(01/03/2010, às 08:12:15)
São raras as pessoas que não gostam de espanar a poeira do tempo em busca das origens, mais ou menos “eternamente retornando”. Nesse cometimento até inventou-se a História. Aguça a curiosidade saber o jeito de dançar do mundo de ontem.
Aqui neste lugar dele mundão, vive-se remexendo loca de pé de serra, lasca de corisco e furna de talhado em busca de nossa irmandade ancestral. E muito se descobre e assim se vai entendendo o viver de hoje.
Baldemos o vício. Revisitemos a “Descrição do Sertão do Piauí”, peça documental muito importante do registro escrito sobre a intrusão colonial européia nesta região, ainda no século 17, dada aos 2 de março de 1697, “dia de nosso primeiro documento civil”, tal a lembrança tão cara ao historiador Dagoberto de Carvalho Jr.
De fato, a “Descrição” é um memorial descritivo muito bem feito, organizado e assinado pelo padre Miguel de Carvalho, a serviço do bispado de Pernambuco. Veio Miguel a estes sertões estender a fé cristã e ao mesmo tempo estabelecer na prática a jurisdição daquela diocese, recenseando cada morador e fazenda e caracterizando o espaço natural geográfico. Enfim, estabelecendo oficialmente, rente ao povo, a autoridade régia, no caso específico, a o tacão do rei-padroeiro.
Nunca antes em tais confins de variadas capitanias se conhecera a ação do organismo ordenador burocrático régio, pois os poucos papéis escritos alusivos a estes sertões haviam sido emitidos há pouco tempo em forma de cartas sesmariais, ainda que poucas e vagas.
Avulta, pois, a “Descrição” do padre Miguel como atestado escrito, e o mais relevante, da fundação do Piauí nas franjas e garras da cristandade dilatada a partir da península lusolatina, visigótica e moura.
O Portugal da expansão mercantil –assim também a Espanha– era o papado romano imperial ampliando seu poder sobre a esfera terrestre, desde então aceita como finita, governável pela vontade dos príncipes terrenos. Assim é que o Piauí que conhecemos é fundado dentro da conformação do que chamamos hoje de paróquia ou freguesia, isto é, enquanto comunidade de fiéis, a catolicidade triunfante. Claro que, e já o aludimos, a vaga colonial-invasora vem intencionada e pulsionada pela exploração e criação econômicas, e a igreja-burocracia é o Estado em sua projeção centralizadora eficaz.
A “Descrição” é datada no dia em que é inaugurada canonicamente a freguesia de NS da Vitória, ocasião em que os moradores fizeram reunião e assistiram à sagração da igreja-matriz (“de 24 palmos de comprimento”) e à posse do primeiro pároco, no caso, o padre Tomé de Carvalho, desde aquele dia 2 a única autoridade local no real sentido do termo.
Ainda que conhecendo apenas os rudimentos da história da colonização, toda e qualquer pessoa sabe que ela é marcada desde o início pela distribuição senhorial das terras férteis e dos mananciais de águas entre os colonos, numa ação invasora que, dos litorais, alcançará, ao cabo de quinze décadas, os mais adentrados sertões. E a nova ordem se estabelece com a apropriação violenta do espaço (sesmaria) e a fixação da jurisdição real-eclesiástica. É o que se dá naquela ribeira direita do Canindé, na ribeirinha do Mocha afluente.
É parte da compulsão do “retorno” aferir a exatidão dos marcos originais. Pois a “Descrição” miguelina é rica em detalhes, uma fonte a explorar em termos de busca de significados de como se movimentam os grupos humanos do tempo.
Visto no geral, o Piauí de hoje é essa paróquia primeira, descrita em 1697, mais definidos agora os contornos e limites de sua jurisdição, agora distintos o Estado e a Província eclesiástica. Quinze anos depois, 1712, a sede da freguesia é também vila e seu território – do Atlântico a Rodelas e do Araripe às “matos desertos” rumo as Índias de Espanha– o primeiro município do Piauí. Aquelas e este as matrizes de todas as entidades políticas e eclesiásticas da atualidade. Do Piauí, e da vasta região dos “pastos bons” maranhenses adjacentes.
Por tudo isso, obrou muito bem o Governo do Piauí e a APL reeditarem agora a “Descrição”. Segunda edição do texto organizado pelo também padre e acadêmico Cláudio Melo, que, com Carvalho Jr., faz o par mais dedicado aos estudos das nervuras mosaico-cristãs lastradas nos brenhais de nossa existência.