08/03/2010, 08:15

Imortal?, por Fonseca Neto

        
Mestre Paulo, Dagoberto, Celso, Teresinha, Zózimo, Nerina, Santana ...: tranquilamente poderia citar tantos outros notáveis integrantes da Academia Piauiense de Letras em agradecimento à acolhida simpática em seu convívio deste persecutor de palavras.

Foi uma festa muito significativa para nossa história de vida a posse na Cadeira 1 da APL, no último dia 2. Ali estavam acadêmicos, familiares, amigos, colegas, autoridades de vários feitios e serventias, repórteres. Curiosos. Uma noite especial.

O lugar e cenário da festa foi o auditório do Colégio Diocesano, dos padres jesuítas, erguido sobre a capela sacra e designado com homenagem a Antonio Vieira, o famoso sermonista. Nela não se viu a pompa que alguns supõem ser própria desse tipo de evento. Mas sendo um acontecimento único na vida de quem o protagoniza, nela a circunstância avultou, revelada na singularidade de cada ato, na variedade dos atores presentes, nos discursos –ainda que copioso o nosso. O do acadêmico M. P. Nunes impressionou a todos pela essência literária e verberação em favor da vida.

Em cada presença, aceno, mãos entrelaçadas, canto de Lúcia, beijos, frenesi das luzes reportariais; nos familiares de toda linha, entre atentos e enlevados; nos padres, bispo, vice-governador e nos homens dos outros poderes; patoenses, nos passagenses e aquela faixa declarando amor escancarado, padre Vicente, em pessoa, nos colinenses; nas universidades, estudantes, servidores docentes e técnicos; na oeirensidade plasmada pela vitória datada do dois de março; em tudo de simpatia manifesta nos outros tantos circunstantes. Uma verdadeira confraternização. Sim, verdadeira, com a força desse vocábulo.

Verdadeira porque ninguém foi ali fraternizar conosco com outra expectativa que não a de partilhar os dons do especial acontecimento. Trata-se de algo que nos marca a alma; algo imune ao esquecimento.
 
Muito calorosas as manifestações de quem não pode comparecer, que foram e ainda nos chegam muitas. E até no reclamo mais sentido de quem não se sentiu convidado ou que acabou não sabendo da circunstância, há efusão de apreço. E por tudo, deve ser e é sincero nosso público agradecimento.

Atilada, Teresinha Queiroz lembrou ser ela a “festa de uma geração”. Isto mesmo: para ali confluíram as pessoas do nosso tope –idade mediana, fazer, sonho, expectativa, idem.
 
Insistente pergunta: por que a Academia? E a sensação de pertencer a ela?

A Academia é um lugar distinto na vida cultural piauiense. E assim o são nos corpos sociais –nacionais ou locais– que as criaram (ou criam) para guardar, nutrir, qualificar e ressignificar valores culturais. Assim, acessá-la, é buscar responsabilidades novas.
 
A do Piauí foi criada em 1917 e tem um longo percurso de contribuição ao Estado. Há quem ache que ela é apenas repositório [ou lugar de guardar] certa tradição. Olhando-a de mais perto, vê-se que ali são nutridos, qualificados e ressignificados muitos dos valores fundamentais da vida brasileira e regional.

Entendemo-nos como sujeito de uma vontade de contribuir no esforço de torná-la ainda mais reconhecida, especialmente pelas novas gerações e suas novas e inquietantes perguntas –ainda que sejam perguntas acerca de antigos dilemas humanos.

O fato de pertencer a outro mundo também dito “acadêmico” –a universidade–  confere-nos tarefas de elaborar costuras colaborativas que se nos parecem indispensáveis. Afinal, o sentido e missão da universidade mais aproximam que discrepam das intenções articuladoras dessas instituições letradas mais longevas.

E “como você conseguiu entrar na APL?” Eleição dos titulares.
A propósito, dois deles, M. P. Nunes e Dagoberto Jr., certa noite, quebrada a imortalidade física de um par, assim em sede ética irretocável, e com a mediação de d. Clara Nunes, terçaram conversas entre si sob o assunto e disseram, em coro: “candidate-se”.

Assim, esses dois agora confrades, Dagoberto e M. P. atiçaram a química que faz o necessário comedimento do ideal de chegar à Academia transmutar-se em candidatura e realidade.
Imortal? Convém relativizar.

Fonseca Neto, professor da Ufpi, escreve às segundas-feiras nesta página.

 

01/03/2010, 08:12

2 de março de 1697

São raras as pessoas que não gostam de espanar a poeira do tempo em busca das origens, mais ou menos “eternamente retornando”. Nesse cometimento até inventou-se a História. Aguça a curiosidade saber o jeito de dançar do mundo de ontem.

Aqui neste lugar dele mundão, vive-se remexendo loca de pé de serra, lasca de corisco e furna de talhado em busca de nossa irmandade ancestral. E muito se descobre e assim se vai entendendo o viver de hoje.

Baldemos o vício. Revisitemos a “Descrição do Sertão do Piauí”, peça documental muito importante do registro escrito sobre a intrusão colonial européia nesta região, ainda no século 17, dada aos 2 de março de 1697, “dia de nosso primeiro documento civil”, tal a lembrança tão cara ao historiador Dagoberto de Carvalho Jr.

De fato, a “Descrição” é um memorial descritivo muito bem feito, organizado e assinado pelo padre Miguel de Carvalho, a serviço do bispado de Pernambuco. Veio Miguel a estes sertões estender a fé cristã e ao mesmo tempo estabelecer na prática a jurisdição daquela diocese, recenseando cada morador e fazenda e caracterizando o espaço natural geográfico. Enfim, estabelecendo oficialmente, rente ao povo, a autoridade régia, no caso específico, a o tacão do rei-padroeiro.

Nunca antes em tais confins de variadas capitanias se conhecera a ação do organismo ordenador burocrático régio, pois os poucos papéis escritos alusivos a estes sertões haviam sido emitidos há pouco tempo em forma de cartas sesmariais, ainda que poucas e vagas.

Avulta, pois, a “Descrição” do padre Miguel como atestado escrito, e o mais relevante, da fundação do Piauí nas franjas e garras da cristandade dilatada a partir da península lusolatina, visigótica e moura.
O Portugal da expansão mercantil –assim também a Espanha– era o papado romano imperial ampliando seu poder sobre a esfera terrestre, desde então aceita como finita, governável pela vontade dos príncipes terrenos. Assim é que o Piauí que conhecemos é fundado dentro da conformação do que chamamos hoje de paróquia ou freguesia, isto é, enquanto comunidade de fiéis, a catolicidade triunfante. Claro que, e já o aludimos, a vaga colonial-invasora vem intencionada e pulsionada pela exploração e criação econômicas, e a igreja-burocracia é o Estado em sua projeção centralizadora eficaz.

A “Descrição” é datada no dia em que é inaugurada canonicamente a freguesia de NS da Vitória, ocasião em que os moradores fizeram reunião e assistiram à sagração da igreja-matriz (“de 24 palmos de comprimento”) e à posse do primeiro pároco, no caso, o padre Tomé de Carvalho, desde aquele dia 2 a única autoridade local no real sentido do termo.

Ainda que conhecendo apenas os rudimentos da história da colonização, toda e qualquer pessoa sabe que ela é marcada desde o início pela distribuição senhorial das terras férteis e dos mananciais de águas entre os colonos, numa ação invasora que, dos litorais, alcançará, ao cabo de quinze décadas, os mais adentrados sertões. E a nova ordem se estabelece com a apropriação violenta do espaço (sesmaria) e a fixação da jurisdição real-eclesiástica. É o que se dá naquela ribeira direita do Canindé, na ribeirinha do Mocha afluente.
É parte da compulsão do “retorno” aferir a exatidão dos marcos originais. Pois a “Descrição” miguelina é rica em detalhes, uma fonte a explorar em termos de busca de significados de como se movimentam os grupos humanos do tempo.

Visto no geral, o Piauí de hoje é essa paróquia primeira, descrita em 1697, mais definidos agora os contornos e limites de sua jurisdição, agora distintos o Estado e a Província eclesiástica. Quinze anos depois, 1712, a sede da freguesia é também vila e seu território – do Atlântico a Rodelas e do Araripe às “matos desertos” rumo as Índias de Espanha– o primeiro município do Piauí. Aquelas e este as matrizes de todas as entidades políticas e eclesiásticas da atualidade. Do Piauí, e da vasta região dos “pastos bons” maranhenses adjacentes.

Por tudo isso, obrou muito bem o Governo do Piauí e a APL reeditarem agora a “Descrição”. Segunda edição do texto organizado pelo também padre e acadêmico Cláudio Melo, que, com Carvalho Jr., faz o par mais dedicado aos estudos das nervuras mosaico-cristãs lastradas nos brenhais de nossa existência.

 

22/02/2010, 08:41

Símbolos religiosos

Por Fonseca Neto

“A manifestação pública da fé cristã é imperativo ético que decorre da própria natureza do Evangelho e encontra acolhida e garantia na autêntica democracia”.

Começamos por recortar esse parágrafo final de artigo de D. Sérgio da Rocha, arcebispo de Teresina (“Cristãos na vida pública”, de 2009), que entendemos nos ajuda a partilhar o debate sobre a proposta de que sejam retirados os símbolos de conotação religiosa das chamadas “repartições públicas”, dessantizá-las.
Nas idas e vindas (e vem de longe), agora a discussão reaparece pautada e cheia de vieses abusivos a propósito de texto relativo a um novo plano de Direitos Humanos. A alegação central para a retirada diz que o Estado é laico, isto é, não tem religião –e de fato o é, princípio constitucional, assentado no Brasil por recepção da decretal republicana de 1889.

Posta a questão, assim, entre deixar ou retirar os símbolos, parece-nos uma simplificação, acirradora quanto esterilizadora, de fecunda quanto pedagógica suscitação de sentidos maiores.

Fala-se sobretudo da presença muito visível dos símbolos cristãos nos edifícios públicos pertencentes ao Estado, onde trabalham e por onde circula a população: escolas, casas legislativas e das justiças, presídios etc. Claro, é proeminente a marca cristã sobrelevando sobre outras manifestações, porque grande parte da população é cristã. É história; é fato. E os “cívicos”? O povo desconfia...

Vale recordar as noções elementares dos manuais de OSPB: nação é a expressão humana historicamente dada, caldeada em elaboração cultural comum das gentes. Estado, “a nação politicamente organizada”. A nação é anterior e suas bases fundantes são outras; o Estado é caudatário delas e não a fôrma a moldá-las, subjugadas. Os ajustes amplos dos “tempos modernos” europeus quiseram e de certo modo produziram a inversão. 

Europeus que fundaram neste trópico a chamada América afroportuguesa, ferindo de morte antiqüíssimas nações habitantes deste chão de palmas. E o fizeram, assentando no rescaldo, em ato de colonização implacável, a cruz cristã esvoaçante do caraveleiro branco, em consórcio forçado com os orixás das mamas áfricas do outro lado do Atlântico seqüestrados e trazidos na penumbra do tumbeiro negro. 

A base humana do Brasil de hoje é esta: afrocristã, acentuadamente católica, dotada de espontaneidade incomum. A subjetividade popular é indelevelmente tocada e docemente compungida pelos sentidos da religiosidade, dos cultos públicos e domésticos, das festas celebrativas comunais de adros e terreiros de todo canto, cantantes, que tanto bem fazem ao serviço da Paz. A igreja, as igrejas, a religião, praticada em público ou ato de autoimersão: o Brasil contemporâneo elabora em tal fermentação seus caminhos.

Posta como está, invocando-se apenas, em abstrato, a laicidade do Estado (que não existe para si) e esquecendo de que a população amplamente e cada brasileiro em particular são sujeitos de suas próprias experiências existenciais, pode-se apenas estar fomentando uma polêmica criadora de intolerância numa sociedade já muito dividida por iniqüidades geradas em sua formação social.

O espaço público radical não é o “o prédio da repartição pública”, é a rua. E é na rua, em procissões, repita-se, nos terreiros, tocando sino e tambor, cantando no coro e socando o chão de dançar, que os povos dos brasis ergueram este lugar de lutar e viver comunitário, rompendo grilhões. Em tudo, tanto símbolo, densos de tanto sentido. Sim, vale discutir o assunto. Mas por que não se postula, por exemplo, a retirada da idolatria mais que simbólica – diabólica – do consumismo? Certas repartições o povo não entra porque é tão ostentatório o vestir dos funcionários, que o cristão comum passa ao largo.

Como lembra nosso jovem arcebispo, a democracia de nossa experiência exprime sua autenticidade por garantir as manifestações públicas da fé cristã da maioria dos brasileiros.

E da minoria de não cristãos e dos que não aceitam a comunhão religiosa. Ademais, quanto faz bem contemplar/fecundar a estética/ética de nossa fides simbólica.   

 

08/02/2010, 09:33

Vaqueiros e cativos campeiros, por Fonseca Neto

Por alguns de seus mais dedicados professores, a Ufpi vai abrindo espaços mais significativos no conjunto das publicações que têm como perspectiva as interpretações sobre o Brasil.

Nesse contexto, calha bem situar a contribuição à historiografia brasileira da lavra do historiador Solimar Oliveira Lima, com qualificadas publicações que está pondo em circulação em nível local e nacional.

Nos últimos três ou quatro anos, sozinho ou em obras compartilhadas, publicou nada menos que seis títulos, um deles, sua tese de doutoramento, que saiu com o título “Braço forte: trabalho escravo nas fazendas da nação do Piauí (1822-1871)”, editado pela Editora da Universidade de Passo Fundo (RS).

Já agora lança pela mesma editora um consistente ensaio sobre as “origens e espaços de produção das fazendas pastoris do Piauí“, texto inserto em “Peões, vaqueiros e cativos campeiros - estudos sobre a economia pastoril no Brasil”, coletânea organizada pelo também destacado historiador Mário Maestri, que o faz juntamente com Maria do Carmo Brazil.

Notadamente esses dois trabalhos do historiador-doutor Oliveira Lima têm a qualidade de inserir o conhecimento da dinâmica da formação econômico-social do Piauí, vaqueira e escravista, nas linhas interpretativas da formação brasileira, questão que se afigurou até hoje problemática, porque cheia de incompletudes.

Com efeito, os lineamentos mestres estabelecidos até aqui sobre a formação econômica do Brasil, aparecem figurados ou arquitetados nos chamados “ciclos” do pau-brasil, do açúcar, mineração, etc., com menções apenas laterais a outras dinâmicas com eles conexas, a saber: a pecuária, borracha, a economia coletora de todos os tempos...

Lima particulariza, em investigação vertical (mas sem prejuízo da boa contextualização e interfaces com os movimentos formativos do próprio Brasil e do mundo), a implantação do criatório extensivo nos campos de pastagem natural do Piauí a partir do Seiscentos, explicando-lhe o encaminhamento pelos séculos seguintes afora, além de acentuar sua dicotomização a partir de 1760, quando parte da atividade econômica pastoril local passou à administração direta do Estado português, época da supressão da Companhia de Jesus. Ele retoma e melhor contextualiza o processo que impõe a separação da economia gadeira em relação à dinâmica da monocultura açucareira. Faz interessantes observações sobre como a aquisição das possessões sesmariais vai se convertendo em tessitura da ordem social que nasce, latifúndia, sobre os escombros da cultura indígena então tragada. Assim também, como essa economia pastoril terá desenvolvida, em suas linhas de força, uma agricultura de tipo mercantil, porque de subsistência sempre assim o foi.

O autor faz respeitoso uso das fontes secundárias elaboradas pelos que se poderia muito bem chamar de “intérpretes” do Piauí, destacadamente Odilon Nunes e Pereira d’Alencastre, dos quais examina as contribuições, por sua vez agregando valioso aporte documental primário.

Aliás, é desse último que Lima recortará a lembrança (a você que pensava que havia somente um tipo) de que são três os tipos de curral: o “curral de vaquejada”, o de “apartar” e o de “benefício”. 
Solimar Oliveira Lima pertence ao Departamento de Ciências Econômicas e está vinculado ao corpo docente de dois dos nossos cursos de Mestrado, o de História e o de Políticas Públicas. Pesquisador do Ifaradà, que é o Núcleo de Pesquisa sobre Africanidade e Afrodescendência, no Centro de Ciências Humanas e Letras, onde criou e coordena um Grupo de Pesquisa e Estudo sobre Trabalho e Escravidão.

Fonseca Neto, professor da Ufpi, escreve às segundas-feiras nesta página

 

01/02/2010, 08:34

Mafiando com livros didáticos

As autoridades brasileiras precisam providenciar imediatamente e regulação e controle sobre a produção e comercialização dos chamados livros didáticos. É um escândalo de grandes proporções que está em curso, impondo o sacrifício de uma e mais gerações.

No país de milhões de sem-livro, sintomaticamente de iletrados, a indústria editorial está trazendo para o mercado escolar privado livros caríssimos e de qualidade conteudista duvidosa e outros enviesamentos. São sucessivas edições do mesmo título, com pequenas alterações, mais de forma que de essência, contando com a cumplicidade das empresas do ramo comercial do ensino, que promovem a imposição da compra dessas velhas-novas edições, ficando aos pais a sinuca da cobertura de valores artificialmente escorchantes.
Meros livretos de exercícios de completar frases são impressos em papel liso, couché, impressão a cor, daqueles que os lápis grafite e canetas esferográficas escorregam e não pegam. Produtos de estéril concepção meramente consumista. Os livros são cada vez mais volumosos, pesando de um a dois quilos. Cheios de figuras em cor, muitas vezes desnecessárias, mas que enchem páginas e páginas, dando-lhes dimensões descomunais. Além de outros defeitos, nada ecológicos, diga-se.

Ora, livros, que são descartáveis, por que feitos com materiais tão sofisticados? É para potencializar os lucros absurdos desse filão do comércio de ensino. Ensino, dito para a classe média, baldando em ambiente de severa exploração sob todas as formas. Qualquer manual desses, de meras compilações apostilares, seja de que matéria for, é mais caro que o melhor livro temático ou obra literária e técnica em circulação comercial.
Mas por que são adotados livros assim? Por que a indústria editorial teria culpa na prática desse verdadeiro e odioso esbulho? Não são os professores, os chamados mestres, que fazem a escolha dos livros a adotar?

De fato. Por quê? Os professores não seriam as colunas vigorosas da muralha ética a impedir essas perversões tomando de conta do ambiente de ensino? Tudo indica que a resposta é um não. Esse mercado editorial parece ter arrebentado os pruridos éticos de professores que têm emprego nessas empresas. E não é difícil de compreender essa derrocada, contudo, inaceitável. Sabe-se que a indústria livreira corrompe docentes com os chamados livros “do professor”, começo e fim de um enredo de misérias que enoja. Esses livros “do professor” são um elemento de propaganda que têm assim outros usos e desusos nada edificantes, num ambiente que, em regra –sede da filosofia negocial– guia-se pela realização de lucros.

Reconhecendo-me professor e membro do Conselho Estadual de Educação, descreveu, com muita indignação, um livreiro ambulante da praça do Fripisa, o jeito malandro de como funciona esse verdadeiro “falso” mercado de “livro do professor”. De como esses vendedores informais são assediados para “comprar” esses manuais, que, inclusive, teriam o charme dos chamados “exercícios”, que os volumes dos estudantes não têm. Mostrou-me as tabelas praticadas. E acrescentou: “é lucrativo o negócio e os professores alegam que assim agem para complementar suas rendas, que são baixas”.

Nada disso justifica esse condenável desvio de conduta. Desvio que é sintoma de como claudica em péssimo exemplo esse emaranhado de organizações e pessoas. E alguns medioclassistas “justificam”: “mas também o ensino público não presta...”.

Desculpa esfarrapada. São graves e desafiantes para governo e povo os entraves à melhoria do ensino público, mas disso ele não pode ser tomado como culpado para consentir-se na manutenção das empresas de ensino como palco do espetáculo dessas misérias do mundo do lucro, do vil metal.
Aliás, nas próprias escolas dos governos, e suas interfaces com essa indústria livreira, quais seriam as dimensões das negociatas?

 


Fonseca Neto, professor, escreve às segundas-feiras nesta página.

 

25/01/2010, 09:19

WD: o apito? a batuta?, por Fonseca Neto

Haverá silvo agudo do apito do índio? O maestro volteará a batuta?

A sucessão de governador do Piauí neste 2010 colocou sobre W. Dias e W. Martins graves desafios em relação às opções da chamada base aliada. Os prazos eleitorais são fatalíssimos; decisões logo virão.

Dias surfa alta popularidade, degustada com especial desvelo; reconhecimento do êxito de iniciativas que romperam paradigmas no governo da sociedade. Prestígio que embasa um papel de liderança implicado por tais e graves decisões.

Todos perguntam –e é o próprio que assim quer sobre si o ônus do deslinde: qual a escolha de WD? Fora impopular, a regra seria esconder sua opção. Não é o que fazem com Efeagá?

WD é PT, WM é PSB, vice coligado; governo de coalizão e quetais; amplo. Para montar um arranjo de pessoas nos lugares do emprego e tocar o governo, tudo se afigurou propício pela impulsão centrípeta, todos aconchegados no colo que para muitos é mais dádiva que serviço; agora, no fim, como harmonizar as forças em centrifugação? Arribando? Mirando outros ninhais?

Wellington apontará um nome –qual um árbitro de apito severo– ou terá sido apenas o propugnador de uma fórmula? Wellington conseguirá reger (produzir harmonia, tão a seu modo) essa orquestra cujos ensaios sinalizam desafinar?

O êxito do governo petista, de coligados e parceiros, é sintetizado em sua figura, ora árbitro, ora maestro. Findando o governo (a ser completado por Martins), os reconhecidos acertos são cantados e apropriados por todos, claro –e os erros e omissões também assim o sejam.

Nota-se que a lealdade com que WD encara o encaminhamento que formulou no trato com aliados do governo que chega ao fim, não parece ter a contrapartida de alguns deles. Há impaciência, o que não seria, em si, leviano, ou traiçoeiro. Afinal, repita-se, WD tem seu partido, livre na ordem social e política para definir caminhos próprios para o futuro. Assim os outros. Detalhe: WM é aliado e vice, legítimo.

O PT tem candidato qualificado; os partidos do bloco de governo têm os seus. Por que não partem para o embate cada um por si? É porque a elaboração e exercício da função política requerem opções que, em regra, cria antagonistas. Porque há oposição; ainda que não pareça, sempre há projetos distintos em disputa.

Vitoriosos em 2002, Dias e o PT encarnam visão e modo melhores de condução política, até aqui partilhados. Porém, olhando mais de perto o entrançado da aliança, é de notar que há aliados e aliados: uns, para acessar as funções a fruir no dia-a-dia da governação; outros, mais engajados no projeto dirigido pelo governador. Uns, para tratar de seus negócios privados no palco da política; outros, em variado grau, para ir “da utopia à topia” –obg. frei Betto.

O pleito de outubro que vem –e vindo com Rousseff iluminada sobre as ondas túrgidas e tingidas de furor da alvorada de Vênus– equacionará a ansiada busca da cimentação do rumo petista. Mas há um caminho a percorrer até lá, um caminho a ser feito por pés, cabeças, corações e almas do conjunto do povo, caminheiro no chão da pátria estropiada em vária danação. Espetáculo genial de nossa vivência.
 
A liderança de WD será tensionada em forjas de altas temperaturas enquanto o eleitorado fará o governador em senador; a proeminência de sua liderança permite-lhe o exercício tranquilo dessa opção. O PT não lhe coloque um guizo, sabedor que ele sabe que tem um partido-raiz; faça-se prosélito dos seus muitos acertos, adensando uma tsunami de esperanças a reiterar. Reelabore alianças vermelhas socialistas para desatar nós de futuro; radicalize. Ideologia não é palavrão.

Ao fim e ao cabo, pois, ninguém esqueça, o tempo docemente alvissareiro das ondas vermelhas de ontem que o povo destes brasis surfou rumo aos dias de aconchegar sinceramente os empobrecidos. Mas trate-se com atenção os que vêm na garupa das ondas cheias e, oportunistas, fogem à rebentação da maré. 

Fonseca Neto,  historiador, escreve às segundas-feiras nesta página.

 

18/01/2010, 10:56

La Vandera, 2010, por Fonseca Neto

               
A festa da La Vandera –ou Lavandeira– reúne anualmente milhares de pessoas em Passagem Franca, Maranhão, sempre dia 10 de janeiro. Está na categoria das festas de orago do catolicismo secular e popularíssimo de nossa gente. Inaugura a festa do padroeiro da cidade, são Sebastião.

As notícias dessa folgança devota passagense remontam às origens setecentistas da cidade e o povo dali a tem como sua manifestação cultural coletiva de mais genuína tradição. Para alegria de sucessivas gerações, está descrita com muito zelo há mais de um século. O fez, o notável filho da região, José Sérgio dos Reis Júnior, assim perenizando lembranças da festa colhidas por sua família de gente culta, ainda no alvorecer do Novecentos. Lembranças trazidas do Oitocentos, diga-se.
 
Recortemos Reis Jr. para, com seu texto, façamos um passeio por essas histórias. Diz ele: “A festa começa invariavelmente a 11 de janeiro. No século passado [XIX] o povo da vila [...] em grande romaria e com algazarra, conduzia da mata para o pátio da igreja um esguio e linheiro caule de marfim, bem alvo e bem roliço. O mastro da festa.

Esta alegre e divertida procissão trazia o mastro a ombros, todo enfeitado de flores e ramos, qual um andor. No seu dorso, ostentando uma coroa simbólica de majestade, vinha bizarramente instalado o Rei eleito na véspera para abrilhantar a festa.

Entre aclamações, cânticos populares, charangas e ribombos de foguetes, desfilava o alegre cortejo pelas ruas da vila.
Era o Rei em charola...

O soberano antecessor aguardava no Largo da Igreja a chegada do cortejo para fazer entrega, de acordo com a pragmática, da venerável bandeira de São Sebastião ao novo Rei que era, a partir desse momento, o seu guardião.O vistoso estandarte com a imagem do Santo era, então, colocado no topo do mastro sob vibrantes manifestações dos presentes.

Ainda hoje, o mastro subsiste durante os nove dias da festa, na sua imponência de vinte metros de altura, desfraldando entre as nuvens a bandeira simbólica; leva a todos os lares de duas léguas em redor a alegria e o fervor da presença do Santo” (REIS Jr. J. S. Nos desvãos do Alto Itapicuru. 2ª ed. Fortaleza (CE), 1981, p. 174.).  
 
Sim, ainda hoje. No último dia 10 de janeiro, uma vez mais a cidade e toda a freguesia de São Sebastião apanhou no mato, carregou a ombros e levantou o mastro da Festa 2010, que ora flui, nos ritos da tradição. A bandeira tremula no ar; o adro está cheio de gente para novenas, leilões e outras quermesserias; cálidos abraços de conterrâneos há muito dispersos; o lugar reforça os laços identitários de sua gente; forja sua perenidade comum.

O mastro de 2010 foi tirado nos arredores do Araim, secular povoação, erguida em chão de velha taba de nativos dizimados e que tiveram suas terras e águas roubadas pelos brancos no tempo da colonização portuguesa. Ainda na alvorada do dia 10, nos jardins de dona Chiquita Martins –lá “na ponta da rua”– teve a sua bandeira apresentada, após benzida pelo pároco, padre Vicente Britto, que o fez em latim: “In Nomine Patris et Filii et Spiritus Sanctis...”. Cortejou as sesmarias padroeiras da Piassava (dos Alencar-Araújo), Lagoa do Tabuleiro (da Franca) e da Sussuapara (dos Labre).

Batizado pelo capitão o caule da laranjinha com uma porção de legítima pinga da terra e após insigniados os antigos capitães, a cidade ainda meio deitada às seis e meia da manhã, imersa em sua típica garoa, ali chamada de “neve”, saiu o cortejo rua acima e rua abaixo.

Honrou-se a La Vandera de casa em casa; Domingos do Sinda fez a louvação, o canto e o “Viva!” da tradição; Pedro Bimba no pife, ritmando a marcha terreira, puxando bombo e tambor, o cortejo animou. Este ano, mulheres pegaram tambor e fizeram o ribombo.

Filho da terra, de suas gentes e signos, tenho a honra de ser agora rei-capitão: salve Dunda e o velho Tôca, Raimundinho e Chico Feijão, antigos capitães do preceito, amigos do Mártir São Sebastião. 

Fonseca Neto escreve às segundas-feiras nesta página.

 

11/01/2010, 08:12

Essa queiroziana paixão..., por Fonseca Neto

Sim, uma paixão poveira, padresca e que transa para lá da Travessa da Trabuqueta lisboense e das oeirais lusas.

Paixão enorme do ecianíssimo doutor Dagoberto Ferreira de Carvalho Júnior pelo autor d’Os Maias. Algo digno de muitas notas. As notas dele, propriamente; e as notas dos que o admiramos por tal espécie de ecite benfazeja e por tantas outras qualidades do estudioso, qual historiador-crítico, que notabiliza esmeradas folhas impressas.
 
Nesse cultivar, Dagoberto lançou seu mais novo livro no dezembro há pouco passado, dia 12 –na Academia Piauiense de Letras; é ocupante da Cadeira 25– cujo título escancara sua paixão cúmplice por dois titãs da literatura de língua portuguesa: “Eça de Queiroz e Machado de Assis – O Realismo de Cada Um”.

José Maria Eça de Queiroz (português) e Joaquim Maria Machado de Assis (brasileiro) aparecem assim irmanados nesse novo livro dagobertiano, porque seus estudos vêm ancorados em texto de auspiciosa palestra que o autor proferiu em terras de Portugal sobre a vivência e intertextualidade deles (2008). José e Joaquim Maria –é de se beber na própria dagoberta inspiração, para que tenhamos presente que não há prosa portuguesamente brasileira se não tem ao centro a vida de nossos Zés e Quincas.

Um quedado e já totalmente absorto nas imersões da Póvoa de Varzim, além de íntimo da família Maia eciana, com quem senta à mesa para babéticos jantares e vinhadas  douriscas, Dagoberto foi para o país afonsino atraído pelos ecianões erados da Vila Nova Quase Milenar de Gaia. Eciano do Recife falando para ecianos sobre o Machadão de Assis, em granlouvações. 

O livro tem o selo da Editorial Tormes, do Recife, e uma apresentação prefacial muito oportuna de A. Campos Matos, em que, incansável em distinguir, depõe sobre a recorrência, em quase tudo textuado, aos mananciais ecianos que pulsam no autor piauiense que ora preside a Sociedade Eça de Queiroz, Pernambuco, Recife. Aliás, parte expressiva dos textos reunidos nesse livro foi primeiramente publicada no Diário de Pernambuco, em notáveis colunas quinzenais, ao longo dos anos de 2008 e 2009. 

Campos Matos anota, com graça, a propósito da matéria dagobertiana migrada da folha-jornal para a folha-livro, que esta tem maior sentido de perenidade, diferente daquela “prosa sempre efêmera dos jornais. Prosa de embrulhar castanhas, chamou alguém àquilo que se publica nos periódicos”.

Ora, no caso de nosso autor oeirense, em que pese matéria dispersa pelo tempo fatiado em quinzenas, vê-se uma eficaz unidade temática em “Eça de Queiroz e Machado de Assis...”. Unidade que vem a exprimir-se na aludida recorrência ao mundo real queiroziano.

A exemplo do paciente ordenhador das pedras, médico que é, Dagoberto tira leite da eciana veia láctea nos diversos movimentos e ecoos literários nas duas margens do Atlântico, notadamente do que conflui para a chamada “Geração 70”, 1870.

Mas o livro ganha importância adicional porque Carvalho Jr. reúne para seu leitorado outros textos, ainda que não ecianamente reiterados, tais os que fez em suas recentes imersões pela terra de sua nascença, isto é, quando passeia, ubíquo –genial ubiqüidade oeiral– por sua cidade real e cidadela do espírito, tão tecidas uma na outra quanto os vasos capilares na intimidade do corpo vivo.

Mas morador do Recife, perto da Goiana de tanta história, seu diálogo quinzenal é o universo literário pernambucano tão marcado de ecidade... Transpondo temporalidades, Dagoberto mantém o Recife e o mundo brasileiro de Eça de Queiroz sempre muito atualizado sobre tudo quanto se faz e diz sobre esse dom Fradique poveiro.

Lançado no Piauí é livro para seus conterrâneos natos pegarem no pulso do que o garoto de dona Alina, amigo de Possi, Expedito e Ferrer, anda aprontando lá nas capelas-cruzeiras velhas de frei Francisco, o bispo de Lima, que não o foi, mas mui oeirense é.

Fonseca Neto escreve às segundas-feiras nesta página.

 

04/01/2010, 08:37

De Jerumenha a Caxias, por Fonseca Neto

Jerumenha é das mais velhas entre as povoações do Piauí branco. Fundada pelos Dias d’Ávila da Casa da Torre no tempo da transição dos séculos XVII para o XVIII, é o arraial de onde o sertanismo invasor adentrou o hoje Maranhão do sul, dilatada região desde essa época historicamente chamada de “Pastos Bons”.

Ainda no Setecentos, por estrada real, Jerumenha é ligada ao arraial de São José das Aldeias Altas. Via aberta no governo de José e Pombal, servindo à circulação, entre ambos, de pessoas, mercadorias, boiadas e, claro, ideias. De Caxias, Itapecuru abaixo, os intercâmbios com São Luís e o mundão.

Pois muito que bem: nessa territorialidade, banhada pelo rio Parnaiba em sua mais longa curvatura, além de marcada pela presença cristã, dois séculos depois, seria muito conhecida a figura do padre José Mendes Filho, nascido em Jerumenha, em 1941, e hoje vigário geral da Diocese de Caxias.

Os 40 anos de ordenação sacerdotal dele, há dez feito Monsenhor, motivam estas relembranças. Celebrados na igreja de NS da Conceição e S. José, de Caxias, no último dia 27, ali foram recordados alguns fatos marcantes inscritos pelos caminhos, às vezes doridos, que percorreu e o trouxeram ao umbral do tempo presente.

É a história de um vencedor nas sendas da fé cristã. Com meses de vida, quase morre submerso em naufrágio de barco no rio Parnaíba; mais de uma vez foi desmatriculado do Seminário por fragilidade em sua saúde corporal, que, aliás, trazia da primeira infância. Sua mãe de sangue, Antonina, o resgatou das barbas bravas do Velho Monge; sua mãe Nhá Eva, o curou com rezas e outras sabedorias, benditas sabenças sertãs.

De obstinado espírito, precisado de escola básica (primeiro), depois o almejado Seminário, José percorreu as cidades de Floriano (1946), Esperantina (53), Teresina (54), Parnaíba, Floriano (de volta, 58), São Luís (59), Fortaleza (63), Belo Horizonte (67), Caxias (70, até hoje). Concluída sua formação presbiteral em Minas, veio para ser ordenado por d. Luís Marelim, na matriz antonina da cidade de Barão de Grajaú, em 27 de dezembro de 1969.

Barão por quê? Por ser a paróquia do padre José Almeida, seu benfeitor, que o inseriu no clero caxiense, garantindo junto a Marelim seu reingresso na vida escolar do sacerdócio (Seminário de Santo Antonio, São Luís), que determinaria seu futuro de pastor.

Feito padre, jamais d. Luís o deixaria sair de perto de si, vincando-lhe a funções clericais na sede diocesana: a principal delas, que muito o anima, de pároco da Matriz da Conceição e S. José. Servindo com Jorge Tobias, depois com outro bispo Luís, frei d’Andrea, todos, em especial seus paroquianos, reconhecem-lhe o padre operoso, irmão comum de todos.

Quem sabe por sua história tão marcada pela santidade de mulheres-mães, o hoje monsenhor Mendes é um padre muito afeito à invocação das santas: devoto fiel na mística de Santa Teresinha do Menino Jesus, além de mariano dedicado. Teresinha talvez tenha a ver com Floriano (estudou no “Santa Teresinha”) e Barão a festejava com fervor. Conceição está em sua vida sob os auspícios de Antonina, mãe; é padroeira da secular Passagem da Manga, junto a Jerumenha e Pastos Bons; é sua primeira e única paróquia caxiense, sede histórica.

Falar em história é de se lembrar que Mendes Filho é um dedicado estudioso nesse campo, tendo livro publicado sobre a Diocese de Caxias.
Cabe também mencionar estas curiosidades que ilustram a simbólica da presença católica entre Jerumenha e o Maranhão: de viagem para instalar a diocese de Mariana, a primeira de MG, passando por Aldeias Altas, o bispo de S. Luís, d. frei Manoel da Cruz, habitou Jerumenha por seis meses (1747).

Jerumenha deu ao Seminário de Santo Antonio –segunda metade do XIX– um dos mais notáveis de seus padres-mestres: Raimundo Alves da Fonseca.

Fonseca Neto escreve às segundas-feiras nesta página.

 

29/12/2009, 09:59

Pastos Bons de Celso, por Fonseca Neto

                
Celso Barros Coelho: convém começar lembrando que Pastos Bons é sinônimo de Coelho, família Coelho, quer falemos do sertão adentrado da Torre, ou da cidade setecenta erguida ante a suspiração afugentada do Amanajó.

Também os Barros estão muito cedo naquelas lonjuras tocantinas aventurando sesmaria; sejam sesmeiros, rendeiros, roceiros, posseiros em geral, são os Barros das barrancas balseiras e balsenses nascidas e nutridas pelos olhos d’água de serras que pingam.

Desse paraíso terreal –evocando a crônica buarqueana– surgiu a figura notável de Celso, nascido a meio caminho entre a velha cidade sobre o Pinga e os borbotões dos Fortes vertendo em bicas de sob a serra.
Ele é figura pública de especial envergadura e de todos conhecida. É um dos mais consistentes entre os homens de letras de nossa convivência social, destacado por sua formação jurídica, sobretudo humanística: disto se tem muito publicado e falado a seu respeito. Daí que, no presente espaço, realcemos mais o seu livro saído recentemente, “Tempo e Memória – Pastos Bons”.

O “tempo” é a vida do menino nascido no coração dos sertões pastoris do centro sul do Maranhão. A “memória” é a construção edificada, tendo como alicerce a pele da alma do homem feito, baldada em vasta e erudita cultura agregada pela vida em seu curso.

Celso nasceu e cresceu em Pastos Bons, em 1922. Ainda cedo ausentar-se-ia de sua gleba dadivosa e ganharia o mundo dando a este a oportunidade de ganhá-lo para melhor elaborar os caminhos da vida social. De Pastos Bons, aos 10 anos, foi para Picos do Maranhão, onde estudou na escola João Pessoa; depois seguiu para Uruçuí, no meio da parentela radicada do outro lado do rio, na hoje Benedito Leite. Daqui desceu pelo Parnaíba e veio para Teresina, enleiando-se no Seminário diocesano do tempo de d. Severino. E todos sabem que não virou padre, mas tornou-se um sacerdote do Direito, já em 1953.

“Tempo e Memória” contém textos escritos por ele nos quais revivesce lances da infância nos Fortes em companhia dos amigos Custódio e Brígido, “o buritizal, as inhumas cantando nas tardes melancólicas ou na festa matinal”. Lances da vida do menino nos banhos no Olho d’Água de São Bento, para onde “nos deslocávamos e a primeira coisa a nos atrair era a fonte borbulhante”. Contemplando a secular matriz e “sua fachada antiga, com a entrada principal voltada para o poente, de frente para o cemitério [...] suas paredes laterais escoradas por colunas de pedra [...] que o povo chamava de ‘gigantes’, tal a sua espessura e a sua resistência”.

Mestre Celso tem inexcedível amor por sua pátria pastoreiante. Nas asas do mundo, imerso no Piauí, passou alguns anos pouco andando ali. Nos últimos anos, não resistiu, e sempre está por lá, revisitando o que chama, lembrando Hindemburgo, de “cidade substituída”: os Fortes, o Olho d’Água de São Bento, a Matriz, o Pinga, O Balseiros, já não são os mesmos lugares em sua “cidade da memória”. Estão, porém, no mesmo lugar físico, ainda que os Fortes agora afugentem as inhumas, o Olho d’Água esteja menos borbulhante, a estupidez de certa ‘modernização’ tenho derrubado os gigantes da Matriz e esta teve viradas suas costas ao poente e aos avoengos enterrados.

O livro é também a crônica da criação e atuação da Academia de Letras, História e Ecologia de Pastos Bons, idealizada e erguida por ele como lugar produtor da dialética da confluência e disseminação de saberes universais quanto locais ali plasmados.

Letras, a velha PB é terra de escritores a mancheias; História, PB é o núcleo nativo Amanajó e de anciã colonização lusa, república sonhada; Ecologia, PB é atacado pelo capital parasita a deixar rastros de misérias, secando suas fontes de vida.

O volume vem apresentado pelo professor conterrâneo João Renôr F. de Carvalho, com ilustrativas anotações. O publicou a Ética Editora, de Imperatriz, liderada por Adalberto Franklin, mais novo membro da ALHEPB. 

Fonseca Neto escreve às segundas-feiras nesta página. É membro da ALHEPB.