Sentar à sombra de uma árvore

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(07/06/2010, às 10:15:09)

“Todo ser humano tem direito de mergulhar em águas limpas, andar descalço na areia, sentir cheiro de mato, brincar com o vento, sentar à sombra de uma árvore, colher o alimento da terra, contar estrelas, pisar na grama, ouvir conchinhas, correr na chuva, olhar a lua, tomar um banho de sol”.

Texto de anúncio de página dupla inteira de rede supermercadista –Pão de Açúcar– por ocasião da passagem do Dia do Meio Ambiente, ilustrada com foto de um bebê de colo.

Os gestos nele lembrados, talvez à exceção do “contar estrelas”, são praticáveis pelo ser humano quanto por outros bichos. Conotam viver em harmonia com a natureza, para muitos hoje em dia um sinal de boa “qualidade de vida” –assim o têm sobretudo os que foram deles privados por viverem em cidades feéricas e degradadas.

“Mergulhar em águas limpas”; criança, isso fiz na Passagem pelo riacho das Inhumas, no Valado e na Cachoeira, areias brancas, piabas escuras e outras listradas, buritis escamados de vermelho boiando e descendo mansamente sobre os sumidouros do brejal, arriba e abaixo; limpas tal nascidas no Sobradinho do São Joaquim, limpas tal caem em chuva e sereno; imersão purificadora do corpo em banho uteral da terra-mãe.

“Andar descalço na areia” é marcar o chão e fazer caminho na face da terra; areiais avermelhados da rua do Grajaú, do Caminho do Sardinho e do Bom Jesus; de manhazinha muito frios e levemente blindados com a casca orvalhada das noites serenosa de junho a agosto.

“Sentir cheiro de mato”; cada tempo com seus aromas: sol nascido uns, pino do meio dia, outros, pendendo, outros mais, os da noite em baixa emissão –caminhante nas sendas da Passagem para as roças ou para a coleta de pequis, guabirabas, araçás, mutambas e tantos frutos dos pés das serras e tremedais, colaram na casca sensível da minha especial memória respirante.

“Brincar com o vento”: ventos de chuva, vento geral, cruvianas de Wilson; na Passagem, os papagaios, surus e curicas, com um pouquinho de cerol, bailavam na imensidão azulada de maio e junho.

“Sentar à sombra de uma árvore” é metáfora de certo ócio; mas na Passagem, no longo caminho para o Poço, nos trechos da rodagem, era um breve descanso com iaiá Chiquinha sob os mangais do Buritizinho do Oresto; ou voltando da Santângela ou do Laranjo com cofos de pequi ou manga.

“Colher o alimento da terra”, depois do murro de brocá-la, plantá-la; na estação invernal após 4 de outubro, semeadas melancia e abóbora em covas as cinzas da broca fina, em janeiro melancia par o leilão e abóboras verdosas para os primeiros quibebes; chuvas altas e plantio em dezembro, tem arroz a panhar depois dos dias grandes.

“Contar estrelas”: bocas de noite dos tempos sem mormaço, lua nova depois de se pôr, depois que foi embora a luz do motor, manchas estelares clareando a turvidez densa; na Passagem, nas rodas da calçada, os ouvidos nas estórias arrepiantes do Birino, João Barbeiro e Zé Pilé, e os olhos nas constelações, estrelinhas, estrelões, piscadeiras, umas andantes entre as outras, diziam que eram os satélites. Meninos, “não contem estrelas”, saem-lhes do mesmo tanto contado muitas as verrugas pelo corpo...

“Pisar na grama”, isto é coisa de praça da cidade grande; na minha, pequena, tinha o relvado gostoso, capins e malvas a tocar o solado dos pés da criançada; tinha o perigo das frieiras, danações dos cogumelos, nascidos nos degredos insolentes dos monturos ...

“Ouvir conchinhas”: na Passagem, longe do mar, os búzios das beiras do lagoões do Casal, dos Tatus, Canafístula, Jacaré, Canteiros e Laranjo.

“Correr na chuva”, banhar na chuva; na Passagem, correr para as bicas grossas da Igreja, das lojas plantibandadas do centro, do Pedro Sousa, do Anastácio, do Sansão.

“Olhar a lua, tomar banho de sol”: banho de lua, nosso sol também é quente, treme ao meio dia, ilumina nossa melhor recordação, adubo do compromisso de amor ao mundo-terra, mãe gentil. 

 
 

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