O Enigma de Kaspar Hauser
(25/02/2010, às 20:42:49)
Um dos grandes trabalhos de Werner Herzog, “O Enigma de Kaspar Hauser” continua a ser um filme fascinante até os dias de hoje, quase quarenta anos depois de sua estreia. A força da narrativa a martelar na cabeça do espectador o estranhamento social experimentado pelo protagonista na Alemanha cheia de etiquetas do século XIX é sem dúvida um dos pontos altos da obra. Sem falar na magnífica interpretação de Bruno S., que o marcaria para sempre, e todas as questões filosóficas, sociológicas e psicológicas suscitadas com clareza de consciência e sensibilidade.
Inspirado numa história real, Herzog conta o drama de Kaspar Hauser, mantido por quinze anos sem qualquer contato com o ser humano. Sem falar muita coisa e com o comportamento introspectivo, ele é deixado numa praça em Nuremberg com uma carta na mão. Rapidamente se transforma em grande curiosidade para os habitantes a especularem suas possíveis origens nobres. Termina por ascender socialmente, a se portar e até a tocar piano, entretanto nunca chega a assimilar os conceitos impostos pelos outros e suas lógicas no fundo falhas.
Herzog aponta sua câmera para o personagem com a curiosidade de um estudante e para as pessoas ao redor com o desprezo de um observador da imbecilidade humana. Ele enquadra de forma brilhante a indiferença de Kaspar Hauser para com o estranho mundo que o rodeia, mostrando-o puro como uma criança ao entrar em contato com as sensações desse mundo. Chega a ser comovente de um jeito raro ver o protagonista queimar o dedo numa vela ou segurar um bebê. Aula de cinema da melhor qualidade. A sacada da narrativa é tornar o espectador tão inadequado quanto Kaspar Hauser, enxergando o mundo por meio de seus olhos.
E então fica absolutamente compreensível a indiferença do personagem a conceitos como Deus, sonho e a própria realidade. Herzog faz aqui seu questionamento sobre a teoria da tabula rasa, base tanto do empirismo quanto do behaviorismo, da maneira mais contundente possível. Como se não bastasse, mostra com intimidade, e até um pouco de extravagância, que todas as coisas não passam de construções sociais, a diferença entre aquilo o que somos e o que expomos. No mundo de Kaspar Hauser, a sensação se sobrepõe à razão. Não é tão difícil assim se identificar com um personagem como esse.
Obrigatório para todos aqueles que se sentem um tanto deslocados no mundo, possui o título original bem mais instigante: “Jeder für sich und Gott gegen alle” quer dizer “Cada um por si e Deus contra todos”.
Pode ter certeza disso.
Ficha:
Jeder für sich und Gott gegen alle, ALE, 1974
Drama
110 min
3 prêmios em Cannes
DVD
Cotação: * * * *