21/12/2009, 09:39

Clodoaldo, letras ardentes, por Fonseca Neto

Qual anjo, que além da trombeta usa lanterna, Teresinha Queiroz tornou-se fiel iluminadora e trombeteira da obra diversa do eminente polígrafo Clodoaldo Severo de Freitas.

(Clodoaldo, destacado oeirense dos Picos, vivendo entre 1855 e 1924, profundiu sua escrita sobretudo nas folhas-jornais de Teresina e de outros lugares por onde passou).

Munida de chaves conceituais qualificadas e de metódico instrumental de coleta, escrutínio e leitura de fontes literárias, colheu a vida e a obra dele em mananciais de velhos jornais feitos coleção em arquivos e bibliotecas de tais lugares. Mais: fez a ‘biografia’ do tempo clodoaldino em notável tese doutoral, publicada com o título “Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as Tiranias do Tempo”.

Cem anos depois, organizados com dedicada equipe de estudantes da Ufpi, acaba de editar os primeiros cinco de dez romances de Freitas, tirados das páginas dos jornais em que foram originalmente publicados em capítulos, agora vindos na forma livro –aliás, bonitos livros feitos pela Ética Editora, de Imperatriz, Maranhão.

“Memórias de um Velho”,”Por um Sorriso”, “Coisas da Vida”, “O Bequimão” (2ª edição) e “Os Bandoleiros”, são os cinco livros assim titulados, páginas significativas para o público deste início de século conhecer, lendo bons romances, apreendendo o cotidiano da vida brasileira e o pensamento do autor sobre quase tudo. Incrivelmente revelando, diga-se, um mundo de paixões entre homem e mulher, ardendo nas microrrelações tecidas em redes de sociabilidades, tramadas, ou não.

Ler hoje os romances de Clodoaldo –tal lembramos quando da apresentação de lançamento deles na Ufpi, há poucos dias–, é ter revelados ante os olhos “os nortes filosofais do universo” de sua humana imersão. Em “Memórias...”, parece estas “que hauridas das fricções quase sanguíneas de cicatrizes insistentes na face das células que fazem lembrar a vida e suas altercações”.

Ainda pregando em clarões e saberes sobre o autor em foco, ofertados pela doutora Teresinha Queiroz, trazemos esta anotação dela na quarta capa da presente edição, chave para ler “Memórias de um Velho” e quetais: “Clodoaldo Freitas trata os caminhos e descaminhos do amor e da vida como metáforas da política brasileira e de seus sonhos de transformação social”. Aliás, a “realidade despoetiza a existência”, diz o próprio Clodoaldo, em “Os Bandoleiros”, a propósito das abissais cruezas do casamento, quando afastadas vão as delícias da lua-de-mel. Mas em tudo vêm reveladas “realidade” e “existência” outras.

A propósito, realçamos ali o quanto fartamente e sem peias, na sua ficção, o assentou em tintas o amor, e amores, “... paixões vulcânicas explodindo nos brotos-personagens de sua criação; é copioso e derramado na composição dos diálogos desses amores e corpos em brasa, tal em ‘Por um sorriso’: aqui, a São Luís euro mais que afro, desembarcada no outro lado do Bacanga, no Tamancão, qual uma bacante ludovica de meia dúzia de casais em fogo, de férias. (Claro, bacante freada por certa moral do tempo...). Fogo de paixão, fogo de política; na metáfora aludida, o autor não resvala no pueril de certa romanceada criação”.

Vale notar que a “intertextualidade revelada pela construção frasesca [dele], diz do homem centrado num norte consciente que solapa certa conservação. Clodoaldo, pela leitura, nutre-se das filosofias correntes com o que assesta sua militância, deglute-as, e com a mão escrevente, asperge pelas bocas de narradores e personagens de sua literatura, as aplicações práticas delas no passado e suas histórias, e no presente; seu presente, e suas ironias; com elas, feitas verbo-espadachim à moda de diversionar as tiranias, faz conferência e verbera quanto pode, em folhas outras quanto nas que cria para tanto”.

Notável Clodoaldo, número 1 em academias neste parapimarão; língua de fogo.

 

14/12/2009, 09:29

Corrupção, qual câncer, por Fonseca Neto

Com uma diferença importante: curável; a corrupção é doença reversível. O remédio é o aprendizado insistente na vivência democrática radical. Radical porque o viver democrático que lhe confira sentido haverá de assentar-se na elaboração de uma vontade e ação políticas que leve ao fim a desigualdade entre as pessoas.

Por que há tanta corrupção no Brasil? Rios de tinta são gastos sobre o assunto (inclusive nesta coluna). E é preciso dela ainda se fale muito. É parte da terapia.

Continuando a conversa, deixe-se logo a ingenuidade de ficar culpando esse pune e não pune. É preciso querer destruir o joio da estrutura de sociedade que o Brasil criou e ceva: afinal, quem vai legislar no lugar do agente político que não quer mudar nada? Quem governar sem “governabilidade”?

Quem vai fiscalizar o fiscal que não vai fiscalizar nada? Quem vai punir o que deveria punir e não pune? Urge recordar a lição básica: o Estado tem dono, deixe-se essa outra besteira de achar que ele vai sair por aí mudando a sociedade sozinho...

Ditaduras e democracias já foram erguidas no Brasil denunciando a praga da corrupção. Nadica de jeito. Ditadura corrupta: poder e corrupção concentrados em prol do butim de poucos dos de cima; corrupção vigorosa em contexto de censura e de falta de participação popular; juízes com poder de mentirinha.

Democracia corrupta: poder e corrupção descentrados em prol do butim amplo dos de cima a baixo; liberdade de imprimir aos que são donos das gráficas; juízes com poder formal real. E nada; claro: quase nada.
Um câncer que não somente corrompe o corpo físico, corrompe também a estrutura mental, o corpo moral. Doença social; doença humanamente individual. Um misto de falta de espírito coletivo, público, e de falta de vergonha. A corrupção é um câncer que degenera as células constitutivas “dos freios morais inibitórios” (obrigado professor Wall de Carvalho), levando à roubalheira.  

Mas será que tem mesmo cura? Diz a professora brasileira de psicologia social (dando aulas na London School of Economics) Sandra Jovchelovitch que não “é possível erradicar a corrupção porque ela é um erro humano”. “O que podemos fazer é construir procedimentos na esfera pública desenhados para lidar com situações de risco. Só que essa tarefa se torna mais difícil nas esferas públicas marcadas por uma cultura em que o privado tem preponderância” (FLS, 07/12/09).

O estudo dela foca o Brasil. Tem jeito: “Construir procedimentos na esfera pública” para conter a sanha do privado que se lhe parasita. Jovchelovitch recusa a idéia (lembrando inclusive famosa frase de F. Peixoto) de que o sangue do corpo social brasileiro seja corrupto, reconhecendo, contudo, que a idéia desse “mal de origem” – representação do cotidiano – “está arraigada no imaginário brasileiro”. Inclusive se traduzindo na “autointerpretação do brasileiro de que nós somos um povo corrupto, de que a corrupção está na constituição do nosso corpo político e social”.

E afirma, sem traumas, algo que poucos atores sociais têm coragem de dizer: “Existe uma simetria no comportamento que nós encontramos no cotidiano da população com o comportamento que encontramos na política”. Isto é: a corrupção insiste porque, no fundo, muitos a aceitam como algo, digamos, normal. Tem jeito: lembra ela que para “resolver o problema no país, vamos ter que mexer no imaginário da sociedade sobre o espaço público, mudar a relação com esse espaço”. “O Estado brasileiro é historicamente autoritário, tanto pelo lado do populismo, quanto pelo do autoritarismo militar”.

Aliás, são dois caminhos que negam uma mais autêntica participação popular. Mas como fica se há uma simetria entre a rua e a política imaginando e agindo com base neste fatalismo: “a política é assim”, “esses caras não têm jeito”, “quem pode faz mesmo”?

Fica, assim: ir à rua e à política e, nelas, varrer tronos. Um no Brasil foi também varrido pelo eito. A propósito: MST, arriba!

Fonseca Neto escreve às segundas-feiras nesta página.

 

07/12/2009, 15:05

Cadeira 1

A Academia Piauiense de Letras é a instituição lítero-cultural de maior duração entre nós. Depois vem o Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. A APL criada em 1917. O IHGP em 1918. Pertence aos quadros dessas duas instituições parcela significativa da elaboração literária, de variado gênero, que veio à luz em terras piauienses nestes últimos cento e cinquenta anos.

A Cadeira 1 tem como patrono José Manuel de Freitas e primeiro ocupante Clodoaldo Conrado Severo de Freitas. Este, um dos fundadores da APL, e um dos fundadores da Academia Maranhense (1908). Há registro de que também pertencera à Academia Paraense de Letras.

Sucederam Clodoaldo Freitas nessa Cadeira, Cirilo Chaves Carneviva (padre, natural do Estado do Ceará, de 1926 a 1936), Esmaragdo de Freitas (desembargador), Avelar Brandão Vilela (alagoano, padre-cardeal-arcebispo) e Alberto Tavares e Silva (governador).

Como é possível notar das breves anotações acima, o patrono e ocupantes da Cadeira 1, em 92 anos, foram homens mortais de bastante projeção na vida social em seu tempo, notabilizados e imortalizados na cátedra acadêmica por seus feitos relacionados ao mundo e à cultura das letras. Algo excepcional, talvez, o próprio Alberto Silva, incensado porém por sua presença sob vários aspectos inovadora quanto às políticas públicas culturais quando à frente do governo estadual –é marcante seu papel político na implantação e viabilização da Universidade Federal do Piauí, Secretaria de Cultura, Plano Editorial do Estado, entre outras. 

A Academia Piauiense de Letras é filha do contexto de criação da própria Academia Brasileira (cerca de duas décadas depois), contemplando o objetivo principal de dotar o Estado de uma organização literária que ensejasse a cristalização de valores ligados à produção cultural letrada. O Piauí tinha já, então, um significativo número de escritores, conhecendo vida intelectual intensa. E assim estatuíram os fundadores que à APL cabia o papel de promover “o cultivo da língua portuguesa, o estudo e o desenvolvimento literário piauiense, dentro da unidade de espírito da cultura brasileira”.

Os fundadores da APL fizeram recair as patronias de suas cadeiras iniciais sobre literatos piauienses notáveis e já passados ao silêncio, ainda que relativo tal silêncio e ainda que somente físico. Assim é que Clodoaldo escolheu patrono da 1 a Jose Manuel de Freitas, nascido em Jerumenha (1832) e falecido em 1887, figura proeminente, segundo Cláudio Bastos, “poeta lírico” e “latinista”, autor de “Anotações à Lei da Reforma Judiciária de 1871”, “Índice da Legislação Brasileira” (4 volumes) e 3 volumes com textos de suas decisões de magistrado.

Sim, José Manuel era bacharel do Recife, turma de 1858. E naquele ordenamento político-social do Império do Brasil, sustentado numa colunata de padres, juízes e soldados, lograra ocupar funções operosas na burocracia estatal, entre outras, as de presidente (interino) da província natal, e também das províncias de Pernambuco e do Maranhão. Na carreira jurídica, propriamente, exercera o cargo de juiz de Direito em várias comarcas Brasil afora, idem, o de juiz municipal –também esta, função togada na organização judiciária de seu tempo.   

A Cadeira 1 da APL ficou recentemente vaga como vago ficou o espaço humano piauiense com a definitiva ausência de Alberto Tavares Silva. Desta vez, como em toda e quaisquer delas, a sucessão aberta resulta em permitir a esse sodalício que renove seus quadros, que regenere seu corpo ante a fadiga e corrosão que às vezes a inclemência do tempo impõe.

Ironicamente, a imortalidade da Casa dos que são tidos por “imortais” depende da mortalidade física de seus membros, felizmente, em regrado conta-gotas. É o que ocorre agora em torno da Cadeira 1.
(Por aqui vou –mortal comum– a pesquisar a vida de tão luminosas figuras da sucessão clodoaldina, colaborando a que permaneçam imortais em nossa cultura. Um treino para sucedê-los, em tal missão, eleito ontem que fui escriba este.    

 

30/11/2009, 09:22

Letras médicas

Para J. O. Ribeiro Gonçalves.

Hermínio de Morais Brito Conde. Médico notável. Escritor.

Boas notícias: de 2007 a esta parte, dois livros seus foram reeditados, em caprichados volumes. Um deles que, a pedido do editor, tivemos a feliz oportunidade de ensaiar prefácio, e tem o título de “Cochrane, Falso Libertador do Norte”, foi lançado no volume 5 da Coleção Independência, organizada pelos professores R. N. Monteiro de Santana e Cineas Santos. Já nestes dias, saudamos a reedição de “A Tragédia Ocular de Machado de Assis”, um grande texto de Conde, voltando à luz em boa seleção de livros agora reeditados pelo Governo do Estado Piauí (Fundac), sob os cuidados editoriais da Academia Piauiense de Letras.
 
“A tragédia ocular...” é uma viagem ao mundo machadiano que faz o médico Brito Conde, consultando a condição dos olhos de ver do mais genial de nossos letrados. Uma leitura médica do conjunto do texto escrito de Assis, identificando nele o itinerário de sua saúde ocular-visual, desde a infância de mente supernormal e olhos faiscantes, à velhice, idem, e olhos embaçando. O Dr. Conde como que se instala, com sua ciência avançada, no lugar das vibrações luminosas entre a retina e a lente do pince-nez do Bruxo, para escrutinar as idades e todas as irradiações de sua criação literária. E conferir-lhe um duplo diagnóstico: do olho físico que adoece e da alma estetizando os sentidos da vida em frêmito de imortalidade.

O capitulário de “A Tragédia ocular...”: “Os olhos normais da infância”; “O abuso da adolescência”; “A miopia da juventude”; “A tragédia ocular da maturidade”; “Os olhos malferidos da velhice”. Esta titulação capitular vem abigodada de bem recortadas epígrafes, reveladoras das percepções que Joaquim Maria ia elaborando desde o Morro do Livramento, onde nascera, ao mundo pátrio que o erguera às glórias do Olimpo.
 
O médico oculista Hermínio plasma nesse texto as sensações da alma do míope nativo maior, transitando do estado de quem menos ia vendo que sentindo. E capta ressôos de genialidade que o autorizam a fazer um escrito que é uma declaração mais que explícita de amor a Machado de Assis. A ciência do oftalmologista famoso parece apenas um pretexto para se insinue nos mananciais machadianos em seu olhar multidimensional.

Um fragmento substancioso (da 87 desta nova edição): “Possuía [Machado] a timidez peculiar àqueles míopes capacitados de que o melhor da sua força visual se encontra à mercê de um instável aparelho, equilibrado à frente dos olhos baços.
 
Sendo o mundo a nossa representação exterior, a extrema introversão miópica explica a misantropia machadiana e, também, o deslocamento do centro de interesse da paisagem para o homem, promovido na literatura pátria pelo insuperável analista da alma humana, sincero ao dizer: ‘sempre me sucedeu apreciar a maneira por que os caracteres se exprimem e se compõem’ ...”.

Grande Machado, menos visual que auditivo na cidade carioca explosiva em sons. Sons virando letras. Tons brasílicos cruzados no Rio-capital, zoando dos burburinhos e chiados de entre as marés cheias de filosofias vindouras e as falésias da serrania altiva. Serrania do mar, batente guanabarino do sobe-e-desce dos sertões altos e planuras infindas do brasilão de dentro.

Brito Conde, de sobrenome assim, claro, nasceu em Piracuruca. Viveu na velha capital do Brasil muitos anos. Um dos mais ilustrados nomes da medicina e da oftalmologia brasileiras. Militante por décadas em políticas e organizações contra a cegueira no Brasil, um engajado social lúcido.

Corajoso, além do mais: não rima com nenhuma fortuidade fazer a biografia ocular do “príncipe de nossas letras”. Ele fez. E diz o prefaciador que a obra esgota o assunto. É também uma biografia do país cegado por certa estupidez ideológica que, historiador, esse Conde de melhor nobreza denunciou na empulhação de Cochrane.

É patrono da cadeira 17 da Academia de Medicina do Piauí.

Fonseca Neto escreve às segundas-feiras nesta página.

 

23/11/2009, 08:20

Teresina, olarias, por Fonseca Neto

               
A cidade de Teresina está assentada sobre uma mancha de argila a espraiar-se pela mesopotâmia que a aconchega. Têm as ribeiras do Parnaíba por aqui, filões encharcados desse barro, um dos fundamentos da vida neste velho lugar da Barra do Poti e entorno.

A história de Teresina, assim, ajusta-se nos marcos de fixação centrípeta que explicam o aparecimento de quase todas as comunidades humanas, nicho de civilizações sobre as faces rugosas e emersas do maciço terreal.

A ênfase exagerada da enunciação fundadora da cidade como obra de um homem só, além do reducionismo ideológico que opera a negação de sua criação coletiva, acaba por, ironicamente, “soterrar” a força da engenharia humana dela, e no caso da Poti velha, e depois de Teresina, da comunidade nascendo da fartura do barro-argila abundante.

Cineas Santos é uma espécie de inteligência amassando esses barros para as forjas e grandezas culturais da gleba. Semana passada, iluminado na TV, fez reportagem sobre as olarias teresinenses, didaticamente mostrando ao grande público a faina do oleiro elaborando o tijolo-alvenaria, trabalho humano antiqüíssimo, duro e delicado, cheio de etapas, pleno de ciência, pedra angular de quase toda cultura humana edificada, referida à prediaria ou artesania. Pode-se especular, com razão, que o Arraial do Poti não teria sido erguido no Oitocentos, não fosse pelas águas e peixes e suas lamas-oleiras em chão firme. 


Já neste sábado, jornal local (MN, 19/11/09) deu em garrafais: “Telha de Nazária abastece Nordeste, Brasília e Tocantins”. Como se vê, ontem e hoje, sempre, os oleiros fazendo as cidades, a riqueza das cidades, fator de sobrevivência; o próprio homem vem do barro; fê-lo a deidade oleira, animando-o com um sopro divinal.
 
Você leitor sabe que barro é diferente de areia? Pois é. A areia são partículas muito minúsculas, semi-microscópicas, advindas de certo tipo de rochas erodidas pela ação das forças que movimentam a natureza –em regra, pedras vomitadas do intestino da Terra pelos vulcões. O barro, argila, são igualmente partículas tais, mas que temperadas sob as águas e aluviões, daí sua proeminência em beiradas de rios.

Os rios aos quais Teresina se fez agregada, um deles amanha naturalmente o barro e o outro escorre em leito de bancos de areia de fino trato, com boa dosagem e partículas de ferro. Talvez por isso, esta cidade tem tanta edificação bonita e sólida. Lástima que uma parte de seu povo ainda não tenha uma casinha só e segura para morar.

Hoje há a indústria sofisticada dos tijolos, telhas e quetais, todos assados; ontem o adobe, o barro batido e a taipa, crus. Antes, quase todo utilitário do labor cotidiano do sedentário habitante, p. ex., a bilha, quer se a chame moringa, pote e quartinha para a água de beber e outras usanças.

Teresina desenvolveu em tempos recentes um repertório muito amplo de aproveitamento dessa riqueza achada à flor de seu chão. Fale-se dos oleiros-artesãos do Poti Velho: revolvendo o chaco das bordas de suas muitas lagoas, continuam a fazer o tijolo essencial, mas sobretudo agora reinventam esteticamente seus fazeres e artes, e disso vivem.

No Piauí, cavacando pelos boqueirões e pés de suas serranias lacrimosas, são devolvidos à luz de todo dia muitos vestígios de coisas, gentes e histórias de outros tempos. E sabem onde se acham inumados os corpos e tantas coisas achadas e como chegaram até a presente estação do tempo e de nossa vista? Guardados em urnas de barro carbonizadas.

(Meu bom Cineas Chegado das Confusões do Caracol. Novemberreobrando e amassando o barro que ampara as vivências mesopotâmicas daqui, eis de ti o mote desta escrita; lembrastes ao mundo que o essencial está ao alcance da mão que artefaz o pó com água e fogo).

Lembravas, Cirineu, que isso é o próprio batismo das gentes?

Fonseca Neto, escreve às segundas-feiras nesta página.

 

16/11/2009, 08:26

1989, Brasil e Berlim

Aquele novembro de 1989, literalmente, não teria deixado pedra sobre pedra. Ruidosamente, desmilinguira o chamado Muro de Berlim. Lá na Europa.

No Brasil, era véspera da primeira eleição presidencial direta desde 1960. Ruidosamente, a direita brasileira festejou. E o fez, usando a queda do muro como principal instrumento de campanha eleitoral midiática contra o candidato Lula e contra todas as forças político-partidárias identificadas com o ideário da esquerda.
A queda do muro de Berlim é um marco simbólico do fim do império soviético erguido por Stálin sobre as bases da revolução proletária russa de 1917. Revolução que aguçou os sonhos da maioria dos viventes portadores de tendências libertárias nas várias partes do mundo.

Brandindo a contraconsigna do “fim da história”, formulação radical de Fukuyama e representativa do estado de espírito do conservadorismo, a grande mídia engajada na ideologia liberal fez enorme alarde, afirmando o fim da esquerda, dos sonhos de revolução, da pertinência da luta política e do direito humano à rebeldia, assim proclamando, em êxtase, a vitória final das forças do K no encaminhamento da vida social.

No Brasil, naquele momento de grave decisão política e com o povo mobilizado em grandes comícios e outros atos públicos de uma campanha muito polarizada, as forças liberais, assustadas com a possibilidade de vitória do PT e de Lula, para irem à forra, não precisavam de melhor presente que esse revés dos partidos comunistas do chamado leste europeu. Boa parte dos lutadores sociais de então tinha sua sensibilidade e formação políticas elaboradas nos marcos intentados em outubro de 17.

Berlim reunificada, em ruínas o chamado socialismo realmente intentado no Leste, restava à esquerda, aos que continuavam acreditando que a história não terminara, entender criticamente aquela conjuntura cheia de adversidades. Repudiar a conversa de má-fé de “fim da história” e afirmar a necessidade imperativa de continuar a luta contra as várias formas de exploração, que ali mesmo naquele 1989 afirmavam-se mais agressivas, como se provaria nas duas décadas seguintes.

Aqui no Brasil, o desafio era eleger Lula, cuja candidatura expressava ao mesmo tempo uma ruptura com a perspectiva socialista do partido russo, mas que congregava parte significativa dos quadros da esquerda de inspiração marxista, além dos lutadores pela democracia radicalizada nas maiorias mobilizadas pelos movimentos sociais.

Com o muro de Berlim não cairiam os partidos únicos dirigentes na China, Cuba, Coréia do Norte e noutros estados menores. Mas restaria quebrada uma bipolarização insistente desde o fim da chamada “segunda guerra mundial”, opondo os impérios russo e norteamericano. Como se dizia, comunismo versus capitalismo –com todas as simplificações possíveis em assim afirmá-lo.

Em 17 de dezembro de 1989, a Frente Brasil Popular, de Lula, apanhara nas urnas e Collor, “o caçador de marajás”, mimo da direita, triunfava eleitoralmente tornando-se presidente do Brasil.

Triunfou o neoliberalismo, no ocidente, em particular; um “consenso em Washington” impôs-se ao mundo e abriu-se uma nova e tenebrosa temporada de exacerbação da exploração de patrões sobre empregados, de países sobre países, de empresas sobre estados nacionais. Um colonialismo com todas as perversões já conhecidas e outras mais.

No Piauí, em Teresina, na Ufpi, os estudantes comemoravam naquele novembro os dez anos do DCE-Livre –agora com 30 anos.

E os ressoos vindos de detrás do Muro foram tão fortes em nosso juízo, que muitos de nós, até hoje, não tivemos tempo de nos licenciar da luta pelas transformações sociais que possam trazer ao cenário a democracia para além das afirmações retóricas de cartas e mais cartas de lei ...
Fonseca Neto, escreve às segundas-feiras nesta página.

 

02/11/2009, 09:38

O turco e o cinzelador


A díade do título é dessas típicas formulações indicativas de bons enredos, ficcionais ou não. É o caso do romance de Eneas Barros há pouco tempo lançado à fruição do leitorado.

“O turco e o cinzelador –a comovente história que marcou as portas da igreja de São Benedito”: trata-se de uma criação literária inspirada em história real, no caso, a vida e drama de Sebastião Mendes de Souza, o artista que entalhou as portas da igreja de São Benedito, ainda no Oitocentos. Portas que são o único bem do gênero tombado pelo Patrimônio Artístico Nacional em Teresina –agora noutros gêneros foram tombados a Ponte Metálica e a Floresta Fóssil.

Ler o romance é conhecer algo sobre a vida dele, um piauiense quase absolutamente desconhecido, apesar da especial relevância de sua principal obra artística já referida. É conhecer mais sobre o contexto e cotidiano teresinense do tempo em que ele viveu –pois o autor é, igualmente, um dedicado pesquisador nas fontes primárias da história local.

O cinzelador Sebastião viveu em Teresina na segunda metade do século XIX; já os “turcomanos” (início da “migração árabe”), chegam nesta capital no último quartel desse século. O romance capta os ritmos e ritos da cidade do tempo. Teresina é traduzida para o leitor em personagens, imagens, falas e cenários muito bem elaborados narrativamente.

A vida real de Sebastião tem lances dramáticos. Com efeito, não poderia deixar de ser personagem forte de si próprio na lavratura ficcional de Barros, que, com este, publica seu terceiro romance. Os demais personagens que enredam “O turco e o cinzelador” nascem das implicações das histórias que se cruzam dentro da história mais geral da Teresina oitocentista. Frei Serafim também é personagem da vida real, assim como a igreja cujo erguimento animou em meio às cruezas do tempo da seca de 1877 e de outras misérias.

Colaborando no interessante debate sobre as interfaces entre história e literatura, Avaci Gomes dos Santos lembra que, à “primeira vista história e literatura são vistas de formas diferentes como áreas do conhecimento. A história é objetiva. A literatura subjetiva. A história tem por objeto de estudo o passado. A obra literária é reconhecida como tal quando antecipa o devir, o futuro. A história tem por pressuposto a verdade. A literatura é ficcional. A história forma e informa. A literatura distrai. A história tem um discurso oficial. Na literatura o discurso é polifônico. A história atrai pelo poder do saber. A literatura pelo prazer. A história conduz o leitor à saída do labirinto.
 
A literatura é o fio de Ariadne [...]; a literatura e a história se materializam no jogo e no trato das palavras. A narrativa é a base desses conhecimentos”.
Por que Sebastião Mendes não viera à luz antes, ainda que fúlgidos raios de admiração sejam lançados sobre os florais de sua criação artística? Por que a cidade, ainda que timidamente, exalta a estética de sua obra artística, enquanto silencia sobre sua vida? Por que nunca teve um biógrafo?

Nosso romancista e o próprio romance dão ótimas pistas para responder em parte essas indagações, através dos seus oito capítulos, assim convenientemente titulados: “Cândido”, “Verônica”, “Benjamin e Zahrah”, “Sebastião”, “Frei Serafim de Catânia”, “Esperança”, “Mundinho”, “O último suspiro”.

Saiu o romance pela Bagaço, de Recife, em livro enxuto e bonito. O autor é já pessoa conhecida por suas publicações anteriores e sobretudo pelos muitos amigos que tem em sua cidade: Eneas do Rego Barros é teresinense, economista por formação acadêmica, com estudos aplicados ao Turismo, atividade da qual se tornou um experto. Aliás, para animar o turismo piauiense, publicou outro bonito livro intitulado “Piauí, Terra Querida”.

Sebastião, agora tecido com fios de Ariadne, vai sendo libertado dos labirintos e tiranias que lhe condenou a história branca. 

FONSECA NETO, professor da UFPI, advogado, escreve às segundas-feiras.

 

26/10/2009, 08:39

Amarante, SOS. Por Fonseca Neto

Há quinze dias vi neste espaço um oportuno artigo do acadêmico-historiador Dagoberto Carvalho Júnior intitulado “SOS Amarante”. Discreto apelo a que dediquemos mais atenção a essa amorável cidade da riba média do Parnaíba. Faço coro com ele, que a conhece bem. Pesquisador, fez estudos sobre a cidade, quando ainda pouco se falava entre nós em políticas públicas de valorização do patrimônio histórico e cultural.

“Minha terra é um céu, / se há um céu sobre a terra”. São versos consagrados daquele que é considerado com razão o maior poeta brasileiro nascido no Piauí – A. F. da Costa e Silva. E que terra-céu é essa? É Amarante, cara-metade piauiense da muito antiga Passagem de São Francisco, fundada, já em 1697, pelo sertanista situando currais.

Amarante de Odilon Nunes, inigualado historiador da formação social do Piauí; Amarante de Clóvis Moura, inigualado historiador da insurgência negra no Brasil, conterrâneo de Auta Rosa; Amarante de Nasi Castro,cronista do cotidiano da vida sertaneja brotando do chão social em jorros de amarâncias; de E. Moura, A. Freire, E. Neiva, Cunha e Silva, Bizinha da Paixão, M. Barroso, F. Aires, Ribeiro Gonçalves, Socorro Leal e de centenas de outros cronistas, poetas e prosadores do povo,
músicos dos melhores, cantadores, professores, remeiros e vareiros entre os milhares de operários de sua vida comum e comunitária.

Empobrecidos, remediados, ricos. E até a primeira miss Piauí dali veio, segundo M. Vilarinho. Mas toda cidade não é assim, plural, dialética, cantada e namorada porseus filhos e amantes? É verdade. Mas como lembra outro apaixonado da terra, Homero C. Branco, ali é AMAR/ante. Amar antes de mais nada. Eis a sua singularidade. E no andar do andor, Gonçalo foi levado a se juntar ali a Francisco.

Amarante tem um valioso conjunto arquitetônico, herança do tempo em que tinha um movimentado porto fluvial em francos intercâmbios comerciais e culturais com o mundo. O fim da navegação pelo rio em favor do irresponsável advento do automóvel foi economicamente negativo para ela, detendo seu crescimento material, impondo-lhe uma vida mais regrada e certo isolamento. Condição de isolamento e de baixo dinamismo que de certa forma explicam a conservação de seu patrimônio edificado, representativo do fim do século XIX, começos do XX.

Mas ouvi de um seu morador de hoje: “a cidade precisa de progresso em proveito de sua população atual”. Ele tem razão. Contudo, essa idéia estúpida de progresso que age derrubando o casario velho, impondo o esquecimento das histórias do lugar, trazendo outras culturas de longe, esse “progresso” não deve interessar a ninguém. A atual geração não tem o direito de destruir o que os velhos amarantinos ergueram em sinal de grandeza da terra.

Minha mãe, nascida e criada ali bem perto entre os Fonseca da zona rural de São Francisco do Maranhão, tinha Amarante em sua memória taluma luminosa fonte de beleza e experiência letrada. Isto é apenas um exemplo, de milhares possíveis, da lembrança positiva que tanta gente tem da cidade do mestre Odi. Recanto especial na história humana nesta região do ecúmeno.

Sabe-se que o Iphan cuida de medidas necessárias para fazer de Amarante uma cidade ainda melhor, preservando seu patrimônio histórico-cultural, material e imaterial. Melhor ainda, buscando pensá-la para que seu povo possa ter proveito, inclusive econômico, de sua condição de “cidade-monumento histórico”.

O que Amarante tem de singular da herança de sua cultura passada haverá de constituir diferencial do necessário desenvolvimento que seu povo de hoje precisa, nada impedindo que o antigo conviva com as mais avançadas conquistas da humanidade atual. Povo, municipalidade, Iphan, Conselho de Cultura e associações: SOS Amarante!

 

20/10/2009, 08:52

Leonardo, católico e republicano, por Fonseca Neto

Por Fonseca Neto

Os sentidos do acontecer histórico são sempre mais interessantes quando apreendidos enquanto construções coletivas.
Assim sendo, os chamados “grandes personagens da história” nunca serão amealhados na história do tempo social como seres maiores que o acontecimento dado de que são sujeitos.

Heroicização? Esquecimento? Isto são obras dos inventariantes de sentidos na vaga do tempo que não para e nas junções e injunções da construção cultural-social no porvir. Não se trata de desconhecer que há pessoas que se distinguem mais que outras enquanto flui a vida historicamente considerada.

Ancorado nessa paradigmática é que fazemos estas considerações sobre Leonardo de Carvalho Castelo Branco, agitador republicano no cenário da aclamação da Independência no Piauí, personagem sobre quem se fez até hoje estrondoso silêncio. Ou sobre quem, no mais das vezes, é lembrado por ter sido um fracassado cientista, poeta, político ...

Clodoaldo Freitas, em 1903, ainda que em viés e sentido de negatividade, concede: “Seja como for, Leonardo das Dores, pelo seu trabalho indefeso, pelos seus estudos, pela sua obra sobre mecânica não é de todo um nulo e bem poderia ser, se a tivesse publicada, que fosse um benemérito da ciência. Ele dorme esquecido o sono da morte. A posteridade, infelizmente, ratifica o juízo dos coevos com relação aos seus trabalhos científicos e literários, mas deve honrar a sua memória como patriota, que trabalhou denodadamente, e sofreu gloriosamente pela nossa independência, cumprindo, como nenhum outro contemporâneo, seus deveres de cidadão, através de tremendos padecimentos físicos e morais, sem ter jamais recebido, por tudo quanto fez, a mínima recompensa”. 

Recortamos esta citação do livro de Valdemir Miranda de Castro, “Leonardo: um homem e sua história” (p. 78), para ilustrar o que vimos dizendo, pela palavra de um intelectual de grande peso no Piauí de cem anos atrás.

Tomamos desse recorte biográfico a consideração de que “a posteridade [...] deve honrar a sua memória como patriota [que cumpriu] seus deveres de cidadão ...”, para ir rompendo o silêncio e retirando esse homem e sua história dos escombros sobre si lançados por aqueles que sempre quiseram um mundo diferente do que ele sonhou.

Senão vejamos: Leonardo quis um regime de liberdade (por isso pagou com a prisão), a liberdade triunfante dos contemporâneos europeus, cada vez mais calcada em sentidos de igualdade –o que se viu aqui foi o triunfo do absolutismo do imperador que golpeou o primeiro corpo legislativo eleito do novo Império; Leonardo contra isto lutou (e de novo pagou com a prisão), tornando-se um confederado do Equador, um republicano larvar –o que se viu foi a reiteração da monarquia, a profusão da produção das baronias mofadas; Leonardo quis as luzes da ciência como que aspergindo as letras bíblicas divinais de sua fé em Deus –teve negados os meios; já então ia viçando o reino dos “formados”.

Leonardo disse de si, citando Chateaubriand, ser um homem fora de seu tempo; estaria no próprio tempo porvindouro ... Parece calhar a observação, observando essa autoapreciação, hoje vivendo nós há mais de um século depois de sua morte. Nos dias em que é lembrado o processo de lutas daquele tempo, seu nome, e ainda mais seu exemplo, são, em regra, esquecidos.
 
É fundamental perguntar: por que Leonardo se arriscaria a ser preso por suas idéias (duas vezes) se nele não houvesse a firmeza e sentimento maiores de amor a ideais libertários? Relembre-se que ele era um proprietário de terras, sua família já então uma secular latifundiária do vale do Longá. Então: por que esse pensar a revolução, esse namorico com a mecânica ? A vida desse homem precisa ser ainda melhor esmiuçada para realcemos o quanto exemplar e vitorioso foi o seu sonhar.
Mais e mais bonito o seu gostar da miunçaia: sonhou construir a liberdade como luta do povo –e o sonho dele não acabou sangrando às margens do Jenipapo, como para ele a liberdade não veio pelas margens do Ipiranga.

 

 

12/10/2009, 12:09

Teresina, cajuais, por Fonseca Neto

Sílvio e Sérgio permitam-me a lembrança, mas nestes beerreobrós o rei da freguesia é ele.  Soberbo, bonito e manso, encarnado e amarelo, tem seu trono nos quintais. Provocante e insinuante, sobre si lançam-se pipiras esvoaçantes, ferem-lhe a bicaradas, sugam-no o suco das entranhas –e mais doce é a pissica que fica de todo esse festim.
Caju, el rei.

El rei, ainda que fruto falso –pedúnculo; não é porém nada pedante: nasce em planta  fecundada nos monturos, cresce sem água abundante. Seu caule tem rigidez cascorosa e suas folhas a aspereza das mãos operárias de nossos cultivares.

Caju, el rei. Fruto falso polpudo que sojiga a fruta verdadeira, a castanha, carrancuda, qual rosto fechado. É noz e nobre, dizem desta. Devassada em seus óleos quentes, rachada, pinguelito à mostra, comemo-lhe a baga, nutral; comida-feitiça.

Caju, el-rei, e castanha, princesa: oferecem-se sob os sóis. Assim tão especiais que os deuses lhes dão no mês de Júlio chuvas próprias para florescerem o festim de sua reprodução. Chegado o mês de Augusto, os caminhos desta urbe-capital –os de dentro, e os que a ela trazem– perfumam-se docemente pela explosão da minúscula flor sedenta de pólem.
Em perambular roçando quintas e quintais, praças, chão baldio, campi escolares, beiradas de rios: os odores dos cajueirais inebriam nossa alma em experiência inigualável, prenúncio da mordida daqui a pouco regalando aquele corpo e aquela baga. 
 
Grande cronista de Teresina, Orgmar Monteiro, dedicou ao cajueiro uma crônica das mais bonitas, um hino às suas qualidades e distinção: “É a planta miraculosa que em pleno estio, no vigor da canícula [...], cobre-se de flores e frutos engastados num pedúnculo degenerado e enfartado d’água.

Esse pedúnculo enfartado, o caju, não pode ser armazenado, e a colheita tem que ser acompanhada da utilização no mesmo dia. Mas, os produtos industriais obtidos dessa parte, são vários e altamente remuneradores. Do suco, faz-se: cajuína, vinho de caju, jeropiga de caju, refresco de caju, vinagre e cachaça de caju; da polpa, prepara-se: doces em calda e secos, geléia de caju e a saborosa ameixa ou passa de caju” (Jornal Correio de Timon, 19 de julho de 1956, p. 1, dirigido pelo conhecido padre Delfino da Silva Júnior).

Caju, el rei! Esse “pedúnculo degenerado e enfartado” de nosso agrimensor-cronista parece coisa de despeitado? É não: é esperteza de quem quer é cortejar ainda mais a castanha dele.

Caju, manso, el rei, aqui da Chapada do Corisco, onde “cajueiro” até nome de Mercado foi. E há os cajueiros de além: cajuá e cajuí –el reis das chapadas mais de longe deste grande Piauí. Bom calibre nas sequidões insistentes de nossa semiaridez. É rei nos sertões de dentro, nos Picos, Bocaina, Santa Cruz e Jaicós: tem ali um cajufest e castanha vem assada e mel. Mas nas serranias do sul, onde a sojaria do diabo habita, o correntão da miséria, o esmaga em perversão.

Tem cajueiro na praia, desde o tempo Tremembé. Tem Cajueiro da Praia, cidade das barras grandes, lá como cá ele dá, do Timonha ao Ceará.
Tem o cajueiro velho, do poeta secular, plantado na Parnaíba. É um “amigo de infância” de Humberto trovador: "... meus olhos descobriram  no chão... uma castanha de caju que acabava de rebentar, inchada, no desejo vegetal de ser árvore”.

E assim Humberto de Campos se despediu de seu cajueiro parnaíbano:
"Abraçando-me ao seu tronco, aperto-o de encontro ao meu peito. A resina transparente e cheirosa corre-lhe do caule ferido. / Na ponta dos ramos mais altos abotoam os primeiros cachos de flores miúdas e arroxeadas como pequeninas unhas de crianças com frio.   Adeus, meu cajueiro! Até a volta!"

Até mais ó cajuais de Teresina; logo e já a manga reinará.