30/08/2010, 09:10

Vermelha, o planalto e a serra

Sabiam que o Conselho Estadual de Cultura saiu do centro velho de Teresina e subiu o planalto da Vermelha e ali está fazendo e acontecendo?

O bairro Vermelha e arredores ganharam, assim, um portento cultural. Explique-se: o Conselho chegou e transformou sua sede e lugar de suas funções num valioso instrumental de ação cultural da comunidade, assim se dando a conhecer como Centro Cultural da Vermelha, s. à rua 13 de Maio, 1513.

Instalado ali em dezembro de 2009, agora está pronto o dito Centro: além dos espaços de exercício das funções do Conselho, dispõe de bom Auditório, Biblioteca com milhares de títulos e Núcleo de Informática, todos abertos aos moradores do bairro e da própria capital. Há espaços para exposições.

A inauguração se deu com a realização da Semana Cultural da Vermelha, evento com várias atividades, entre palestras, mesas de debate, oficinas de arte e leitura, apresentações várias e até uma luarada, aos auspícios da brilhante e agostina lua cheia da quarta-feira, dia 25. Tributo a Dezinho, Liz Medeiros e Nonato Oliveira (presente à abertura).

O presidente do Conselho é o acadêmico Manoel Paulo Nunes. É dele a liderança que fez confluírem os esforços de muitos na consecução dessas iniciativas chegadas em tão boa hora. Da lua já se disse mamorar as danações de noites trevosas, pois Paulo Nunes é um raio luminoso a atiçar a clarividência quando periga sob os sóis do nosso tempo. A ele coube a honra de receber, agitar novas ideias e instigar, sobretudo aos novos, que sustentem o conjunto de iniciativas dadas. Com ele nesses cometimentos de apoios mútuos, duas dandaras idealistas: professora Maria Xavier, secretária estadual de Educação e Cultura e Sônia Terra, presidente da Fundac.

Um dos objetivos mais intensamente pretendidos é a acorrência dos moradores do bairro ao Centro Cultural. Nesse sentido, teve eco maior a fala que fez a conselheira Francisca Maria Mendes, filha da Vermelha e pessoa antenada à vida e memória do bairro, especialmente naquilo que diz respeito à igreja Matriz de Lourdes.

Ouviu-se dela que a igreja foi erguida há quase cinquenta anos, próxima do lugar de uma capelinha antiga então demolida. Lembrou, em justa evocação, o padre Francisco Carvalho, idealizador da nova igreja, como “oficina de almas”, e também deu testemunho sobre José Alves de Oliveira, mais conhecido como “mestre Dezinho”, artesão-artista que fez a maioria das esculturas dadas à veneração no dito templo. Acentuou o episódio da derrubada de um centenário e famoso pequizeiro existente no antigo largo de Lourdes, sacrificado, sob protestos, no final dos anos 60, para alargar-se a hoje avenida Barão de Gurgueia.

Esse “pequizeiro era referência, pois além de local de encontros era ponto final de ônibus urbanos e parada dos ônibus que faziam linha para os municípios do interior do Estado [e ao redor dele] instalaram-se bancas para vender alimentos e bebidas. Mingau maranhense, pirulito, milho assado e cozido, gelado (raspadinha), fígado de porco assado, frito de tripa de porco, língua de boi, piaba frita e o famoso frito de cabeça de porco da D. Aurora”.

Acrescenta Francisca Maria que o pequizeiro foi derrubado, “mas na sua despedida presenteou os moradores, principalmente as crianças, com grande quantidade de mel, guardado no seu tronco”. E pequizeiro tem muito nó e gondó.

Imagine o leitor a dramacidade da cena: aquele tronco envelhecido, e ainda mais rijo, tombando golpeado a machadadas e tromba de trator, e de cada ferida aberta o mel da divina Apia untando docemente as lâminas que o feriam. Em nome do progresso.

Lembrar a tragédia desse irmão pequizeiro do planalto da Vermelha é assaz oportuno. Quem sabe chame a atenção para outros agora criminosamente derrubados para o fogo carvoeiro lá naquele paraíso também rubro, filho de outro Gurgueia, na serra Vermelha.

Mestre Paulo Nunes, a bairraria e a natureza gurgueias têm graça, tragédia e histórias que a própria História se recusa a conhecer –e conceda o perdão por essa parafraseação forçada.

Fonseca Neto é professor da Ufpi, escreve às segundas-feiras.
         

 

23/08/2010, 10:50

Política e eleições

Estamos em plena campanha eleitoral no Brasil. O ativismo político-partidário está em pleno vapor. Para muitas pessoas, as eleições são a própria política. Para elas, outras coisas que acontecem no cotidiano da vida coletiva não estariam no domínio do que entendem ser a política. Compreensão falha que leva à consideração de que o fato eleitoral é um tudo ou nada.

As eleições não são a própria política. A vida social real, dentro de cuja concretude e dinâmica estruturam-se tais disputas no plano de sua realização histórica, é muito mais complexa. A política é algo pleno de beleza e tinha tudo para que eleições fossem a explicitação espetacular de sua virtude. É ler Maquiavel sem maquiavelismo. 

Eleições assim não tendem a alterar estruturas fundadas em longa duração. Tal alteração é tarefas do ascenso do tempo das ruas em revolução.

O tempo de eleições é para muitos a festa: comícios, caminhadas e panfletagens, profusão de cartazes e outras imagens, marchinhas e outras toadas, internetuitagens: a evocação do ato cívico tornando-se convocação para novas jornadas. 

Mas a manifestação cívica eleitoral no tempo presente é cada vez mais uma metáfora de festa profanada: mais que antes, as vésperas das eleições se parecem com enrolação, mentira, corrupção, negociata etc. Percepção, diga-se, que enfraquece o processo eleitoral enquanto investimento em sonhos de construir-se o diferente em bases do que se vem chamando de democracia. Agora a internetação revelando a diabólica do anonimato covarde e outras traquinagens.

Tem uma lógica de perversão essa espécie de desmoralização das eleições: todos os candidatos, também na percepção de muitos, seriam “farinha do mesmo saco” da politicagem. Todos –e no rol se lhe mete o conjunto dos que se dispõem à disputa de mandatos. E há candidaturas dignas; há gente que não enrola, nem mente, nem dá chances à corrupção.

E por que a sensação de que todos seriam iguais? Essa sensação serviria a quem? Em primeiro lugar, convém lembrar que tal sensação nasce ante a evidência da incapacidade de se alcançar certos objetivos na vida social através de eleições: algumas aspirações são inalcançáveis através delas, a maioria dos candidatos não tem a honestidade de assumir essa limitação e as pessoas votam pensando que ele vai resolver tudo. Segundo, a sensação do “ninguém presta” é boa (e até exime) para os que de fato são useiros das condutas que ferem a ética da concorrência e da própria vida pública. Voto vendido e comprado justificam-se, mutuamente.

E fora das eleições tem salvação, tem democracia e civilidade? É preciso ir por partes. Nem toda eleição é como se faz eleições no Brasil e na tradição dita liberal aqui seguida, baldadas nas tradições locais marcadas de mazelas como que perenes, tal o clientelismo, nepotismo, fraudes na boca e dentro da urna. Também é oportuno lembrar que a sensação de molecagem é bem mais acentuada em relação às eleições para a função parlamentar que em relação às de presidente, governador e prefeito.

O que significa essa diferença? O povo-eleitor tenderia a dispensar a “democracia representativa” encarnada pela deputação comum e senatorial?

Assim uma festa profanada, o processo eleitoral em curso parece apontar uma piora nos padrões medianos de conduta de deputados e senadores.

Aqui desta coluna de letras, proponho ao caro (e)leitor uma pitada de tempo mais para pensar um pouco: por que parece mais livremente entusiasmado o eleitor quando se trata de escolher o presidente, o governador e o prefeito?    

 

16/08/2010, 13:01

A mítica das cidades-beira

A decisão, em 1850, de fundar-se uma cidade para sediar o governo piauiense na beira do rio Parnaíba, tem considerável impacto cultural e muitos desdobramentos de sentido econômico e político.

A idéia origina-se na primeira metade do século XVIII –aliás, criar cidades pelas beiradas das aguadas é arte que se pratica desde as primeiras comunidades humanas até os dias de hoje.

A transferência da sede provincial do Piauí das margens do riacho da Mocha (junto ao rio Canindé) para a beira do rio Parnaíba, altera o imaginário social do tempo, traduzido em decisões políticas dos governos do Piauí e do Maranhão, entre elas as relativas à transferência/criação, além da vila Nova do Poti, de outras sedes municipais interioranas para a beira do rio: São Gonçalo do Amarante (transferência) e Manga, hoje Floriano (criação) no Piauí; São José do Parnaíba e Passagem Franca (transferência) e São Francisco, no Maranhão (criação).

A história desse processo está bem estudada em tese de doutoramento de Gercinair Gandara, que associa o descimento dessas cidades das terras de dentro para a beira-rio ao desenvolvimento da navegação a vapor pelo Parnaíba.

“Trata-se”, resume, “do processo de incorporação econômica da região, e consequentemente, do rio Parnaíba ao país. [...]. Nossa análise ressalta a transformação do rio em estrada líquida fluída e no principal eixo econômico que integrou comercialmente as cidades-beira-rio Parnaíba entre si e, estas com o resto do país e do mundo. Em conseqüência da navegação a vapor edificou-se ao longo do rio Parnaíba uma das mais grandiosas paisagens humanizadas. Nesse sentido, a navegação a vapor foi quem mudou e/ou configurou a fisionomia do vale do Parnaíba. Sua implantação intimamente ligada ao extrativismo, provocou mudanças nas estruturas sociais existentes e abriu um novo espaço para as relações humanas e comerciais da região. O Piauí, por sua vez, se inseriu no mercado globalizado das importações/exportações. A exploração das atividades extrativistas e sua comercialização, aliadas a navegação a vapor [fizeram do Parnaíba o] rio de integração comercial com forte vocação internacional”.

Com efeito, transferida a capital, há um frenesi de impactos: o próprio presidente do Piauí, José Saraiva, patrocina lei (1851) mudando a sede de S. Gonçalo do Amarante para a beira, o que se concretizaria por outra lei publicada em 10 de agosto de 1860 (exatos 150 anos completados semana que passou); cria-se a vila da Manga (1864). Do lado do Maranhão (1855) são transferidas para a beira do Parnaíba as sedes dos municípios ribeirinhos de S. José dos Matões (para S. José do Parnaíba, hoje Timon) e de Passagem Franca para a Passagem da Manga; em 1870 é criado o município de S. Francisco, defronte a Amarante.

Essas mudanças fazem rebuliço: nenhuma sede velha de município se conforma; vão à luta e revertem politicamente essas decisões. Ressalte-se, contudo, que, à exceção da Passagem da Manga (ambos os lados), as novas vilas ribeirinhas se tornam sustentáveis. José Manuel de Freitas, presidente do Maranhão, edita lei (1882) autorizando a contratação de estrada de ferro ligando a zona de Caxias a S. Francisco.
Matões, S. Gonçalo do Amarante e Passagem Franca tiveram recuperada sua condição de sedes municipais, ainda que com perdas territoriais ribeirinhas e econômicas significativas.

Inegável que o impacto de Teresina, e sobretudo o incremento da navegação do Parnaíba, alteram o viver por essas ribeiras, fundindo nas oiças de sua gente o aboio da malhada adentro com os sons e as cores do mundão subindo o rio sem quase sem fim até as Balsas de Félix e Filomena.   

 

09/08/2010, 09:15

Justiça Eleitoral

A Justiça Eleitoral é filha da ruptura política havida no Brasil em 1930. Filha legítima da recusa ao eleiçoalismo de baixo calão praticado no Brasil desde sua primeira eleição em 1532 –aliás, o primeiro Código Eleitoral é de 1932, exatos quatro séculos depois.

Outro detalhe historicamente significativo: o Código Eleitoral não foi feito pelo Congresso Nacional. Com ele aberto, a exemplo da CLT, é possível talvez jamais fosse adotado o Código. Por quê?

O novo aparato judiciário-eleitoral tirou das mãos das chefias políticas a organização dos pleitos e a entregou à magistratura togada, além de ter em seu bojo ampliado o sentido e a prática do voto –foi ele que assegurou, p. ex., o sufrágio secreto e o voto às mulheres.

Para muitos, a criação da Justiça Eleitoral significava um adendo institucional indispensável a que se chamasse de República o regime de 89. Uma conquista popular traduzida pela aliança reformista vitoriosa em 30, desencadeadora da sensação de que se estivesse forjando um novo país.

Trata-se de um passo rumo à “moralização” dos pleitos, cujas mazelas eram, ainda em meados do Oitocentos, denunciadas por João Francisco Lisboa. 1932 é esse marco político importante, muito do que ali avançou, ficou. Contudo, as velhas práticas não cessariam, de todo, com o advento da nova lei e Justiça. A vida social não muda somente por causa de uma lei ou criação de um órgão de controle, sendo preferível pensar o contrário. A moralização dos pleitos continua até hoje um desafio no Brasil.

E por que eleições limpas continuam a ser uma aspiração? É não esquecer que os obstáculos aos maiores avanços estão no interior da máquina de fazer e aplicar as leis –porque deputados e senadores legislam em causa própria. É pueril acreditar no contrário. Assim como é ingenuidade pensar que também os tribunais sairiam por aí aplicando leis somente por temperança. A inclinação autoconservadora do poder estruturado e domesticado somente se rompe à força das torrentes da rua.  

Bons sinais cintilam na pátria amada (e tão vilipendiada por tantos). Sinais vindos do coração do Judiciário. E não é considerado o coração mais cheio de bolor do corpo político da nação? Parece está sendo lustrado sob a luz do sol. Afinal, a rua de gente em avalanche, fonte originária dos mandatos legislativos e das prerrogativas dos juízes, assim também titular dos seus acertos e erros, aos trancos vai entendendo como tudo funciona e a força mobilizadora do seu papel na história.

A chamada “lei da ficha limpa” é de tudo um atual exemplo: guardadas as dimensões históricas de um e da outra, tal o Código de 32, essa lei é uma conquista popular obtida contra o Congresso Nacional. Valerá se continuar a pressão direta e a indignação manifesta de muitos. Do contrário, prevalecerá a tradição do conchavão dos “de cima”, dos que vivem em Corte.

Alguns procuradores, juízes e tribunais eleitorais vão fazendo sua parte. Mas é enorme o desafio pela frente: não tem ajuntamento de mais de duas pessoas em que o assunto não seja o diz-me-disse da dinheirama empregada nestes dias na compra de votos e na venda de mandatos –vendidos e comprados “na folha”.
Há uma estrutura leviatanesca que trava o destino coletivo e vem das cevas seculares, do que os quase cinco séculos de eleições no Brasil são uma espécie de brilho enganoso e fugaz. Acendem esperanças e medram a não-mudança. 

Mas, diogenamente, evas a achar, há idealistas com lamparinas acesas o dia a pino: uns deputando, outros judicando, outros mais pelas ruas buscando mandato e deles procurando a ética em candidaturas difusas.

 

02/08/2010, 09:52

Albatroz! Albatroz!

Por: Divulgação Divulgação

Albatroz! Albatroz!

“Albatroz!  Albatroz! águia do oceano, / Tu que dormes das nuvens entre as gazas, / Sacode as penas, Leviatã do espaço, / Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas.

[...]. Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! / Desce mais... inda mais... não pode olhar humano / Como o teu mergulhar no brigue voador! / Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras! / É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ... / Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!”

Isso é um recorte do “Navio Negreiro”, de Castro Alves, libelo poético denunciador do horror do seqüestro e tráfico de africanos para a América -nua e crua atrocidade dos tumbeiros. Sequestro e tráfico que são o esteio da sociedade de mercado que a branca Europa engendra desde o Seiscentos nesta margem do Atlântico.
No domingo, dia 25 de julho, o “Fantástico” apresentou um típico show da morte. Sobretudo focou o sumiço da pobre Eliza, e a atrocidade dos albatrozes morrendo entupidos no lixo dos oceanos.

As enciclopédias dizem ser ele uma gigantesca e bela ave que habita as bordas dos oceanos mais frios e que voa longe em busca de alimentos encontráveis nos taludes dos mares, em praias onde as marés depositam os rejeitos trazidos em suas vagas. Não é ave pescadora típica.

A reportagem mostrou que os albatrozes são, por enquanto, as principais vítimas do lixo devolvido ao continente pelos oceanos. Lixo da civilização do plástico e quinquilharias do consumismo desenfreado despejados pelas cidades nas águas salgadas.

Esse o lixo com o qual “a civilização” está emporcalhando os oceanos, alterando e destruindo a vida marinha. Está acabando o manancial de alimentos dos albatrozes e eles, no limite do desespero faminto, engolem, nesse lixão, de isqueiros descartáveis a carcaças de celulares. Morrem com seus papos estraçalhados com material plástico, borrachudo, metálico, veneno.

Apressa-se a extinção dessa ave, deusa do oceano. Suas viagens em asas longas em busca de comida deixam atrás os filhotes nos ninhos a esperar papai e mamãe-albatroz –são 40 semanas alimentados pelos pais antes do primeiro vôo.

E o que trazem (quando trazem) em seus papos e regurgitam aos bicos felizes dos filhotes? Lixo gerado pelo viver egoísta, hedonista, de outro tipo de criatura vivente sob os céus: “que [outra] cena infame e vil...”.   
Castro invocou essa “águia do oceano” em sua metáfora poética para, em suas asas, fossem alçados do cenário “infame e vil” dos tumbeiros os “desgraçados” do tráfico negreiro.   

“Quem são estes desgraçados” / “São os filhos do deserto, / Onde a terra esposa a luz. / Onde vive em campo aberto / A tribo dos homens nus... / São os guerreiros ousados / Que com os tigres mosqueados / Combatem na solidão. / Ontem simples, fortes, bravos. / Hoje míseros escravos, / Sem luz, sem ar, sem razão. . .”. 

“Ontem a Serra Leoa, / A guerra, a caça ao leão, / O sono dormido à toa / Sob as tendas d'amplidão! / Hoje... o porão negro, fundo, / Infecto, apertado, imundo, / Tendo a peste por jaguar... / E o sono sempre cortado / Pelo arranco de um finado, / E o baque de um corpo ao mar...”.

Esses “guerreiros ousados” arrancados do chão de África para a vil escravidão; essas “águias do oceano” descidas “do espaço imenso” para a morte na praia: diga-se que são mais que símbolos do regime social dominante a ser superado, cujo deus é a acumulação de riquezas decorrente do vender e consumir.

Agora vivo, o poeta fosse denunciaria a ruína imposta ao “Leviatã do espaço” pela mesma gente estúpida que inventou a “civilização” e escravidão mercantis que fazem dos oceanos a latrina de suas misérias.

(Entre indignado e triste vi a matéria na tevê, uma pesquisadora colecionando objetos tirados das carcaças de albatrozes mortos. Lembrei o tempo todo do professor Aníbal, o “animador” de nossa Sociedade Protetora dos Animais. Ele é um genuíno lutador do viver ético de todos os animais sob os céus.
Dedico-lhe este registro). 

 

27/07/2010, 08:37

Teresina, favelas

Nada é mais recorrente no memorial das origens de Teresina que sua criação idealizada e planejada. 

De fato, Teresina é uma cidade concebida em meados do Oitocentos (1850), seguindo um paradigma que variada crônica chama de “moderna”. No caso do Piauí, a cidade rompida com o modo rural de viver na periferia do capitalismo.

Lembra-nos Olavo Pereira da Silva F°., apurado estudioso de nossa formação urbana, em “Carnaúba, Pedra e Barro na Capitania de São José do Piauhy”, que o urbanismo larvar piauiense reponta no Setecentos tal “centro irradiador formado pelo complexo praça-igreja, o mais importante sinal de urbanização tingido pelo caráter triunfal da Contra-Reforma [...], assentando-se numa função de representação dramática, [apoiado] o domínio social do espaço no intercâmbio do mercado bovino ...”, ação que não se ajustava “aos interiores das igrejas e seus adros abertos [...]. Só mais tarde, em Teresina vão aparecer praças independentes de edifícios públicos e religiosos”. 

Ora, o traço modernizante da nova capital era exatamente esse de cidade ordenada para intercâmbios comerciais. Assim, a cidade colonial renascentista de José I, de que fala Pereira F°, reponta algo monumental: a Matriz do Amparo será o marco zero da Vila Nova do Poti, mas, ainda mais simbólica que na prática, está no centro recuado de grande retângulo ou “picadeiro agreste” (o Largo), hoje praça Deodoro, tal as “praças que brotaram presunçosas como extensões das igrejas [...] em afinidade topográfica com os veios d’água e não correlacionadas aos tépidos ventos cardeais”. Na grande praça de Teresina, está articulada a sua função de centro de comércio, além dos órgãos da burocracia. Teresina configurava então a cidade racional, retilineamente traçada e plantada em proveito desse destino.

Essas citações vêm a propósito de uma pergunta pertinente: e a cidade para o povo em seu cotidiano, os trabalhadores, os despalaciados? Parece a população não está nos cálculos de seus administradores.

Leitura atenta de antiqüíssimas folhas impressas, já uma década ou pouco depois de sua criação, indica que a nova cidade tinha parte de sua população morando em condições indignas, segregada por quarteirões periféricos, nas pontas e pontos das ruas retas, onde estas, já tortas e desengonçadas, entravam na “chapada” acapoeirada. Dir-se-á que, além da metáfora, o sinal da cidade irracional, chão de uma gente desterritorializada dos currais e roçados e não absorvida na dinâmica urbano-comercial lá das praças do Amparo e do Saraiva etc. 

O século XX alcança Teresina enquanto uma cidade imersa em grande pobreza de meios de vida, assim cheia de sinais de um viver coletivo precarizado em se tratando dos trabalhadores braçais de sua usança. As manchas favelizadas dos homens e mulheres negros desentranhando-se lentamente do cativeiro são visíveis no entorno da cidade, cujo centro abrancalhado vai se equipando com meios e tecnologias facilitadoras da urbanidade. 

Perto dos pindobais de vária espécie (babaçu, carnaúba e buriti), Teresina sempre teve um entorno cinzento franjeando suas beiradas, antes de misturar-se ao verde das matas e campinas circundantes: as casas de palha dos pobres da cidade, frágeis, sujeitas sempre às misérias projetadas de seu centro. Periferia cinzenta, vítima e rejeito da elite incendida daquele fervor “modernizante” da miragem original. 

Avançado o século XX, chegados os anos 30, uma vertigem de ilusão de progresso grassando em vagas, as contradições entre o centro “feérico” e sua periferia cinzenta explodem em fogo aniquilando o teto-céu dos desvalidos –era a cidade branca do mais vil preconceito queimando e fazendo cinza a cidade parda; esta a cor mitigada da senzala de ontem e das lamas doentias de qualquer tempo. 

O cinturão de casas de palha daquele tempo parece que ainda não tinha o nome de favela –isto era coisa da capital, o Rio. Mas com qualquer nome o viver “favelado” caracteriza esta cidade até hoje. 

(Voltaremos à questão, comentando um bom livro saído nestes dias sobre o assunto).

 

19/07/2010, 08:59

Veja que coisa asquerosa

Quando era menino lá na Passagem, uma onda de boatos atrás da outra aterrorizava a gurizada, e até seus pais, dizendo que ia passar em nossa cidade “uns russos chupando o sangue das crianças”. Eram espécie de gente vermelha metida a monstro. Teco-teco vermelho cortando o horizonte e nem mais um menino nas ruas e quintais: corríamos ligeiro para dentro de casa.

Ironia: também apareciam por lá uns loirões de olhos verdes e colete com grandes estandartes vermelhos correndo pelas ruas e chegávamos a achar que poderiam ser os tais russos chegando. Era a TFP ...

Agora é 2010, 40 ou 50 anos decorridos desde esse tempo rememorado, e eis que a Veja sai com matéria de capa divulgando idêntico tipo de lixo ideológico, nesta véspera de eleição, mantendo reacendido na classe média nativa, incrivelmente tendente a recaídas reacionárias, o furor do mais torpe preconceito contra o PT e afins.

Veja (10/07/10, p.65): “Afinal, Dilma, se eleita, conseguirá repetir o feito de Lula e impedir que os radicais do PT transformem o Brasil em uma república socialista, de economia planejada e centralizada, e sem garantias de liberdade de expressão? Lula teve de cortar a cabeça dessa hidra em diversas oportunidades. [...]. O episódio da semana passada mostra que Dilma está sendo desafiada pelo monstro do atraso com suas múltiplas cabeças ágrafas, ignorantes, passadistas e liberticidas”.

Essa “hidra” aparece vermelha na capa da revista com múltiplas cabeças vomitando asneiras panfletosas do tipo que o PT vai acabar com a “liberdade de expressão” no Brasil. Trata-se de voz e imagem arrancados dos escombros da mais cruel direita nativa, estúpida, anticomunista, vendida aos estratos reacionários mais obscurantistas de dentro e de fora do Brasil.  

Será que você vai acreditar que o PT é esse “monstro ágrafo e liberticida”? Acreditar que Lula e o PT estão acabando com a “liberdade de expressão”? Nem eles, o dono e escribas, que fazem esse panfletário ridículo.
Talvez Getulio e Jango entre os presidentes, além de Brizola e Prestes, ninguém, quanto Lula, foi e é, de má fé, mais covardemente atacado pela “imprensa livre”, que, aliás, jamais respeitou os mandatos que alcançou, conseguidos dentro das regras. No caso de Lula, por sua origem de nascido entre os pobres, contra si a “imprensa livre” tem tentado despertar, e movido, os mais torpes preconceitos que jamais se viu. E contra Dilma, idem, um prato farto em que está se refestelando a direita reacionária que, claro, é machista visceral. Por estes dias –já a mil está– troa forte contra ela tal vozerio, este sim, insidioso, parcial, inimigo da liberdade de expressão. 

Haveria coisa mais parcial que essas acusações da revista paulista? É essa a “liberdade de expressão”? Expressiva maioria das notícias veiculadas nesta parte do mundo e no Brasil é gerada e circulada por não mais que seis a oito grandes empresas do mercado de mídia, de forma monopolizada, isto sim, o atestado de que não vivemos num ambiente de livre circulação de opiniões.

Essa mídia-empresa é necessariamente parcial. Ela tem um lado, o lado e a ideologia de seu dono. E isto é errado no mundo da livre iniciativa? Não, é próprio de sua dinâmica. De má fé é a sua militância fundada numa única concepção de organização da vida social, pretendendo ser “a verdade”.

Essa matéria contra o PT –e o viés acusador de todos os jornalões– chama atenção para algo que merece reflexão: por que esse partido é mais atacado por tais setores radicais reacionários pelo que é e faz de positivo do que por seus defeitos, que são muitos? 

O Brasil teria um sinal de avanço se sua meia dúzia de empresas de imprensa fizesse editorial assumindo o apoio a Serra. Isto sim daria uma chance ao debate de idéias e forjaria outra liberdade de criar e fazer circular notícias. E por que não assumem? Por que não querem a democracia real, o povo se governando: sua democracia tem dono.

“Artigo ideológico” este, dirão. É, sem hipocrisia. E deixe de ingenuidade de supor que há algum que não seja.  

 

12/07/2010, 09:00

Leonardo, Lívio, Lourenço

E Deus? Claro, junte-se com a máxima justiça João Cândido de Deus e Silva a esses “três panfletários” clarividentes da sementeira revolucionária piauiense da primeira metade do século XIX. 

“Restauração” e “Revolução”: Maria Odila Leite da Silva Dias e Emília Viotti da Costa, em inovadoras e consistentes análises acerca da emancipação política da América portuguesa em relação à metrópole lisboeta, elegem essas perspectivas e projetos como motores em contraponto no movimento independentista (1789-1850).

Lembramos notáveis historiadoras para situar, em âmbito largo, na geografia das lutas no Piauí entre 1817 e 1840, o campo em que embatiam os citados líderes e as legiões de seguidores que mobilizaram e o campo dos seus contraditores. 

No recorte local e regional, tal movimento, ao contrário do centro-sul, de acento restaurador, processou-se em termos de acendrada propulsão revolucionária, espocando nas explosões de 1817 (PE), 1824 (Equador Confederado), 1835 (PA), 1839 (MA e PI) e 1849 (PE). 

No Piauí, naquela conjuntura tão rica de acontecimentos, o que se chama de “revolucionários” são os liberais republicanos, mais próximos da posição que na França se passou a chamar de jacobina, em luta contra a posição arraigadamente conservadora dos donos do poder na Província; no limite, restauradora.

Leonardo Carvalho Castelo Branco (acrescentou depois “da Senhora” ao prenome), Lívio Lopes Castelo Branco, Lourenço de Araújo Barbosa e Deus e Silva, são exemplos dessa militância republicanista insuportavelmente radical nas percepções do poder régio antigo (luso), quanto do poder régio (brasileiro), que então se instaurava.

Esses quatro líderes, homens da elite ilustrada, eram portadores de uma vontade de mudanças mais profundas na estrutura colonial-absolutista herdada, tendo essa posição lhes custado a própria liberdade de ação –foram presos por suas idéias e capacidade de as agitarem no meio da massa popular empobrecida.

Leonardo liderou uma legião de combatentes da liberdade que proclamou a independência nos grandes municípios de Parnaíba e Campo Maior -diga-se com variado nível de insurgência nos demais; Lourenço fora o incendiário número 1 em Campo Maior, marcando já sua ação em 1817: nele a centelha irradiada do Recife fazendo clarão em Campo Maior –doce ironia: ele era um fazedor de pólvora; de Deus, juiz vindo de fora com o Direito de Coimbra e a idéia conducente de outro sentido de Justiça; Lívio converteu-se em líder vermelho na “guerrilha sertaneja” junto a balaios, bentivis e ampla legião quilombola, mas sobretudo contra o despotismo de Né de Sousa no Piauí.   

O papel e sobretudo o sentido da causa pela qual lutaram esses homens ainda hoje é deliberadamente esquecido na historiografia brasileira em geral e na piauiense em particular. A produção desse repugnante silenciamento sobre eles e seus companheiros de sonho se evidencia ainda hoje, o que mostra que o motivo de seu tirocínio e radicalidade ainda é presente. 

Lourenço, Leonardo, de Deus, são, propriamente, o que podemos chamar de “ideólogos do Jenipapo”, mobilizadores da insurgência. 

Feita a adesão do Piauí ao Império de Pedro I, enquanto projeto restaurador, e logo convertido este no golpeador-mor da Constituinte de 1823, esses líderes não viram razão de abdicar de sua luta por liberdade e justiça. Às vezes, em vária contingência, pareceram abjurá-la. Mas o significado dos sonhos deles tornados vontade coletiva, disto a repressão, do tempo, e a ação de historiógrafos, depois, cuidaram de silenciar, além de detratar. 

O contexto desses homens e feitos e fatos nos desafiam até hoje ao crivo e às verberações respeitosos. Entre outras, lembramos as boas pistas dadas por Abdias Neves, Hermínio Conde e Claudete Dias. 

É segui-las e queimar a corda do cão que mantém o Piauí atado ao inferno da não-justiça.   

Fonseca Neto é professor da Ufpi, escreve às segundas-feiras. 

 

05/07/2010, 09:14

Piripiri, discreto charme de nascença

Por: Michel Aguiar/Acessepiauí Michel Aguiar/Acessepiauí

Piripiri, cidade localizada no norte do Piauí

As trombetas tocaram ontem por Piripiri. É a lembrança que os locais têm da lei de Antonino Freire que distinguiu essa comunidade com a categoria de “cidade”, em 4 de julho de 1910.

Outros municípios, em geral, instituem e celebram como data magna aquela que é relativa a um marco fundador original, e nas sociedades emergentes da modernidade,   aquela que caracteriza a chamada “emancipação política”, isto é, a aquisição do atributo do autogoverno. Piripiri faz diferente: celebra sua condição de cidade. É interessante. 

O que é cidade? Rousseau, no Setecentos, no Contrato Social, escreveu que “os modernos quase [esqueceram] o verdadeiro sentido da [palavra cidade]: a maior parte confunde as construções materiais [...] com a própria cidade [...], mas que a verdadeira cidade é formada por cidadãos."

Em “Cidade: espaço da cidadania”, anotam R. Braga e P. de Carvalho, ser “importante compreender a cidade como a casa maior de todos, na qual o homem se enriquece nas relações sociais, principalmente nas livremente escolhidas. A casa é o abrigo, a morada do indivíduo; a cidade é a casa maior, o habitat do homem social, político, civilizado, culturalmente enriquecido ...”. 

Numa destas colunas de letras, já escrevi algo sobre tal singularidade da história de Piripiri no contexto piauiense e brasileiro, com relevo na ação do seu idealizador primeiro, o padre Domingos de Freitas. 

A narrativa-mestra de sua criação, assentada em monografias, refere-se à “inteligente deliberação” (1855) do padre Freitas de repartir terras “em pequenos lotes, oferecendo-os a quem ali quisesse edificar, atraindo essa iniciativa tal afluência de moradores, que em 1857, já era patente o progresso da povoação” (IBGE, 1959). 

Qual a singularidade da criação de Piripiri? O ato consciente do padre de transformar sua fazenda Perypery, uma posse única de terra e de única fruição material, em comunidade com posse múltipla e múltiplas possibilidades de iniciativas e experiências. No padrão do tempo, e ainda mais porque conformado à sua condição sacerdotal, doa à padroeira do lugar a titularidade da terra, conferindo, assim, a condição de chão público ao patrimônio respectivo. E não esqueçamos que é na “terra da santa” (ou “do santo”) que florescem os aglomerados humanos do Piauí antigo. Poder-se-ia dizer que a Perypery do padre tornou-se uma Perypery de concidadãos, pois não há cidade que não seja a tradução da livre associação de pessoas.

A cidade que Freitas estava criando naquele momento tinha, assim, alguma inspiração no Contrato Social? O padre estava intencionado no sentido de recriação de sua fazenda nesse “habitat do homem social, político, civilizado ...” de que falam Braga e Carvalho? É possível afirmar que sim. 

Em meados do Oitocentos, a iniciativa do padre Freitas rompeu paradigmas naquele Brasil latifundiário-escravista, sabendo-se que fora simpatizante do independentismo de 1822. Fato é que a agrovila-remédia que idealizou, para os padrões do tempo, prosperou rapidamente: capelania (1844), distrito de paz (1860) e paróquia (1870). Com tais avanços marcando sua vida institucional, alcança a emancipação política em relação a Piracuruca em 1874, tornando-se município com a posse de seu primeiro governante, o presidente da Câmara Municipal, Antonino Lopes. É o 24º município piauiense em ordem de criação.

Na tradição luso-brasileira (até 1938) a categoria de cidade era algo que somente se concedia a povoações que fossem, no mínimo, sede de diocese, comarca ou capitania. Perypery não tinha então nenhuma dessas funções e outro Antonino, governador, confere-lhe a condição de cidade em 4 de julho de 1910. Por quê? Porque era, já, uma cidade no melhor sentido do termo. E certamente por ser uma vila-município próspera, irradiando vitalidade. Mas acredito que também por outra razão: o charme irresistível das suas filhas e filhos. 

Infelizmente ainda não conheço Piripiri por andar em suas ruas, becos, puxados e quintais, sacristias, mercados etc. Conheço-a de passagem ou palestrando em escolas e no Museu. Mas quanto a percebo uma planura bonita, culta e radiosa.  

(Para Antonio Andrade do Rego, primeiro dali que conheci).

 

Fonseca Neto é professor da Ufpi. 

 

28/06/2010, 10:02

O Piauí é a Fenícia expandida?

Palestrando em Teresina semana passada o padre doutor Emile Eddé, libanês, católico maronita, a convite da Brigada Mandu Ladino, deitou falação sobre assunto em que é craque: a formação do Líbano, com acento na história dos fenícios.

O Piauí teria a ver com essas histórias e gentes? As pesquisas dele encontraram um referencial a investigar num livro sobre o assunto publicado em Teresina em 1928, intitulado Antiga História do Brasil, feito por Ludwig Schwennhagen.

Schwennhagen, austríaco, esteve no Piauí nos anos 20, viajou pelo interior e arranhou o litoral do Delta. O livro, publicado sob os auspícios do governo Mathias Olímpio, objeta e labora interpretações sobre a ocupação do território do futuro Brasil pelos fenícios desde 1.100 anos a. C. Sustenta que o lugar principal desse contato fora a faixa litorânea do hoje Piauí e Maranhão, centrado na Pedra do Sal e Tutóia.

O palestrante não se ateve sobre essa obra e fez severos reparos à intolerância –espécie de “fundamentalismo”– que a cultura brasileira nutre sobre os estudos que especulem a presença de outras gentes por aqui antes da chegada de Pedro Cabral, citando justamente o pouco caso que a historiografia nacional fez e faz de Schwennhagen –que os estudantes do Liceu do Piauí do seu tempo, à galhofa, chamavam de “Ludovico Chovenágua”.

Padre Eddé apresentou o “estado da arte” atual em relação ao assunto “colonização fenícia” na América pré-colombiana, detalhando evidências da dilatação fenícia neste continente, de norte a sul, chamando a atenção às adiantadas pesquisas a partir do que se tem encontrado em elementos da cultura material de maias, astecas, além de tupis.

Mas que importância teriam tais estudos para o Piauí e para o Brasil? Outros conhecimentos de sua formação histórica numa dimensão que deixa ao largo o corte marcado pela invasão européia de 1500. Ora, a Europa “roubou” a história dos povos orientais, e assim, ao cabo de quinze séculos, impôs ao mundo de sua dilatação colonial –anglolatina– um viés deformado de suas fontes seminais. Ora, a constatação de que estas terras teriam sido “colonizadas” antes de Cristo pela Antiguidade fenícia, abre outras e instigantes perspectivas de análise sobre a ocupação humana deste lado do Atlântico.

A vida e a possível “missão” de “Chovenágua” no Brasil, em particular no Piauí, é algo que precisa ser melhor examinado. Numa segunda edição de seu livro dada no RJ em 1970, a apresentação que se faz dele é nada qualificante, beirando à grosseria preconceituosa, reiteração daquele fundamentalismo, quando se afirma “que ensinava e bebia cachaça nas horas de folga” não se sabendo “de onde veio e morrendo sem deixar rastro”. Não se discute porque peregrinou o Piauí, de Valença ao litoral, escrafunchando pés e cumes de serra, cavernas, leitos pedregosos e outras “obras” ditas “da natureza”, à procura de traços e outros indícios de toques da mão e consciência humanas. Por que seria absurdo um fenício furando a “pedra de Castelo” ou “Pirâmide do Marvão” à procura de gemas preciosas em seu interior? Idem, as decantadas grutas valencianas?

Aliás, dá para se desconfiar do porque tenha sido seu livro –parte de pesquisa mais ampla– editado no Piauí, numa promoção de seu governo, e não nos tradicionais centros tipo RJ e SP. Na folha de rosto da edição de 1928 Ludovico é apresentado como “Professor de Philologia e História”.

Afinal, a propósito de Valença, seria à toa Portugal, já no final do século XVIII, nomear um cientista/naturalista – padre Joaquim Pereira para ser vigário dessa paróquia, com a missão –reservada– de estudar as potencialidades da biodiversidade e minas do então Estado do Maranhão e Piauí?

Eddé autografou livros de sua autoria. Destaco: “O Líbano Através dos Séculos”. A migração sírio-libanesa para o Piauí no final do Oitocentos seria a retomada de uma experiência anterior e tri milenar? É estudar. E remover mares de preconceitos.