do útero da humanidade, isto é, da natureza humana, o choque é tanto que o impulso é virar o rosto para o lado e dizer, numa fala introspectiva: “isso é apenas um filme”. Ninguém quer se olhar no espelho sem maquiagem, seja qual for, e é justamente esta a proposta de “Canibal Holocaust”, polêmica produção dirigida em 1980 pelo italiano Ruggero Deodato: um olhar cru e cruel do nível mais baixo da condição humana.
Ainda que o referido cru esconda um paradoxo, uma vez o mesmo sendo uma maquiagem com o intuito de tornar as imagens realistas o suficiente para incomodar o mais cético dos espectadores. “Canibal Holocaust” acompanha um antropólogo na busca por quatro jovens documentaristas que desapareceram nas selvas amazônicas após contato com duas tribos canibais. Em seu percalço, ele testemunha as mais terríveis atrocidades contra a vida humana e animal (nesse ponto, Deodato deixa a encenação de lado e capta animais de verdade sendo mortos e extirpados), todas culturalmente justificáveis como hábitos tribais. Até então, é cômodo o incômodo do espectador diante de um primitivismo cultural desastrosamente aquém da civilização evoluída dos brancos. Todavia, é na segunda parte do filme, quando o material gravado pelo grupo é descoberto, que Ruggero Deodato revela suas verdadeiras intenções, levando a um viés que torce todas as expectativas e conceitos formados acerca de quem são os algozes do pesadelo imagético a que o espectador é obrigado a presenciar.
E põe pesadelo nisso. As imagens de canibalismo são tão fortes, acentuadas por uma narrativa documental, que o cineasta foi preso e processado logo no lançamento do filme, tendo sido obrigado a convocar todos os atores para mostrá-los vivos e saudáveis. Uma das cenas mais impactantes e bem realizadas, a da garota indígena empalada, precisou ser tecnicamente explicada para convencer o público e as autoridades de que aquilo era fake, coisa de cinema. O realismo grosseiro atingido pela produção, principalmente as mortes de animais reais, fez “Canibal Holocaust” ser proibido em mais de cinquenta países. Desconfia-se da obra ser a recordista nesse quesito. Sergio Leone, grande cineasta italiano, escreveu a Ruggero Deodato elogiando o filme e dizendo que a segunda parte era uma obra-prima do realismo cinematográfico, mas que tudo parecia tão real que ele teria problemas com o mundo todo.
De fato, este não é um filme para pessoas sensíveis. O cinema extrapola suas fronteiras quando o realismo berra nas imagens, deixa de ser uma sessão com pipoca para se configurar numa experiência visceral. Se a analise se voltar para a estética, talvez “Canibal Holocaust” seja uma das primeiras narrativas cinematográficas pós-modernas, precursoras de experiências como “A Bruxa de Blair” e, recentemente, “Atividade Paranormal”. A linha que separa a fantasia da realidade é tênue e o realismo apresentado é hiper, supera o real. Contudo, o que mais incomoda aqui, o que mais choca, é a violência das ideias humanas no seu movimento de conduzir toda e qualquer coisa a um sensacionalismo pedante, do desejo pela fama levar os atos a extremos irreparáveis, da morte com violência física e moral ter garantia de público e, com isso, rentabilidade. Amparado por lógicas mesquinhas, o homem promove a crueldade a si mesmo e, sem perceber, libera de suas próprias profundezas o verdadeiro canibal.
GORE: UM POUCO DE SANGUE NÃO FAZ MAL
Quando o italiano Ruggero Deodato causou controvérsias em todo o mundo com o lançamento de “Canibal Holocaust”, o Gore, subgênero do Terror cuja obsessão dos realizadores é chocar com uma violência gráfica e realista, já se tratava de um estilo de filme firmado e com regras bem específicas na Itália: pessoas perdidas numa floresta, mulheres nuas, imagens com um viés documental da selva e mortes reais de animais em frente à câmera. O tema do canibalismo se tornou bastante popular no cinema italiano na década de 70 e 80, sendo na verdade a evolução desse subgênero considerado maldito por muitos, embora tenha uma grande quantidade de apreciadores, que surgiu no ramo cinematográfico na década de 1960.
Muito antes da carnificina levada ao extremo pelos canibais italianos, filmes violentos sempre tiveram seu espaço na história do cinema. Contudo, foi uma produção japonesa intitulada “Jigoku” (ou “Hell”) que tornou a violência tão explícita a ponto de incentivar um novo filão para o gênero. Entretanto, consideram-se os “pais do Gore” os estadunidenses H. G. Lewis e David F. Friedman, que começaram com filmes de exploitation, os populares “Nudie-Cuties”. Os filmes exploitation eram realizações de baixíssimo custo, sem qualquer preocupação técnica ou artística, versando sempre sobre temas sensacionalistas e de lucro fácil. Logo, eles descobriram que a fórmula de misturar nudez e sexo nesses filmes violentos dava mais do que certo – e foi assim que realizaram “Banquete de Sangue” (“Blood Feast”, 63), considerado pela maioria o primeiro gore propriamente dito.
Também conhecido como “slasher movie”, o sucesso de “Banquete de Sangue” provocou uma onda de filmes de violência explícita e cada vez mais chocantes, em que os realizadores queriam sempre superar os filmes já feitos com cenas que incomodassem e confundissem o público acerca do que era ou não real, e a maquiagem concebida por verdadeiros mestres da época tornava essa linha incrivelmente tênue. Quando o subgênero parecia estar entrando em desgaste, com várias imitações baratas e sem criatividade, cineastas talentosos viram a oportunidade de usar o gore para passar uma mensagem social. Surgiam aí os filmes de zumbis comedores de carne humana, saídos da cabeça de um gênio chamado George A. Romero.
Com parcos recursos e muita boa vontade dos amigos, ele realizou em 1968 o clássico absoluto “A Noite dos Mortos-Vivos”, em preto-e-branco e contido no gore, mas com alto teor social e crítica ao racismo. O filme gerou milhares de continuações e até hoje é referência, assim como sua continuação de 78, “O Despertar dos Mortos”, sagaz crítica ao consumismo descontrolado. Pegando carona, surge o “spaghetti zombie”, filmes de zumbis feitos na Itália com obras consagradas pelo mestre Lucio Fulci, como uma espécie de sequência para “Despertar dos Mortos”, que fizera grande sucesso por lá. Fulci foi além de uma mera continuação e fez de “Zumbi 2 – A Volta dos Mortos” uma produção de extrema violência gráfica, dando início ao ciclo de zumbis italianos. A Espanha também flertou com o tema, destacando-se as obras de Jorge Grau e, sobretudo, Amando de Ossorio, com sua tetralogia sobre os mortos-cegos. Nos Estados Unidos, os zumbis se transformaram em demônios com muito gore e humor negro nas mãos do diretor Sam Raimi e do ator Bruce Campbell. “A Morte do Demônio” (“The Evil Dead”, 82), é outra produção de baixíssimo custo que virou cult, rendeu duas continuações e deu um novo gás para um subgênero que, mais uma vez, parecia estar com os dias contados.
E foi aí que a renovação do gore apareceu nas produções italianas. Mais terrível do que mortos comendo vivos é assistir de camarote a vivos se alimentando de outros vivos. Assim, o canibalismo levou o subgênero ao extremo de tudo o já visto até então. Quem deu o ponta-pé inicial foi Umberto Lenzi com “Il Paese del Sesso Selvaggio” em 1974. Contudo, nenhum outro realizador se fez mais notar do que Ruggero Deodato. Tido como mestre dos filmes de canibais, ele chocou o público logo em seu primeiro filme sobre o tema, “Mundo Canibal”, de 77, considerado por muitos um dos melhores filmes de canibais já feitos. Um ano depois, Sergio Martino mostrou ao mundo “A Montanha dos Canibais”, o qual já exagerava nas mortes gráficas e nos animais sendo mortos de verdade. Após Deodato, a Itália viu o “giallo”, que teve como expoente outro grande cineasta, Dario Argento, ascender e ir gradativamente perdendo força. Não se pode esquecer da polêmica em torno dos “snuff movies”, nos quais supostamente as pessoas eram mesmo assassinadas frente à lente das câmeras. Hoje, o gore sobrevive com os “torture porns”, representado pela série “Jogos Mortais” e suas derivações. Qual sejam as tendências daqui por diante reservadas por um cinema que versa sobre o choque nauseante do homem em seu processo mais visceral de autodestruição, é impossível tirar da cabeça a imagem concebida por Ruggero Deodato da menina índia empalada em “Canibal Holocaust”. Se existe alguma poesia no horror escatológico, ela se encontra ali, nos versos mais tortos que alguém já teve coragem de escrever.
18/06/2010, 00:06
O SENHOR DOS ANÉIS – A SOCIEDADE DO ANEL
(The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, Nova Zelândia/EUA, 2001)
Existe um lugar que antecede a humanidade que conhecemos hoje onde a magia paira no ar, na terra, nas criaturas que o povoam, os animais levam mensagens, a juventude é duradoura e a natureza se encontra mais viva do que nunca. Um lugar onde homens convivem com demônios, bruxos, anões e elfos mágicos. Um lugar onde os sábios são realmente sábios e o poder emana com vivacidade das mãos daqueles que o possui. Um lugar onde é fácil tornar-se lenda e as histórias contadas de antigamente são muito mais do que mitos. Esse lugar hipnotizante chama-se Terra-média.
Durante quase meio século, as pessoas só podiam vê-lo em sonhos e pensamentos forjados a partir de uma obra literária que literalmente mudou o curso da história. Estamos falando de O Senhor dos Anéis, narrativa épica e mitológica concebida pelo escritor inglês J.R.R. Tolkien. Dividida em três partes, A Sociedade do Anel, As Duas Torres e o Retorno do Rei, narra a história de um anel forjado pelo Senhor do Escuro, capaz de dominar a tudo e a todos, que após ser tirado de seu dono pelo humano Isildur, parece ganhar vida própria e fazer sua própria trajetória. Depois de passar anos e anos em poder da repugnante criatura Gollum, cujo verdadeiro nome é Sméagol, o Um Anel, assim como era chamado, cai nas mãos de Bilbo Bolseiro, o primeiro hobbit a se tornar famoso em todo mundo, graças às suas aventuras na juventude. Os hobbits são uma raça bastante peculiar que vivem na região do Condado, têm estatura baixa e pés grandes e peludos. Adoram contar histórias em forma de música e estão sempre fazendo uma refeição. Por sessenta anos, o anel fica com Bilbo, protegido e esquecido pelo resto do mundo. Só que rumores de que Sauron, o Senhor do Escuro, ainda vive e está em busca daquilo o que lhe pertence estremecem toda a Terra-média. O Um Anel continua o seu caminho, passando para o domínio de Frodo Bolseiro, primo de Bilbo, depois que este completa onzenta e um anos e resolve partir para sempre. O jovem Frodo será o Portador do Anel na missão de seguir com uma comitiva formada em Valfenda, no Conselho do elfo Elrond, até as terras de Mordor, onde o anel foi forjado, e subir na Montanha da Perdição, o único lugar onde o objeto que confere o poder da invisibilidade pode ser destruído.
Após gastar sete anos de sua vida num projeto ambicioso e quase impossível de ser realizado, o diretor Peter Jackson concede vida cinematográfica à imaginação de Tolkien, e o que é melhor, fez uma verdadeira obra-prima de proporções imensuráveis. Jackson iniciou sua carreira no cinema com filmes de terror B e ganhou notoriedade com o premiado Almas Gêmeas. Seu Os Espíritos com Michael J. Fox, apesar do visual bacana e de algumas seqüências eletrizantes, não foi muito bem recebido pelo público à época de seu lançamento. Ao anunciar que iria comandar uma das adaptações mais desejadas da história do cinema, deixou milhões de pessoas com o cabelo em pé. Ninguém acreditava que ele seria capaz de transformar o rico mundo imaginado por Tolkien em um filme à altura do livro. Era uma tarefa praticamente suicida. Mas Peter Jackson sabia muito bem o que estava fazendo. Decidiu que rodaria a história inteiramente na Nova Zelândia, sua terra natal, e apenas o elenco seria americano. Até mesmo os efeitos especiais seriam produzidos por lá. Diz a lenda que George Lucas baixou a mão na mesa afirmando que apenas ele e sua trupe de técnicos conseguiriam tornar real as detalhadas descrições contidas na obra inglesa. Bem, se a Terra-média de fato existiu, ela deveria ser na Nova Zelândia. O lugar é inacreditável e comportou perfeitamente as minuciosas descrições de J. R. R. Tolkien. Com certeza, o criador de Star Wars deve ter ficado com o queixo batendo no chão, assim como todo mundo, ao ver o fabuloso resultado alcançado por Peter Jackson.
O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel é uma experiência cinematográfica tão intensa e fantástica que nunca três horas foram tão pouco para se contar uma história de aventura. Uma autêntica história de aventura. Devemos lembrar que a obra de Tolkien é a ficção mais importante e cultuada do século XX. Sem ela, certamente não existiria as aventuras mirabolantes que conferimos na literatura e no cinema. Não existiria Caverna do Dragão, o seriado animado que marcou a infância de metade da população mundial, muito menos as peripécias de Indiana Jones e nem o próprio Star Wars. Tolkien fez muito mais do que uma obra-prima. Fez um mundo inteiro de magia e encanto, que até hoje se faz presente e desafiador. Peter Jackson concebeu um filme que surpreende tanto aqueles que são fãs do escritor quanto os que nunca ouviram sequer falar dele.
A produção de O Senhor dos Anéis é uma das melhores de todos os tempos. Os cenários, todos nos mínimos detalhes de acordo com o que lemos no livro, são sinônimo de perfeição. Baseado em quadros que recriam o Condado e a própria Terra-média, Jackson transformou em concreto o abstrato. As casas dos hobbits, pequenas e com as portas redondas, são tão familiares como nossa própria casa. Não é um choque vê-las à nossa frente, pois parece que sempre estiveram lá. Os caminhos que a Comitiva do Anel tem que percorrer estão soberbamente recriados. Do mesmo jeito que as Minas de Moria nos acomete uma tensão rara, de deixar qualquer um assustado com a própria sombra, as Florestas de Lothlórien, a mais bela morada dos elfos, são de uma beleza estonteante. Nesse momento, a estupenda fotografia do filme deixa de ser mais um detalhe para se destacar como pouquíssimas vezes aconteceu no cinema. É como se a verdadeira magia estivesse acontecendo ali, diante de nosso olhos. Descrever a sensação de experimentar isso é praticamente impossível, pois são vários sentimentos em um só. Essa é a melhor coisa em assistir a O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel: passar três horas envolto na mais bela magia que o cinema já criou. O filme de Peter Jackson sem dúvida é digno de entrar para o hall das obras cinematográficas mais importantes de todos os tempos. Pode até ser exagero, mas é assim que nos sentimos quando sobem os créditos finais, pois acabamos de ver um trabalho inigualável e divisor de águas.
No entanto, nem os grandiosos efeitos especiais seriam capazes de salvar o filme se ele não tivesse um roteiro realmente incomparável ou um elenco que não fosse extraordinário, pois as atuações são um dos pontos mais importantes para que se desse vida à criação fantástica de Tolkien. A adaptação comandada pelo diretor e mais dois roteiristas é uma das melhores já tiradas de um livro. O texto é primoroso e mantém-se fiel à fonte e ao espírito dela, sem, entretanto, que o resultado final pudesse ser rotulado de livro filmado. J. R. R. Tolkien está em cada polegada de O Senhor dos Anéis, porém nota-se que existem outras cabeças pensando também. A adaptação confere uma intensidade dramática muito forte à narração da obra, enxutando várias “formalidades” que funcionam divinamente no livro mas que na tela ocasionariam uma redução significativa e letal no ritmo do desenvolvimento da história. O personagem Tom Bombadil foi literalmente apagado do roteiro, pois em nada soma ou diminui à trama. Por outro lado, a bela Arwen, filha de Elrond, que praticamente passa despercebida no primeiro livro, ganha uma participação maior e com uma certa importância na história, evidenciando-se também o seu romance com Aragorn, um dos líderes da Comitiva. Ao mesmo tempo em que a história é ágil e até mesmo desenfreada, há momentos de pura contemplação reflexiva, o que enriquece sobremaneiramente a nossa experiência como espectadores.
Agora vamos para o outro ponto importante no filme, isto é, as atuações. O elenco escolhido a dedo é simplesmente fenomenal. Não haveria ninguém melhor para interpretar o protagonista Frodo do que Elijah Wood. Ele faz um Frodo Bolseiro absolutamente impagável. Outro ator que se destaca é Ian McKellen, perfeito na pele do mago Gandalf, um dos personagens mais importantes da história. Assim como aconteceu com seu Magneto, o ator parece que nasceu para interpretar o papel. Ian Holm brilha na pele de Bilbo e Sean Astin, o asmático aventureiro de Os Goonies, surpreende como o rechonchudo Sam, o fiel e inseparável companheiro de Frodo. Não podemos nos esquecer de Christopher Lee, que dá um tremendo show interpretando Saruman, o mago da ordem de Gandalf que é seduzido por Sauron, assim como o resto do elenco, que conta ainda com a élfica participação de Cate Blanchett como Galadriel.
Além de conseguir extrair o melhor de cada ator, Peter Jackson compõe uma direção técnica espetacular. O fluxo narrativo é mantido fluente do começo ao fim. As tomadas são inacreditáveis e o diretor demonstra uma incrível segurança mesmo diante de um projeto tão grande. Uma senhora direção, capaz de fazer Steven Spielberg comer poeira. O estilo de Jackson está presente em O Senhor dos Anéis, ainda que de maneira mais épica. Ele cria um clima sombrio essencial à história, mas sem nunca se esquecer dos toques de humor indispensáveis a um excelente filme de aventura. Tudo está tão bem equilibrado que chega a ser difícil separar os detalhes. Mas há coisas que não podem passar em branco, como a magnífica trilha sonora de Howard Shore, perfeitamente adequada ao tema épico, que eleva a nossa emoção ao décimo expoente. A maquiagem é outro detalhe que ganha vida própria. Os orcs estão extremamente assustadores, assim como os Uruk-hai. O trabalho com a maquiagem neste filme é realmente magistral, tal qual os efeitos especiais, presentes em cada milímetro da película. O impacto visual concebido nos deixa grudados, onde quer que estejamos sentados, ininterruptamente. Mesmo sendo um filme de fantasia, os efeitos especiais são os mais convincentes e realistas possíveis. A diminuição do tamanho dos atores que interpretam os hobbits é incrível, sendo uma verdadeira revolução em matéria de efeitos especiais. O balrog é realmente apavorante. Aliás, por falar nisso, a seqüência dentro das Minas de Moria, principalmente na Ponte de Khazad-dûm, que antecede a aparição do monstro, é simplesmente insuperável. Tensão para cardíaco nenhum poder sentir, ainda mais com aquela “ópera” de fundo.
O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel é um filme para se ver várias e várias vezes para que se tenha a noção do quanto trata-se de uma obra perfeccionista e detalhista. Peter Jackson já pode entrar para a lista dos grandes cineastas, pois realizou algo considerado impossível e superou as expectativas até mesmo dos mais otimistas. J. R. R. Tolkien está mais vivo do que nunca e sua obra lateja lições sobre a amizade, a determinação, a ambição pelo poder, as diferenças individuais e o companheirismo. É um estudo disso tudo e de diversas outras coisas. A Sociedade do Anel caminha para o status de clássico contemporâneo. Trata-se de um filme completo e mágico, que consegue nos tirar da realidade e nos levar a um mundo fantástico como nenhum outro filme já fez. Sem dúvida, é uma grande vitória para Peter Jackson e para nós também. Afinal, somos nós os beneficiados do outro lado da realidade, onde nossa função é a de contemplar um momento raro de inteira satisfação. Que venha O Senhor dos Anéis – As Duas Torres, e que a magia aconteça outra vez.
Fortaleza/Teresina, 5 de janeiro 2002
____
O SENHOR DOS ANÉIS – AS DUAS TORRES
(The Lord of the Rings: The Two Towers, Nova Zelândia/EUA, 2002)
Quando a tela do cinema lotado e eufórico escureceu e os créditos finais começaram a surgir, uma certeza clara como uma água cristalina me veio à cabeça: Peter Jackson é um dos maiores cineastas contemporâneos. Sem dúvida nenhuma. Ele foi corajoso o suficiente para encarar de frente o que pode ser considerada a mais ambiciosa realização cinematográfica desde que o cinema foi criado pelos irmãos Lumière, e isso sem enlouquecer no processo. E ele foi talentoso o suficiente para conceber o que pode ser considerada a melhor e mais importante trilogia cinematográfica já gerada neste meio de entretenimento (os fãs de O Poderoso Chefão que me perdoem). Claro que a dita cuja ainda não está completa, mas pelo andar da carruagem é certo afirmar que o capítulo a seguir fechará a gestalt com chave de ouro maciço. Se As Duas Torres veio a ser outra obra-prima difícil de mensurar com meras palavras, o que nós, pobres mortais remanescentes da Terra-média e simplesmente fisgados pelo universo criado por J. R. R. Tolkien e “recriado” por Peter Jackson, podemos esperar de O Retorno do Rei, a conclusão da missão do Portador do Anel? É, definitivamente teremos um longo ano cheio de expectativas pela frente.
Entretanto, deixemos o inevitável futuro de lado e nos concentremos no aqui e agora, nos concentremos em O Senhor dos Anéis – As Duas Torres, a segunda parte da saga de Tolkien. Se fosse para encurtar drasticamente esta resenha, bastaria dizer que este filme é digno de todos os superlativos dados ao anterior, A Sociedade do Anel, e de mais alguns outros. Não se faz necessário isso, já que esperamos praticamente um ano inteiro para estarmos aqui, neste ponto. Talvez esta seja uma das poucas vezes em que ser brasileiro possa ser de fato uma boa coisa, pois tivemos a peculiar sorte de assistirmos aos dois filmes no mesmo ano (por uma jogada fenomenal do destino, uma vez que As Duas Torres teve sua estréia antecipada aqui de 1o de janeiro de 2003 para 27 de dezembro de 2002 literalmente em cima do tempo, faltando três semanas). Um maravilhoso presente de fim-de-ano, porém que nos coloca em uma questão ingrata: teremos que comparar as duas produções? Quem gosta de fazer listas com o balanço do ano transcorrido pode passar um tempinho coçando a cabeça. No entanto, é apenas uma pergunta, não uma ordem. Quem sabe por fazerem parte do mesmo todo, não sege preciso eleger quem é o melhor, se A Sociedade do Anel ou As Duas Torres. Se o primeiro foi apenas uma introdução, indubitavelmente o segundo é o desenvolvimento, digamos assim, o terreno sendo preparado para a ansiada conclusão. O todo é o que importa, certo? Bem, depende. Apesar de fazerem parte do mesmo conjunto, são dois filmes tão diferentes quanto água e açúcar.
A começar pela questão da fidelidade à obra. Quem leu os livros sabe que este teve uma adaptação bem mais livre do que o anterior. Depois temos o fato de aqui termos três histórias paralelas, ao invés de apenas uma. Em A Sociedade do Anel, tem-se assumidamente aquele tom de fantasia, em que a magia paira no ar, uma trilha sonora melosa (e premiada, por sinal) e paisagens exuberantes; em As Duas Torres, as paisagens belíssimas continuam, ainda que em escala menor, mas o clima mitológico dá lugar a um ambiente mais épico, e menos belo também, já que tem início a guerra pelo domínio da Terra-média. Certamente, é um filme mais sujo, mais caótico, mais sombrio. A força de vontade de Frodo, o hobbit que deve levar o Um Anel para ser destruído na Montanha da Perdição, logo se transforma e o que vemos é o personagem cada vez mais sucumbido pela atração do fardo que carrega. Outra coisa que inicialmente não podemos deixar de mencionar é o ritmo. Esta segunda parte já começa agitada e literalmente não pára. Estamos no meio da história, portanto sem começo e muito menos um fim. Analisando por esse ângulo, devemos parabenizar o diretor pelo magnífico resultado alcançado. Se para muitos já é difícil contar uma história com começo e fim, imagine criar uma obra-prima sem ambos? Peter Jackson não só conseguiu essa façanha como foi além e fez não um “filme do meio”, e sim o “filme do meio”, que já pode se considerar referência máxima do gênero.
Logicamente, nosso “ponto de partida” é de onde terminou o filme anterior. A Sociedade está desfeita. Frodo e Sam rumam a Mordor agora sozinhos e com pouca noção do caminho a ser tomado. Aragorn, Legolas e Gimli partem em uma caçada aos Uruk-hai que levaram os hobbits Merry e Pippin, que por sua vez conseguem fugir e vão parar na Floresta Fangorn, onde são acolhidos pelo ent Barbávore, uma espécie de árvore viva — um pastor de árvores, para ser mais preciso —, falante e errante. Na primeira subtrama, digamos assim, Frodo e seu fiel companheiro Sam domam Gollum, criatura magra e ossuda obcecada pelo Um Anel. Visivelmente esquizofrênico, Gollum promete fidelidade a Frodo e torna-se seu guia, mesmo estando em constante conflito consigo mesmo por causa de seu desejo maior. O trio composto por um homem, um elfo e um anão tem seu destino levado a Edoras, palácio onde mora Théoden, rei de Rohan, a terra dos Cavaleiros, um homem dominado pelo feitiço de Saruman e pelas palavras falsas de seu conselheiro, Gríma Língua-de-Cobra. Eles terão que enfrentar a fúria do mago traidor e de um exército de dez mil orcs que avança sobre a última fortaleza do reino, o Abismo de Helm, e protagoniza uma das batalhas mais espetaculares da história do cinema, para dizer o mínimo. Enquanto isso, Merry e Pippin participam do entebate e tentam convencer Barbávore a declarar guerra a Saruman.
Pelo parágrafo acima, que dá apenas uma noção de toda a história, pode-se perceber que se trata de algo complexo e relativamente difícil de ser contado. De fato, O Senhor dos Anéis – As Duas Torres mostra-se um filme mais complexo, cheio de detalhes fundamentais e ainda por cima sem gancho algum, ou seja, sem aquela recapitulação dos acontecimentos anteriores. Decisão cheia de riscos por parte de Peter Jackson. Decisão sábia também, pois mantém o fluxo narrativo literalmente contínuo e obriga o espectador a ver a primeira parte antes de embarcar de cabeça nesta. Este “recurso televisivo” certamente não traria novidade alguma, e sim subestimaria a inteligência do espectador, principalmente dos fãs da obra, uma vez que nenhum dos dois livros posteriores ao primeiro trazem algum tipo de resumo do capítulo anterior. É preciso o entendimento de que tem-se uma história de nove horas, ou mais, dividida em três partes que vão ficando mais e mais íntimas e sombrias e sérias. Por isso é que, neste aspecto, talvez sege difícil e até mesmo injusta uma efetiva comparação entre A Sociedade do Anel e As Duas Torres, que está mais para um épico de guerra do que para um filme de fantasia. Sendo o mais claro possível, podemos definir esta segunda parte como uma prévia do que vem a ser o significado da palavra genocídio. No entanto, ainda que diferentes, os dois filmes se somam perfeitamente para compor uma mistura homogênea, tal qual a água e o açúcar.
O interessante é que um filme não substitui o outro, e deve ser assim com o próximo, mas a história vai ficando cada vez mais atrativa. Tanto o primeiro quanto o segundo possuem suas peculiaridades e charmes. As Duas Torres por enquanto sai ganhando em diversos quesitos, como ritmo e efeitos especiais, simplesmente bárbaros, e isso se torna mais evidente quando olhamos para os números. Um ano atrás, A Sociedade do Anel estreou arrecadando 47,2 milhões de dólares nas bilheterias norte-americanas nos primeiros três dias de exibição, enquanto que As Duas Torres conseguiu superar esse recorde fazendo 61,5 milhões de dólares no mesmo espaço de tempo, tendo ultrapassado a faixa dos cem milhões em cinco dias somente. É uma conquista soberba, porém não surpreendente, visto a magnitude do projeto. Se só o primeiro teve fôlego para pagar toda a trilogia, o segundo deixa possibilidades únicas para Jackson trabalhar com folga absoluta em O Retorno do Rei e dar ao espectador não um simples fechamento da saga, mas um filmaço único de proporções até mesmo assustadoras. Caso a carruagem não encontre muitos obstáculos em seu caminho, estamos prestes a presenciar o expoente máximo que o cinema do gênero é capaz de mostrar. Parece mesmo que o próximo filme exerce um estranho fascínio extremado, pois novamente nos pegamos falando do futuro, quando deveríamos estar totalmente concentrados no presente, em As Duas Torres, que a partir de agora será o centro propriamente dito desta suposta resenha.
É inacreditavelmente absurdo que tenha havido uma polêmica, mesmo pequena e ilógica, a respeito do título, que para os mais afetados faz referência às torres gêmeas do World Trade Center, derrubadas em 11 de setembro de 2001. As Duas Torres refere-se aos pólos que controlam, por assim dizer, os acontecimentos narrados por Tolkien nesta segunda parte. Neste caso, seriam as torres Orthanc, no Vale de Isengard, onde Saruman planeja suas jogadas de tentativa de domínio, e Barad-Dur, em Mordor, onde o Olho de Sauron está “alojado”. Peter Jackson foi sábio em deixar isto menos obscuro do que o livro, especificando logo o por quê do título. Ele também foi sábio em fazer um filme mais íntimo e com uma direção visivelmente superior a do outro filme. Além de demonstrar uma segurança fenomenal ao acompanhar três histórias paralelas, o diretor compõe imagens que grudam na cabeça de tão tecnicamente perfeitas. Convenhamos que as cenas mostradas neste filme são dificílimas de serem executadas e o resultado que conferimos supera qualquer tipo de expectativa. Ao mesmo tempo em que temos grandes cenas de impacto e cercada por efeitos especiais, há espaço para cenas mais fechadas e humanas, como Théoden no túmulo de seu filho após ser libertado da magia de Saruman (uma seqüência no mínimo curiosa e inusitada) ou até mesmo a cena com Gríma Língua-de-Cobra e Éowyn, a vigorosa sobrinha do rei de Rohan. Sendo curto e direto, é uma direção fantástica. O nível alcançado em A Sociedade do Anel é aqui elevado em uma escala maior, mais épica, mais extasiante. O espectador que passou 178 minutos sem piscar os olhos, agora vai encarar 179 minutos sem sentir a respiração.
É preciso se saber diferenciar livro de filme. A essência pode ser a mesma — conta-se uma história e pressupõe-se reações por parte do leitor/espectador —, porém são coisas bem diferentes. Definitivamente, adaptar As Duas Torres exigiu uma tarefa mais difícil e decisões mais delicadas. Tolkien diminui as inacabáveis descrições da Terra-média e valoriza mais o desencadeamento de ações, embora o ápice venha a ser o livro que fecha a saga. Consequentemente, há um número maior e bem extenso de informações a serem repassadas, mesmo estando-se livre das formalidades da apresentação dos personagens e da trama. O roteiro escrito por Peter Jackson, sua mulher, Fran Walsh (ou Frances Walsh), Philippa Boyens e Stephen Sinclair, que se junta agora à turma, possui o mérito de ser uma adaptação genial, com sacadas novas e fabulosas que funcionam como uma espécie de contextualização da obra de J. R. R. Tolkien e deixam ganchos magistrais para O Retorno do Rei. Aragorn está mais acentuado como herói e seu destino se torna mais claro. As motivações dos ents foram um tanto que alteradas, já que ocupariam muito tempo para serem expostas e isso prejudicaria o ritmo do filme (e isso não é um trocadilho com o fato deles serem criaturas lentas). A solução encontrada é mais simples e direta, mas eficiente e bem contextualizada, embora possa incomodar um pouco os fãs mais conservadores, como o discurso de Saruman em prol da industrialização. Também há uma inusitada colaboração entre humanos e elfos na Batalha de Helm, que não existe no livro mas que é de diversas formas emocionante. Contudo, essas “reformas” e “discursos” não chegam a soar como um aspecto negativo ao filme, ainda que os mais conversadores teimem em bater nessa tecla para reduzir o brilho do magnífico trabalho de Peter Jackson. Vejamos como um aperitivo a mais à obra, como a oportunidade criada para mostrar a Cidade Branca, do reino de Gondor, e o estado decadente em que se encontra. Traduzindo, o roteiro faz seus próprios caminhos em cima da história de Tolkien, permanecendo fiel ao espírito da obra e tornando o livro um prato primoroso para ser apreciado.
Como a história vai se aprofundando a passos rápidos, aqui as características dos personagens são mais acentuadas, e modificadas também. Frodo está mais sombrio, mais atraído pelos impulsos que o Um Anel lhe acomete, e Elijah Wood mais uma vez brilha no papel mais marcante de toda a sua carreira. O Sam de Sean Astin, que se destaca e é quem captura a empatia do espectador, assume mais ainda sua função de companheiro inquestionável do Portador do Anel. Sua relação com Frodo é simplesmente sincera, verdadeira, o modelo idealizado da amizade entre duas pessoas. É mais fácil se identificar com ele do que com qualquer um dos outros personagens. Alguns se incomodam com o fato de Gimli, o anão interpretado por John Rhys-Davies, ser o alívio cômico desta segunda parte, num gesto meio insistente mesmo. Porém, ele já dava sinais de tal destino em A Sociedade do Anel, para quem não se lembra. Sir. Ian McKellen volta reluzente na pele de Gandalf (papel que lhe deu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante no filme anterior), com o visual novinho em folha e agora portando o título de Branco (antes era Gandalf, o Cinzento), igualando seu poder com o de Saruman, que continua um vilão impagável, como seu intérprete, Christopher Lee. Viggo Mortensen segue provando ter sido a melhor escolha para viver o humano Aragorn, herdeiro do trono de Gondor e que neste filme começa a mostrar sua principal função na saga e caminha para encarar seus medos e desejos em favor do bem-estar de seu povo e da própria Terra-média. Resta então citar Orlando Bloom, perfeito como o elfo-arqueiro Legolas, o causador de suspiros nas adolescentes e protagonista de seqüências delirantes (com a ajuda dos efeitos especiais, naturalmente). Além de Sean Bean, que interpreta Boromir em A Sociedade do Anel, o único do elenco original que não faz nenhuma aparição é Ian Holm, estupendo como Bilbo Bolseiro, tio de Frodo (ele bem que deveria ter sido indicado ao Oscar).
Se o time acima já é um deleite para qualquer cinéfilo, o acréscimo que se tem em As Duas Torres é de causar inveja em qualquer grande produtor de Hollywood (lembre-se de que O Senhor dos Anéis foi feito inteiramente na Nova Zelândia). Comecemos com Bernard Hill interpretando Théoden, o rei de Rohan. Uma atuação fantástica e absolutamente segura, conferindo ao personagem um vigor notável de um rei que luta até o fim por seu povo. Quem chama muita atenção também é Brad Dourif no papel do conselheiro traidor Gríma Língua-de-Cobra. Mais conhecido por fazer fitas de terror, como a série Brinquedo Assassino, o ator empresta uma veracidade ao personagem surpreendente. Gríma é mau dos pés a cabeça e com um dom de manipulação incrível, com a ajuda de Saruman, é necessário dizer. É um verme, no sentido literal da palavra (originalmente, é chamado de Grima Wormtongue). Para deixar ainda mais claro que o romance entre Aragorn e a elfo Arwen, filha de Elrond, está fadado ao fim, surge Éowyn, sobrinha de Théoden e interpretada por Miranda Otto. Se no livro atração entre a personagem e Aragorn é mostrada em apenas um olhar, o filme vai um pouco mais além e se antecipa em alguns aspectos, deixando o caldeirão quente para a última parte da saga. No mínimo, a sintonia e a tensão entre os dois funcionam divinamente. Miranda Otto tem aqui a chance de sua carreira, pois além de bela e de ter o perfil perfeito para encarnar Éowyn, que tem personalidade forte e é uma destemida guerreira, ela se mostra uma atriz que promete dar muito o que falar. Fechando o elenco novo, temos David Wenham na pele de Faramir, gondoriano irmão de Boromir, e Karl Urban, como o Terceiro Marechal da Terra dos Cavaleiros, Éomer. No entanto, de todos, o nome mais destacado desta produção é com certeza o de Andy Serkis, o responsável por dar vida à criatura digital mais realista e complexa da história do cinema. Antes de nos reportamos diretamente a Gollum, vamos comentar um pouco sobre os maravilhosos efeitos especiais de As Duas Torres.
Diminuição de tamanho, trolls, balrog, Argonauths, Espectros do Anel, tudo isso parece ultrapassado quando se assiste a esta nova aventura. Aqui encontram-se mais seres pertencentes à Terra-média e uma escala visivelmente maior de efeitos, cada um melhor que o outro. Quando o filme termina, a impressão que se tem é de que a concepção visual de A Sociedade do Anel foi brincadeira de criança. Os obstáculos encontrados pela Comitiva no filme anterior ficam aquém dos desafios conferidos neste. Somente a seqüência em que Gandalf enfrenta o balrog deixa os efeitos vislumbrados anteriormente quase que no chinelo. Se antes os orcs caminhavam a pé, agora eles montam wargs, verdadeiros lobos gigantes e ferozes. Também os Espectros do Anel deixaram de lado os cavalos endemoniados para agora montarem criaturas aladas que mais parecem uma mistura de dragão com dinossauro. Os ents são seres maravilhosamente criados. A princípio, são como árvores, mas logo se mostram bem diferentes. Não poderia faltar a satisfação de Sam ao ver os olifantes, que seriam ancestrais do mamutes, só que gigantescos. Quando ele e Frodo ultrapassam o sombrio Pântano dos Mortos, ou até mesmo Gondor, é fácil perceber que a Direção de Arte é inigualável, ainda mais com a ajuda de efeitos tão perfeitos. É como já se foi dito. É difícil mensurar toda a grandeza de As Duas Torres com palavras. Você vê e simplesmente não acredita que está vendo aquilo, especialmente quando chega o início da Batalha de Helm. É noite e logo começa a chover. São dez mil orcs enfileirados contra algumas centenas de homens e elfos. Praticamente é o ápice do filme e talvez não existam batalhas semelhantes para se fazer qualquer tipo de comparação. Cada elemento da batalha age de uma forma diferente, graças a um programa criado especialmente para isso chamado massive, que confere ação e resposta individuais aos integrantes digitais da batalha. Sem dúvida, é um momento soberbo e extremamente empolgante, que só perde para as cenas nas quais Gollum impressiona e confunde até mesmo os mais céticos.
Aclamado antes até de estrear o filme como a criatura digital mais realista já vista, sem dúvida é a que mais baseia em uma pessoa de verdade. Sem Andy Serkis não existiria o incrível Gollum que conferimos na tela. Além de emprestar sua voz à criatura, e sua participação em A Sociedade do Anel se resume a isso, o ator contracenou de verdade com Elijah Wood e Sean Astin fazendo a vez do personagem. Depois foi para o galpão da Weta Digital e repetiu as cenas sozinho para os técnicos dos efeitos especiais usando um macacão com sensores de movimento. O resultado é de deixar o queixo lá no chão. A interação entre o real e o digital não tem uma linha divisória. Gollum é tão palpável quanto qualquer outro ator em cena, mais real do que qualquer personagem de Final Fantasy. Um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante seria justo, pois além de tamanho realismo é o personagem mais complexo da história. Como todos sabem, Gollum é esquizofrênico, devido à influência do Um Anel e ao juramento de lealdade feito a Frodo, tendo sido antes não tão diferente de um hobbit. Se alguém rouba a cena do início ao fim, este é Gollum. Suas falas e seus gestos são de uma mente conturbada, dividida entre o desejo e a culpa pela promessa. A criatura é tão fantástica que fecha o filme com chave de ouro, deixando o espectador nervoso e implorando para ver o prosseguimento da história. Tanto é que a canção que encerra a produção chama-se Gollum’s Song. De autoria da roteirista Fran Walsh, não tem o tom melódico do May it Be da Enya, mas não fica muito atrás. É trágica e sombria como o personagem que a inspirou. Gollum é um vilão trágico e patético, com alguns traços shakespearianos e com uma importância fundamental para a saga. Um personagem que dificilmente será esquecido.
O Senhor dos Anéis – As Duas Torres é um filme que dificilmente será esquecido, tanto pelos fãs quanto por aqueles que nunca leram sequer uma linha escrita por J. R. R. Tolkien, sem dúvida um dos autores mais importantes do século XX. Peter Jackson é o nome do momento, pois encarou seus demônios e conseguiu vencê-los. Fez um filme superior a milhares, uma obra cinematográfica que ecoará por anos e anos. O cinema nunca mais será o mesmo depois de O Senhor dos Anéis, isso pode-se afirmar com plena convicção. As Duas Torres tem potencial para acumular muito mais prêmios que A Sociedade do Anel, indicado a 13 Oscars e vencedor de quatro. Andrew Lesnie ganhou o Oscar de Melhor Fotografia pelo primeiro filme e aqui se supera magnificamente com tomadas divinas. A montagem de D. Michael Horton nos chocalha e brinca com nossas emoções, como na intercalação entre a Batalha de Helm e o entebate. Muitos reclamaram da performance de Howard Shore, porém escute com atenção e ouvirá uma grande trilha sonora. Enfim, quem gostou do filme anterior e adorou o universo criado por Tolkien vai cultuar As Duas Torres, o bárbaro prosseguimento da jornada do Portador do Anel. Este filme conquista, domina e emociona como muitos poucos. É cinema em seu estado mais puro. Uma sessão com uma riqueza estonteante e com o braço esticado para um próximo filme que promete ser ainda melhor. 2003 é o ano de Matrix 2 e 3 e de O Retorno do Rei. Enquanto o inevitável futuro não chega, podemos respirar aliviados: a magia aconteceu outra vez.
Teresina, 27 de dezembro de 2002
_____
O SENHOR DOS ANÉIS – O RETORNO DO REI
(The Lord of the Rings: The Return of the King, Nova Zelândia/EUA, 2003)
Já se trata de uma lembrança, de uma boa nostalgia, a espera, as notícias, a expectativa. Já se trata do passado, do nosso passado, tudo aquilo o que vivemos e o que deixamos de viver, bons tempos, outros nem tanto, entrelaçados à viagem mágica, poética e sublime que nos possibilitaram fazer. Três anos se passaram desde que me dispus a ler os livros e a aguardar ansiosamente pelos filmes, obsessivamente em certos momentos, mas sempre com um pé fora da Terra-Média, só para manter o equilíbrio. Afinal, é o equilíbrio o que buscamos, não? Durante esse período, que agora parece ter-se passado rápido demais, deixei de ser fã de cinema para me tornar fã de O Senhor dos Anéis, fã de um sujeito chamado J.R.R. Tolkien, que tem (ou tinha) a imaginação mais fértil e a prosa mais majestosa e lúcida que já pude degustar, e fã de um sujeito chamado Peter Jackson, o responsável por este texto ser escrito e por tornar a viagem mais do que um sentimento, uma coisa praticamente palpável e ainda mais intensa.
Não sei se ao final terei escrito uma boa crítica, se é que consiga escrever uma de fato, pois para mim não há palavras inventadas corretamente para descrever o que senti e o que deixei de sentir assistindo à derradeira parte da trilogia, quando a magia aconteceu pela última vez. O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei é a expressão máxima dessa coisa chamada Cinema, é cinema puro e ao mesmo tempo arte pura, daquelas que a gente passa dias contemplando sem se cansar. São três horas e vinte e um minutos que parecem pouco se comparados à escala da estória: a jornada do Portador do Anel chega ao fim, assim como a guerra pela Terra-Média está para começar. Peter Jackson assume de vez sua câmera épica com uma segurança invejável e se consagra como um manipulador das emoções do expectador de primeira linha. Não há falhas visíveis em sua narrativa e ele se entrega de corpo e alma ao espírito de conclusão de uma saga. Nada de pontas soltas ou finais ambíguos: O Retorno do Rei é exatamente aquilo o que os fãs e os não-fãs da obra (até agora) queriam.
Por mais que Gandalf assuma seu papel de destaque, ou que Aragorn venha a assumir seu verdadeiro destino, ou ainda que Frodo em nada se pareça com o alegre hobbit do Condado que vimos no início de A Sociedade do Anel, é Sam Gamgi quem realmente chama a atenção nesta parte. O fiel companheiro de Frodo emociona nossos corações como poucos personagens já conseguiram, e Sean Astin brilha mais do que todos, sem querer desmerecer o brilhantismo de Andy Serkis e seu trágico Gollum, mais verossímil e complexo do que nunca. Se Gandalf é o cérebro da trilogia, Sam é o coração, sem dúvida nenhuma. A lição de fidelidade e amizade que Sam nos passa torna este filme tão humano a ponto de esquecermos que se trata de uma obra de fantasia, e é esse o charme de O Senhor dos Anéis: mostrar visões íntimas em meio a contextos grandiosos, como a batalha nos campos de Pelennor, capaz de nos arrebatar da poltrona, após um belo discurso de Théoden, ou a triste canção que Pippin canta para um Denethor mais interessado em destroçar seu frango assado após enviar o próprio filho à morte. São coisas assim que fazem um filme ser cultuado, e O Retorno do Rei já figura como um dos grandes épicos do cinema.
Como sempre, todo o elenco está irrepreensível (pena que não dê para falar de cada um) e os efeitos visuais transbordam perfeição. A seqüência na toca da Laracna é de fato aterrorizante, assim como a luta dela com Sam, de fazer o coração parar. Nada mal para um diretor que diz ter aracnofobia. O fato é que Jackson, cuja carreira começou com fitas de terror trash, sabe como causar um bom medo, como o que sentimos na entrada da Senda dos Mortos. Ao mesmo tempo, ele deixa nossa adrenalina no pico, como na seqüência na qual Legolas derruba sozinho um olifante. O público vai ao delírio. Também temos momentos puramente contemplativos, em que a fotografia é um personagem imponente, como o percurso que os faróis fazem de Gondor a Edoras. Tudo é muito bem trabalhado e muito bem finalizado, para conceber ao espectador a melhor sessão de cinema de sua vida. Uma boa pretensão, a meu ver. Claro que não chega a tanto, apesar do entusiasmo do público. A exclusão do Expurgo do Condado é aceitável, mas Saruman faz falta, muita, e o seu final no livro é ótimo e merecia estar no filme, de algum modo. O que senti no final foi que a duração desta versão para o cinema (sim, teremos a versão estendida, se Deus quiser) não foi a mais correta. Acredito que o epílogo, para que ficasse perfeito, pudesse ter tido uns quinze a vinte minutos a mais; daria para disfarçar melhor que algumas coisas ficam faltando, como o romance entre Faramir e Éowyn. A primeira versão do filme tinha quatro horas e meia. Imagine o quanto foi cortado!
Mesmo assim, nada é capaz de diminuir o brilho de O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, certamente o melhor dos três filmes, como prometeu Jackson. Chegamos ao fim de todas as coisas, parafraseando Frodo. Muito foi sacrificado para que pudéssemos ver os créditos finais deste filme. Assim como os hobbits e a Sociedade do Anel, encaramos uma longa jornada, que será vangloriada para as gerações futuras, não através de canções, e sim por nós mesmos, que tivemos o prazer de fazer parte disso tudo. Chegamos ao fim, sempre o fim, pois ele vem um dia, queiramos ou não, e ficamos alegres por viver essa aventura e tristes por termos que voltar para casa, para o nosso Condado, onde infelizmente não existem anéis mágicos, nem hobbits, nem elfos, nem magos verdadeiros, onde as árvores choram em silêncio e o mau usa terno e gravata ao invés de armadura. No entanto, nunca mais deixarei de acreditar na fantasia, e nunca mais tirarei meu pé da Terra-Média. Agora que tudo acabou, podemos ir “revisitá-la” sempre que tivermos vontade, sempre que ficarmos triste com a realidade. Basta apertarmos o “play” e o navio irá zarpar, não para Valinor, as Terras Imortais, e sim para onde tudo começou, para o início da jornada, que dificilmente será esquecida.
Feliz ano novo.
Teresina, 26 de dezembro de 2003
Ficha:
The Lord of the Rings, NZE/EUA, 2001-2003
Aventura
17 Oscars
558 min
Cotação: * * * * *
Serviço:
A Locadora Vilex se localiza na Av. Nações Unidas, 1270. Contato: (86) 3218-6054 e (86) 8806-6054.
* Artigos escritos antes do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
07/06/2010, 07:59
A arte, de um modo geral, sempre encontra formas e maneiras de se manifestar em qualquer canto que seja. A sedução pela arte é inerentemente humana e ultrapassa fronteiras geográficas, tecnológicas e intelectuais. Sendo a arte a própria expressão do íntimo humano, ela não deve se limitar a regras e normas, embora na maioria das vezes tenha bases muito bem definidas que terminam cristalizando dogmas. Foi Riccoto Canudo, no seu Manifesto das Sete Artes, quem dogmatizou o Cinema como sendo a Sétima Arte, dentro da qual dialogariam todas as outras, desde o Teatro à Música.
Infelizmente, não é possível eleger um teórico que clarifique e sistematize a produção audiovisual piauiense, sobretudo pelo fato de que há controvérsias se se pode ou não falar de um cinema piauiense. Obviamente que as origens disso remetem à própria questão da autoestima baixa do nordestino, acentuada em nosso Estado. A cultura daqui é um mix das outras que nos cerceiam, o que impede uma formação mais contundente de uma identidade cultural forte. Se não temos sotaque, não devemos ter cultura.
Tal pensamento autossabotador é escutado em qualquer palco vazio ao nosso lado. Um exemplo disso é quando a unanimidade relaciona os primeiros passos do “cinema piauiense” a produções amadoras no final da década de 60 e 70. No entanto, é importante lembrar que o Estado conheceu o cinema desde seu início, praticamente. As primeiras exibições experimentais de filmes na capital e interior datam de 1901, trazidas por empresários estrangeiros. Logo no alvorecer da nova arte fomos apresentados a ela. Nas décadas seguintes, as sessões de cinema se configuraram como a principal diversão do piauiense, ocasionando o boom dos cinemas de rua, como Cine Royal, Cine São Luis, entre outros. Temos, ou tínhamos, o segundo cinema de rua mais antigo do país. O Cine Rex foi inaugurado em 26 de novembro de 1939 com a exibição do filme A Grande Valsa e formou as mais diversas plateias nas mais diferentes épocas e acompanhou grande parte das transformações pelas quais a produção cinematográfica passou, incluindo a sua própria.
Foi perto dali que um grupo de jovens se reuniu para produzir um jornal com o objetivo de levar cultura à população. Paulo José Cunha, Edwar Oliveira, Arnaldo Albuquerque, Carlos Galvão e Durvalino Couto Filho sentaram-se nas gramas da Praça da Liberdade com o objetivo de fazer um movimento trazendo a cultura para mais perto da população. Por conta disso, o jornal foi chamado de “Gramma”, e graças a uma entrevista dada por Torquato Neto nasceu o primeiro curta-metragem piauiense, Adão e Eva no Paraíso de Consumo (ou Do Paraíso ao Consumo), protagonizado pelo próprio e por Claudete Dias. A ele, seguir-se-iam muitos outros.
A produção audiovisual piauiense sempre pertenceu, como podemos ver em sua pequena trajetória, ao coro dos descontentes. Sempre foi intimamente ligada aos movimentos cineclubistas, nos quais se viam clássicos, discutiam-se tendências e experimentavam-se pequenas e ousadas gravações. Muito arraigado a questões sociais e politicamente reacionárias (frutos da Ditadura Militar), não inovou em estética ou linguagem. Bebeu na fonte da Nouvelle Vague da França, do Neo-realismo da Itália e do Cinema Novo brasileiro para, dessa mistura, registrar o clima sociocultural de uma época. Assim tivemos o movimento setentista em super-8, no qual Torquato Neto foi grande expoente, defendendo a precária tecnologia: “Cinema é um projetor funcionando, projetando imagens em movimento sobre uma superfície qualquer. É muito chato. O quente é filmar”.
E na quente Teresina da primeira metade da década de 70 saíram filmes como David a Guiar (também conhecido como As Feras), de Durvalino Couto Filho, Porenquanto, de Carlos Galvão, Terror na Vermelha, de Torquato Neto, entre outros, além das animações de Arnaldo Albuquerque e do longa-metragem Guru das Sete Cidades, que recebeu apoio estatal e foi satirizado por Noronha Filho com o seu Guru das Sexys Cidades, que vem acentuar o caráter marginal à produção desenvolvida no Piauí até então. Em geral, eram filmes de curta duração sem som direto que contavam uma história ou mesmo fragmentos de um específico cotidiano com uma trilha sonora da época (David a Guiar transcorre todo ao som de “Dark Side of the Moon”, álbum do Pink Floyd de 73).
Depois da morte de Torquato Neto, a produção piauiense efervescente ficou tímida. No final da década de 70, outros cinco jovens que participavam do Cineclube Teresinense resolveram colocar em prática seus estudos na área de cinema. Criaram, para tal, o grupo “Mel de Abelha”, que realizou sete curtas: Povo Favela (78), Pai Herói (80), Relógio do Sol (81), Espaço Marginal (81), O pagode de Amarante (85), Dia de Passos (85) e Da Costa e Silva (85). “Mel de Abelha” era formado por Dácia Ibiapina, Valderi Duarte, Luis Carlos Sales, Socorro Melo e Lorena Rego. Os principais temas tratados pelas produções do grupo são as questões morais, educação, cidadania e uma preocupação em resgatar as tradições culturais do Estado.
A sátira e a ironia eram características presentes nesses filmes, por serem crias do período da Ditadura e Censura. O que pode-se perceber é que, na contramão do cinema nacional, que se deslumbrava com o Cinema Novo, o Piauí via no Cinema Marginal sua única forma de uma manifestação audiovisual efetiva. Uma das causas da “adoção” desse formato não deixa de ser a precariedade de recursos. Até a década de 80 não havia nenhuma lei de incentivo ao cinema. Todo o desenvolvimento do audiovisual no Piauí era de inteira responsabilidade de seus criadores – como ainda o é. No nosso Estado não se falavam em leis de incentivo e políticas públicas, financiamento, além de incentivo à pesquisa. Uma realidade que não mudou muito, numa análise contemporânea.
Do modo como operaram suas bases e transformações, a produção audiovisual piauiense esboça um sentimento de não pertencimento dentro da história do cinema nacional. Por não se adequar ao mainstream tanto do Cinema Novo quanto do Cinema Marginal, resumiu-se a um olhar muito particular sobre nós mesmos. O nosso protesto é mais econômico e social do que político ou existencialista, embora tudo pareça estar no mesmo pacote. Enquanto Ruy Guerra mexia com o militarismo em Os Fuzis, Durvalino Filho mostrava os hippies daqui em David a Guiar. Nossos temas parecem ser de interesse só nosso, feito de uma maneira a construir uma identidade visual piauiense a partir do cotidiano de uma época, ou de épocas diferentes.
A primeira metade da década de 90 é marcada pelo fechamento da Embrafilme, que desertificou a produção nacional. Muito tiveram que se reinventar para sobreviver (Arnaldo Jabor virou jornalista) e outros simplesmente se deixaram morrer. No Piauí, começam a acontecer as iniciativas isoladas que continuam até hoje de jovens crescidos na geração dos videoclipes. Douglas Machado faz o curta-metragem A Ponte em 1994, já esboçando o olhar que seria marcante nas produções do fim da década e início da outra da noite teresinense e da juventude que anseia por diversão e arte. Com muita persistência, lança seu Cipriano em 2001, fazendo desabrochar um sentimento de Cinema por parte da população. Com isso surgem os nomes de Dalson Carvalho, Alan Sampaio, Monteiro Júnior, entre outros, que se destacam depois de várias produções amadoras no fim do milênio.
A vertente marginal volta a ser assumida com as produções de Aristides Oliveira, que também organiza a Mostra de Cinema Marginal, já com duas edições. Também ocorre o boom dos documentários legitimamente piauienses, com uma preocupação econômica e social mais frouxa, porém ainda presentes nas entrelinhas. Os editais, as leis de incentivos, o apoio das empresas privadas começam, ainda que timidamente, a fazer parte da vida dos jovens cineastas do Estado. A televisão se rende e começam a aparecer programas voltados para cinema e com a exibição de curtas-metragem feitos aqui, assim como tem acontecido mais festivais e mostras de filmes nossos, com público a cada ano maior.
As salas de cinema, agora presas aos shoppings, também começam a abrir suas entradas às produções locais. Depois de Cipriano, tivemos exibições de No Meio do Caminho (2004) e Insone (2005), de Monteiro Júnior, O Confidente (2005), de A. José, e Entre o Amor e a Razão (2006) e Ai que Vida! (2007), de Cícero Filho. O sucesso deste último mostra o quanto o público está ávido por produções que o refletem na tela grande. Nas salas foras do shopping, digamos assim, pudemos conferir vários curtas e documentários, como Um Corpo Subterrâneo (2007), de Douglas Machado, A Noite e a Cidade (2005), de Monteiro Júnior, O Cine Rex e Nós (2007) e Um Homem sem uma Câmera (2007), de Alan Sampaio, e Corpos Humanos (2007) e Quem São os Mestres? (2008), de Dalson Carvalho, entre diversos outros.
Após o movimento em super-8 nos anos 70 e o Mel de Abelha na década seguinte, não tivemos mais manifestações coletivas e unidas em prol de uma produção audiovisual. Talvez o mais perto que se tenha chegado disso na nossa história recente tenha sido o movimento denominado Kitupira, que tinha à frente o jovem cineasta Alan Sampaio. Contudo, com sua morte precoce no Natal de 2007 não houve tempo para o Kitupira mostrar a que veio. De agregação de pessoas com vontade de se expressar por meio do audiovisual, têm-se as oficinas realizadas pela Associação Brasileira de Documentaristas – seção Piauí, que busca formar jovens capacitados a compreender tecnicamente o cinema e a estar apto a realizá-lo, promovendo viagens ao interior e produção de curtas-metragens com seus participantes.
Como o campo cinematográfico entrecruza com os campos cultural, no caso as outras artes, político (filmes com mensagens políticas, com ideologia, e até mesmo a falta de políticas de financiamento e apoio), econômico (o difícil acesso aos equipamentos, na grande maioria caros, e a falta de apoio de instituições e governo) e social (interesse das pessoas em conhecer e apreciar a produção local), é preciso um fortalecimento desses campos para que a produção audiovisual possa se cristalizar. Ainda parte de iniciativas isoladas e vem conquistando espaço graças às temáticas nas quais o público se reconhece na tela. Algumas são mais universais e outras mais específicas. Os movimentos cineclubistas estão escassos, o “cinema piauiense” agora pertence a angústias individuais de jovens com vontade de se expressar. Ele se reconhece no vazio das relações interpessoais. Na falta de ideologias, fala-se de si mesmo. Se depender disso, ainda seremos espectadores de muitos filmes genuinamente da terra.
Colaboração:
Ivana Machado, Nina Nunes, Naira Sérvio, Afonso Rodrigues
Texto:
Monteiro Júnior
24/05/2010, 00:01
Compreender um filme em sua totalidade narrativa é, antes de tudo, entender o contexto no qual foi feito. Tão importante quanto dominar a linguagem cinematográfica é analisar a situação histórico-social de sua época e como ela se reflete no próprio movimento cinemático da obra. Diante disso, os clássicos do cinema proporcionam verdadeiros estudos sobre estéticas e tendências artísticas do passado e, sobretudo, o zeitgeist, ou clima intelectual e cultural de um determinado período. Quando Fritz Lang lançou seu “M – O Vampiro de Dusseldorf” em maio de 1931, a Alemanha estava assolada por um pessimismo social e econômico geral. As consequências da derrota na Primeira Guerra Mundial, com as indenizações de guerra cobradas pela Tríplice Entente (Inglaterra, França e Império Russo) e as rigorosas punições do Tratado de Versalhes, ainda pairavam no ar nos derradeiros anos da mal fadada República de Weimar. Não bastasse esses traumas para administrar, a quebra da Bolsa de Valores de 1929 nos Estados Unidos ecoou forte por lá, levando a um drástico corte de gastos públicos que faria a República alcançar um completo descrédito em 1932, dando margem para a ascensão de Adolf Hitler e sua ideologia ariana.
Foi nessa fase entreguerras o florescimento do Expressionismo Alemão nas artes, retratando a alma de um país humilhado. O cinema distorceu seus cenários, exagerou as interpretações, tornou as sombras personagens de histórias com temas sombrios em ambientes urbanos sem nunca esquecer as angústias sociais. “O Gabinete do dr. Caligari”, dirigido por Robert Wiene em 1919, foi o filme que lançou os moldes desse movimento com forte apelo psicanalítico, seguido por produções como “Nosferatu”, de F. W. Murnau, “Dr. Mabuse – O Jogador”, “Metropolis” e “Os Nibelungos”, de Lang, que, graças a esses três filmes, se tornou um dos nomes mais importantes da estética expressionista e do próprio cinema alemão do começo do século XX. De gênio difícil e arrogante, Fritz Lang começou a escrever roteiros no hospital após quase perder a visão de um olho lutando na Primeira Guerra. Sua primeira esposa, Lisa Rosenthal, matou-se com um tiro no peito em 1921, supostamente por descoberto seu caso com a atriz e roteirista Thea von Harbou, com quem se casaria no ano seguinte. Antes de se separarem em 1933 (ele ainda teria outra mulher, dessa vez até sua morte, em 1976), Thea e Lang colaboraram nos roteiros de alguns de seus principais filmes, incluindo a obra-prima do suspense “M – O Vampiro de Dusseldorf”.
Baseado num artigo escrito por Egon Jacobson, não creditado, sobre o serial killer Peter Kürten, que na década de 20 casou pânico na cidade de Dusseldorf, sendo chamado “vampiro de Dusseldorf” pelo hábito de beber um pouco do sangue de suas vítimas após matá-las, a história se estabelece magistralmente logo na primeira cena: um grupo de crianças brincando de roda e cantando uma canção cuja letra diz “um, dois, um, dois, aí vem o homem com a machadinha para fazer sua carne picadinha”, seguido de um movimento de câmera em tilt up até enquadrar uma mulher com um cesto cheio de roupas aflita com aquilo. Pronto, em menos de dois minutos o espectador já sabe sobre o que trata o filme e a tensão em torno da premissa tem início, pois inquestionavelmente aquela será a mãe da próxima vítima. Costuma-se dizer que um bom roteiro começa logo na primeira cena, no primeiro diálogo, capturando de imediato a atenção de quem o estiver assistindo. Este é um exemplo clássico de como isso funciona bem, tão bem que virou cartilha para os filmes dali para frente. Hitchcock inicia “Festim Diabólico” já com o assassinato no qual a trama gira em torno. É espetacular quando o filme não enrola a dizer para o que veio, mostrando o grande condutor por trás dele. E Fritz Lang faz isso de forma genial, usando os dez minutos iniciais para mostrar a angústia das mães, a pequena vítima, o clima instaurado na cidade e, obviamente, o assassino, ou melhor, sua sombra projetada em cima do cartaz falando dos crimes.
É uma apresentação sublime para um psicopata, capturada numa imagem icônica que causa arrepios justamente pelo fato de o espectador saber de quem se trata. E então na sequência vem o assobio que será a marca de seu impulso de matar. Trata-se de uma identificação sonora forte, no caso “In the Hall of the Mountain King” (também conhecida como “Peer Gynt, Suíte I Op. 46”), talvez o movimento mais conhecido da música incidental composta por Edvard Grieg em 1875. Difícil não ficar com ela na cabeça após o término do filme. Aproveitando a deixa, é admirável como Lang trabalha a dialética entre som e imagem, sendo esta sua primeira produção falada e de cara demonstrando sagacidade para fazer tanto o som diegético quanto o não diegético serem elementos importantes na narrativa, quase personagens à parte. Há três assobios que caracterizam figuras centrais da obra: além do maníaco, tem-se o assobio do chefe de polícia e do chefe da máfia. O que leva à segunda parte de “M”, quando roteiro e direção trabalham bem a paranoia da população de desconfiar de toda e qualquer pessoa, afinal o assassino pode ser o mais pacato dos cidadãos, e os malsucedidos esforços da polícia em encontrar pistas para o caso, mostrado numa sequência conduzida pela narração de uma conversa ao telefone. Ao que parece, foi a primeira utilização desse recurso hoje tão banal entre as narrativas audiovisuais.
Outro toque brilhante do filme é o humor inserido em algumas sequências, principalmente quando o foco está na polícia e no descrédito da sociedade perante ela, certamente reflexo da redução econômica da República de Weimar, deixando o aparato policial sem recursos para cumprir sua função. Ao invés de conduzir uma investigação mais séria, o chefe de polícia faz batida em bares clandestinos e termina prendendo quase todo mundo pelos motivos mais bobos. Um excelente exemplo da segurança de Lang em flertar com outros gêneros sem perder a consistência da narrativa, além do fato de mostrar detalhes do submundo da Alemanha nesse período. Entra em cena a máfia, ironicamente a única esperança de se descobrir a identidade do assassino de crianças, que manda até uma carta aos jornais zombando do polícia – alguém se lembrou de “Zodíaco”? As cenas das reuniões dos mafiosos e dos policiais são montadas em paralelo de forma interessantíssima, tudo começando no corte que pega o início do movimento do braço do chefe da máfia e continuando no resto do movimento do braço do chefe de polícia. A partir desse ponto, o filme se divide em dois núcleos, tornando-se mais dinâmico. Enquanto a polícia começa a seguir as pistas certas, mesmo de forma lenta, a máfia contrata os mendigos para vigiarem todas as ruas. Melhor crítica social que essa impossível.
Embora a identidade do maníaco seja desconhecida até próximo ao último ato, seu rosto não, ele é mostrado numa cena rápida dele se olhando pateticamente no espelho enquanto o chefe de polícia cita suas possíveis características. É o rosto do ator Peter Lorre, que ficaria mundialmente famoso depois de sua performance como Hans Beckert, o M do título. Na verdade, o filme deveria se chamar “The Murderes are Among Us”, o que talvez não soasse bem para os nazistas em ascensão. Lang terminou considerando “M” mais interessante. O M vem de mörder, assassino em alemão, além de ser a maneira como os mendigos seguem Beckert após um velho cego identificar seu assobio, com um M de giz grafado às suas costas. A caracterização de Lorre pode parecer exagerada nos dias de hoje, mas isso era parte do expressionismo da época e até que ele defende muito bem seu personagem, pondo seu instinto de matar num nível esquizofrênico, mas sendo brilhante na angústia sentida quando precisa lutar contra isso. É um sujeito patético, no final das contas, e por isso mesmo assustador em sua loucura. O bobo da corte não pode um dia matar o rei num acesso fulminante de piadas? No caso de quem seria a culpa, do bobo ou das piadas?
É a questão levantada após Beckert ser capturado pelos mendigos numa tensa e longuíssima sequência dentro de um prédio. Ele é levado a um tribunal composto por criminosos e os pais das vítimas numa fábrica abandonada. Sua sentença de morte é tida como certa, mas ele tem direito a se defender e dispara um monólogo que realmente faz pensar acerca de sua condição tortuosa e da moralidade dos que estão a lhe julgar. Se fosse um Chan-wook Park certamente o assassino seria morto com requintes de crueldade por todos ali, afinal ele matou criancinhas inocentes para aplacar momentaneamente seus tormentos. Contudo, Fritz Lang faz o roteiro levantar questões que normalmente seriam desconsideradas numa situação real, como se ele quisesse testar o próprio espectador. Pode-se julgar alguém que não responde por seus atos? O assassino confesso deve ser poupado e entregue à justiça ou a cuidados médicos? A multidão irrompe em fúria, os juízes de um julgamento de vingança. A polícia invade na hora e evita que Hanz Beckert seja linchado. Corta para um tribunal de verdade. “Em nome da lei. Em nome do povo”, diz o juiz. O veredicto não é revelado, graças a uma esperteza sem igual de Lang. Ao invés disso, ele corta para três mães sentadas no tribunal a observarem e lamentarem. A reflexão final que uma faz é espantosa, como se também assumisse alguma espécie de responsabilidade pelas mortes. “Nós, também, então vamos tomar conta de nossas crianças”. A última frase do filme.
É como se Fritz Lang dissesse que a situação da Alemanha fosse culpa deles mesmos, dos cidadãos e governantes. “M – O Vampiro de Dusseldorf” teve sua estreia num zoológico, onde foi aplaudido de pé. Três anos depois, foi banido da Alemanha pelos nazistas. Como era judeu, Peter Lorre saiu do país assim que as filmagens terminaram. Lang só saiu dois anos depois, tendo de se divorciar de Thea von Harbou por ela ter resolvido apoiar a causa do III Reich. Reza a lenda que Goebells teria lhe oferecido a direção de todo o cinema nazista e na mesma noite ele fugiria para Paris só com a roupa do corpo. De lá, iria para Hollywood, onde faria sucesso com filmes como “A Fúria”, “Casamento Proibido”, “O Diabo Feito Mulher”, entre vários outros. “M” é seu testamento, seu filme favorito e um de seus melhores trabalho como realizador cinematográfico. No início do cinema falado, exercitou um magistral diálogo entre o som e o silêncio para manter o espectador tenso do início ao fim. Foi escolhido pela Associação Cinematográfica Alemã como o filme alemão mais importante de todos os tempos. Na estreia, Fritz Lang disse que só queria fazer um filme policial de qualidade. Fez mais do que isso, criou a crônica do suspense policial, cuja fórmula entraria em desgaste ao longo dos anos. Sua fala faz pensar numa falsa modéstia, visto sua personalidade, e levanta a maior de todas as questões: um gênio sabe, no exato instante da criação, que está prestes a dar ao mundo uma obra-prima?
Ficha:
M, ALE, 1931
Suspense
P&B
111 min
Cotação: * * * * *
Serviço:
A Locadora Vilex se localiza na Av. Nações Unidas, 1270. Contato: (86) 3218-6054 e (86) 8806-6054.
20/05/2010, 00:00
1968 não foi um ano como outro qualquer. Da Primavera de Praga, passando pelos assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy, às manifestações estudantis, incluindo aí o Maio de 68 em Paris, o Massacre de Tlateloco no México e as passeatas aqui no Brasil contra a Ditadura Militar prestes a instaurar o AI-5, além da Guerra do Vietnã e a ascensão da contracultura dos hippies e da libertação sexual feminina. Muita coisa aconteceu no ano mais complexo da história do século XX, que repercute até hoje em cada esquina onde haja um jovem e um cinquentão na eterna queda de braço de seus valores morais. Em meio a tudo isso, um filme foi lançado espelhando, talvez num nível inconsciente, todas as chacoalhadas e transformações pelas quais o indivíduo passou naqueles conturbados doze meses. Um ano antes de o homem pisar na lua e olhar de lá para cá, Stanley Kubrick jogou a isca e abocanhou um grande peixe: a Terra era azul. Mais do que uma obra profética, nesse e em vários outros sentidos, “2001: Uma Odisseia no Espaço” abriu caminhos perceptivos sobre a evolução humana e sobre como a ficção científica poderia ser objeto de reflexão da realidade. Kubrick não se conteve em fazer um grande filme diferente de tudo já visto no gênero até então. Precisou ir além disso. Muito além.
Agora, com a disponibilidade da obra em Blu-Ray, com altíssima definição de imagem e banda sonora, é uma excelente oportunidade de redescobrirmos toda a genialidade de Stanley Kubrick num dos grandes filmes de todos os tempos, revolucionário e perturbador em sua época, instigante e fascinante mesmo nos dias de hoje, com a perfeição de efeitos realistas e o modismo da tecnologia 3D. Antes de qualquer coisa, “2001” é um filme de ideias, de conceitos aparentemente abstratos, captados de forma próxima e realista pelas lentes da câmera a coreografar um verdadeiro balé ao som de música clássica. O espectador é testemunha ativa da construção de sentido em cima da sequência de imagens regida com um formalismo capaz de embasbacar Eisenstein, se o mesmo pudesse ver o espetáculo. Aqui, o maestro leva o espectador a uma viagem ao passado e ao futuro da civilização humana para mostrar o quanto muito ainda se desconhece em relação à própria natureza e a amplitude da mente, seja humana, artificial ou extraterrestre, sem nunca perder as sutilezas para as lacunas serem preenchidas por cada um. O teórico Hugo Münsterberg, um dos primeiros a escrever sobre cinema, mais especificamente acerca da receptividade ativa do público, certamente se debruçaria em minuciosos ensaios sobre a capacidade de Kubrick fazer o espectador preencher mentalmente o que está fora das imagens, mesmo estando lá.
É o que chamamos de elipses, simbologias de ação, espaço e tempo apenas sugeridas pela narrativa. A transformação do osso jogado pelo primata no ar, após este descobrir como matar animais e também semelhantes, numa estação espacial resume, num único corte, simplesmente toda a evolução civilizatória do homem. Tudo o que acontece entre o osso e a nave é conhecido por todos, e naquele corte seco fantástico todas as conquistas e destruições provocadas pela humanidade em milhões de anos vira nada mais do que flash da imponência do tempo sobre a existência. O melhor corte da história do cinema? Sem dúvida, o mais rico em significado, pondo fim à primeira parte do filme, na qual o trabalho de concepção dos primatas é brilhante, assim como a aparição do monolito despertando sua curiosidade e afetando seu comportamento. Não fica tão claro se a mudança de alimentação, de vegetariana para a carnívora, ocorreria mesmo sem a presença do artefato extraterrestre. Quem sabe seja uma isca para o público decidir morder ou não. De qualquer forma, é impossível tirar da cabeça a cena na qual o primata Moon-Watcher descobre como usar o osso para quebrar carcaças, ao som de “Assim Falou Zaratustra”, de Richard Strauss. É forte, simbólica, como se ali fosse mesmo o nascimento no homem de sua própria natureza destrutiva. Fora isso, dentro da estrutura narrativa, serve como preparação para o gancho que levará à primeira virada do filme, justamente no famoso corte.
E então lá está a Terra azulzinha como só seria oficialmente confirmado no dia 20 de julho de 1969, quando a Apollo 11 aterrissou na superfície lunar, no local conhecido como Mar da Tranquilidade, com os astronautas Edwin Aldrin e Neil Armstrong. Em “2001”, Kubrick faz seu pouso na lua para constatar a presença do mesmo monolito apresentado no começo do filme. Só que antes disso temos uma antológica valsa espacial, que à primeira vista confunde-se com um mero exercício de estilo de um gênio exibicionista. Mas o terreno está apenas sendo preparado. Francis Ford Coppola dá o tom de “Apocalipse Now” (1979) justamente nas sequências musicais do início, como “The End”, do The Doors, e “A Cavalgada das Valquírias”, de Wagner. Por essas duas sequências, entende-se que não será um filme qualquer sobre a Guerra do Vietnã. É o que Kubrick faz na viagem rumo à intrigante descoberta numa das crateras lunares: ao som de “Danúbio Azul”, de Johann Strauss, é revelado o ritmo da obra, o total controle da duração dos planos, a cadência entre eles, o uso das lentes. É uma verdadeira valsa de imagens, algumas engenhosamente enquadradas com o objetivo de fazer o espectador acreditar naquilo e se sentir dentro da nave, com truques ópticos tão simples (computador gráfica era ficção na época) que ultrapassam a noção ingênua de genialidade. Mais uma vez, o maestro rege sua orquestra com total segurança, enquanto apresenta invenções que hoje são realidade, graças a uma consultoria que tinha acesso a todas as predições científicas e aos experimentos da NASA.
O perfeccionismo está impregnado em cada frame, inclusive no texto escrito em parceria com o escritor Arthur C. Clarke, considerado por muitos anos um dos grandes autores de ficção científica, ao lado de Robert A. Heinlein e Isaac Asimov. Ao contrário do que se pode pensar, “2001: Uma Odisseia no Espaço” não é baseado no livro homônimo de Clarke, e sim no conto “A Sentinela”, escrito pelo autor em 1948. Na verdade, Kubrick pediu a Clarke que escrevesse um romance com as ideias contidas no conto enquanto desenvolviam juntos o filme, que terminou sendo lançado alguns meses antes do livro chegar às livrarias e se tornar um best seller. Embora a história seja a mesma, existem algumas diferenças entre o filme e o livro, que Clarke exploraria em suas três continuações. Apenas “2010: Odyssey Two” chegou a ser adaptado por Peter Hyams em 1984 (o subtítulo nacional é “O Ano em que Faremos Contato”), com resultado bastante inferior à obra-prima de Stanley Kubrick, no qual os diálogos são relativamente simples e diretos, melhor explorados na terceira parte do filme, quando surgem mais carregados pelas ideias centrais pós-Darwin e as barreiras éticas da inteligência artificial. Entra em cena um dos maiores vilões do cinema norte-americano: o computador HAL 9000.
Nesse ponto da história, tudo se concentra na nave Discovery One e sua missão rumo à Júpiter. A bordo, três astronautas em estado de hibernação, enquanto David Bowman (Kleir Dullea) e Frank Poole (Gary Lockwood) administram a viagem sob a assistência de HAL (voz de Douglas Rain), um computador programado para não cometer erros e interagir com os seres humanos. A história por trás de HAL é interessante, uma vez que muitos supunham ser uma sigla composta pelas letras anteriores às que compõem a sigla da IBM, o que seria uma crítica bem direta e contundente. Os próprios autores negaram o fato, justificando HAL como sendo Heuristical ALgorithm e a própria IBM uma das marcas que apoiaram a produção do filme. Seja como for, é um personagem brilhante, talvez o verdadeiro protagonista de “2001”, representado apenas por um olho vermelho e dono de uma lógica verbal absurdamente pragmática, embora com características humanas, como arrogância e instinto de autopreservação. Após cometer um erro, curiosamente atribuído a uma falha humana, HAL descobre a intenção dos dois astronautas de desligá-lo, surta de vez e começa a matar os tripulantes. É aqui que Kubrick sai um pouco do gênero e flerta com o suspense, criando ótimos momentos de tensão. Clarke achou um tanto absurdo HAL ter a habilidade de ler lábios (ideia de Kubrick) e pode mesmo até ser um dos poucos pecadilhos do roteiro, uma vez não ser tão criativo e engenhoso quanto o resto do filme, apesar de ser bem hitchcockiano o modo como ele filma a cena e hoje em dia de fato existirem computadores com tal capacidade. No final das contas, o maestro compôs certo com notas tortas.
A ideia HAL ter ou não sentimentos humanos, ainda que programados, é uma das discussões que geram controvérsias e permanecem até hoje. Stanley Kubrick não dá respostas, mas só o fato dele mostrar essa relação de modo realista e levantar um questionamento nebuloso e pertinente destaca seu trabalho perante os demais. Fazer o espectador refletir a fundo é um dos grandes méritos de “2001”. A sequência em que Bowman consegue driblar os planos de HAL e ter acesso ao seu “sistema nervoso”, digamos assim, enquanto o computador pede calmamente para que pare e lhe dê outra chance é sensacional, graças, sobretudo, à entonação de Douglas Rain. O som diegético joga o espectador bem no centro da angústia do que está acontecendo. No fundo, é um assassinato, mesmo sendo o único jeito de se livrar de uma ameaça perigosíssima. Nisso, chega-se à cena em que Bowman vai desativando HAL aos poucos e ele vai gradativamente perdendo a consciência. Quantos filmes mostram a morte de um computador de modo tão dramático? Já em seus últimos momentos, HAL pergunta se pode cantar uma música. “Cante para mim, Hal”, a melhor atuação de Kleir Dullea está nessa frase. E aí, o computador começa a cantar “Daisy Bell”, composta por Harry Dacre em 1892, até ficar inconsciente de vez. A curiosidade da música, e por que Kubrick a usou, é que ela foi a primeira reproduzida por um computador, IBM 704, em 1962, tendo este modelo sido o primeiro computador a “cantar”.
Com a “morte” de HAL, Bowman descobre a verdade sobre a missão, e não é nenhuma surpresa ela estar relacionada ao misterioso monolito desenterrado na lua. É aqui que Kubrick leva o espectador além, ultrapassa as fronteiras de seu próprio filme com uma sequência lisérgica que fez muita gente ir ao cinema drogado ou para se drogar e curtir a viagem de David Bowman em direção a um suposto encontro extraterrestre. Mas não espere por seres verdes e cabeçudos típicos das ficções científicas dos anos 50. Kubrick chega à conclusão de que é impossível mostrar a face de Deus e promove um diálogo silencioso entre as etapas da evolução humana: da juventude à velhice e da morte ao nascimento, num movimento absolutamente incrível com as versões mais jovens de Bowman irem sumindo em cortes de contraplano. O “eterno retorno” de Nietzsche cede lugar a uma nova etapa da evolução, e o “star child” é a imagem icônica de um novo passo na evolução darwiniana do ser humano, atingindo uma mente cósmica e holística iniciada pelos primatas. O filme se fecha aberto, jogando as reflexões diretamente para o espectador. A única certeza é que quando surgem os créditos finais, retorna-se lentamente da mais intrigante experiência que o cinema é capaz de proporcionar.
Agradeçamos ao maestro Stanley Kubrick.
Ficha:
2001: A Space Odyssey, GB/EUA, 1968
Ficção
148 min
Blu-Ray
Cotação: * * * * *
Serviço:
A Locadora Vilex se localiza na Av. Nações Unidas, 1270. Contato: (86) 3218-6054 e (86) 8806-6054.