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Segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Ana Regina Rêgo

anareginarego@gmail.com

10/08/2017 - 12h26

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Ana Regina Rêgo

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10/08/2017 - 12h26

Sejamos todxs feministas! #nenhumaamenos

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Ana Regina Rêgo

Hoje falo para minhas amigas e amigos que assim como eu, são privilegiadxs neste país de grandes desigualdades. Hoje falo para os que nunca passaram qualquer necessidade. Hoje falo para as mulheres que se acreditam como iguais aos homens porque em suas ocupações profissionais que lhes conferem alto poder aquisitivo, não percebem diferença, nem no trabalho nem no salário; mas esquecem que são minoria em meio a um mar de opressão e violência.  Hoje falo para os que abominam a palavra feminismo e veem nela o negativo do feminino. Hoje falo para os que vivem em redomas, dentro dos condomínios de luxo e atrás dos muros altos. E digo mais, tenho certeza que o título que escolhiafastará pelo menos 50% dos que poderiam chegar até o final do primeiro parágrafo, mas não posso abrir mão de seguir NgoziAdichie, escritora nigeriana, pois tanto quanto ela, acredito que só uma consciência coletiva pode nos tirar desse estado de letargia e aceitação da violência contra a mulher em nosso país.

 

 

Esta semana a Lei 11.340/06, conhecida como Lei Maria da Penha, completou 11 anos e tem proporcionado muitos avanços, sobretudo, de conscientização da própria mulher e da sociedade, embora esta percepção ainda seja muito complicada e parcial. Por outro lado, ao longo deste período o Estado criou políticas públicas e estruturas de denúncia, proteção e acolhimento às mulheres vítimas de qualquer tipo de violência.

 

 

Contudo, como tudo em nosso país, mesmo com uma legislação específica que prevê punições para cada tipo de crime praticado, continuamos muito bem posicionados no ranking da violência contra a mulher e o processo educacional tem sido lento, visto que precisamos quebrar com uma cultura de dominação masculinaque nos rege a séculos e que corre calada em nossas veias, sendo transmitida entre gerações de forma naturalizada, transformando-se em lei natural, ou seja, situa-se no lugar da percepção do que é normal.

 

 

Em 2015, o Mapa da Violência contra a mulher indicava que 13 mulheres eram assassinadas por dia no Brasil. Enquanto números de 2017 nos revelam que uma em cada 3 mulheres sofre algum tipo de violência neste país e revelam que os maiores agressores são conjunges ou namorados ou parente próximo e residente no mesmo domicílio.  Já apesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança mostra que em 2016, 503 mulheres  sofreram algum tipo de violência a cada hora no Brasil, isso nos leva a  um teto absurdo. ONDE ESTÁ A IGUALDADE?

 

 

 

Dentre as agressões mais leves, 22% das mulheres sofreram violência verbal no ano passado o que equivale a 12 milhões de pessoas. Enquanto 10% foram ameaçadas de serem violentadas fisicamente,8% foram abusadas sexualmente, já 4% foram ameaçadas com armas ( branca ou de fogo).ONDE ESTÁ A IGUALDADE?

 

 

Vale ressaltar que 1,4 milhão de mulheres foram espancadas e dessas, 1% já levou pelo menos um tiro.  ONDE ESTÁ A IGUALDADE?

 

 

A mulher negra continua liderando o ranking das vítimas no Brasil. ONDE ESTÁ A IGUALDADE?

 

 

Então não me falem que assédio de mulher é igual ou pior que assédio de homem. Então não me falem que a mulher é a culpada pelo estupro ou espancamento que sofre.

 

 

Vale ressaltar que a maioria de nós, mulheres, mesmo violentadas se cala, porque sabe o peso de ter uma sociedade MACHISTA ( não falo somente de homens, falo sobretudo, de mulheres machistas) que condena e culpabiliza a mulher pelos crimes que sofre. Em 2016 somente 11% das mulheres violentadas tiveram coragem para procurar uma Delegacia da Mulher, enquanto 13%pediram ajuda a própria família. ONDE ESTÁ A IGUALDADE ?

 

 

Todos lembram do caso da minha filha transformado em espetáculo pela mídia sensacionalista no inicio deste ano. Quantas mulheres que também sofreram assédio de qualquer tipo ( moral, sexual, virtual)  têm coragem de fazer como fizemos e processar uma figura pública? Quantas mulheres tem coragem para denunciar por assédio um médico de grande reputação? Quantas mulheres tem coragem para denunciar o professor universitário assediador e constrangedor?  INFELIZMENTE poucas, pois sabemos que antes de tudo seremos condenadas pela cultura que desde sempre imputa à mulher o mal que pratica o homem. Então o veredicto da sociedade é sempre: CULPADAS! ONDE ESTÁ A IGUALDADE?

 

 

Chego assimao título que escolhi e que plagiei declaradamente de ChimamandaNgoziAdichie: SEJAMOS TODXS FEMINISTAS!

 

 

O feminismo como já tentei explicar aqui em várias ocasiões não é um movimento antagonista ao machismo. O machismo como nos deixa claro Bourdieu é uma cultura de dominação masculina que está presente nos mínimos detalhes da vida em sociedade e que impregna todas as religiões, assim como, os processos de poder político e econômico. Não é à toa que são pouquíssimas as mulheres em cargos de poder nos campos religioso, político e econômico.  E sim muitas de nós poderiam ocupar esses cargos é verdade. Mas são apenas portas abertas para possibilidades postas e que qualquer pensamento minimalista sem o mínimo de reflexão já diz: “Ora são as mulheres que não desejam o poder”; quando na verdade, o que ocorre, é que ao optar por galgar qualquer posição de podera mulher já sabe que terá de escolher entre enfrentar a cultura machista e se impor enquanto mulher, ou se juntar a cultura machista e ajudá-la a se manter em detrimento das mulheres e do poder feminino. Então nem assim ocorre a igualdade. No geral as mulheres em posição de poder ou são as grandes mães, ou, são as loucas. Eu fico com as últimas.

 

O feminismo, por sua vez, deseja a igualdade. E porque desejo chegar a todos as mentes para converta-las em feministas? Simplesmente porque desejo a igualdade entre todos nós. Os números da violência que menciono comumente nesta coluna não mais chocam ninguém porque não tem rostos próximos. É algo que sabemos e que corre ao largo da nossa vida e, se não chega até nós ou alguém próximo, não nos incomoda porque não nos atinge. A maioria das mulheres que compõe os números que citei no inicio deste texto, são invisibilizadas pela sociedade, foram estupradas, assassinadas, mas não tem rosto e pouco sabemos de suas histórias de vida. Tudo o que sabemos é que para alguns elas são vítimas, mas para muitos elas são culpadas por serem mulheres.

 

 

Nesse sentido é que iniciativas que visam dar visibilidade as vítimas são bem vindas, pois podem sensibilizar e educar contra a prática da violência. Em entrevista ao portal Cidade Verde, a delegada Eugênia Villa revela que a violência contra a mulher tem visualidade abstrata. “Mas, quando mostramos os rostos da violência, mulheres que são assassinadas a pancadas enquanto estão dormindo, que têm o bico do seio arrancado, que são estupradas antes de serem mortas, que são assassinadas com uma facada nas costas ou quando o agressor mata, cobre o rosto da vítima com uma toalha,  toma banho e sai como se nada tivesse acontecido, tudo isso, fica concreto, visível”. E é com essa ideia de tornar visível e tirar do silenciamento as mulheres vitimizadas que a delegada propôs e está realizando junto com o coletivo cultural Salve Rainha, um painel em que 27 jovens artistas visuaisestão retratando 27 mulheres vítimas de violência extrema. 

 

São iniciativas como estas que unem arte e denúncia que podem fazer a diferença e quem sabe nos transformar em feministas.                                          


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