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Sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

VC no Acesse

acessepiaui@hotmail.com

14/12/2020 - 08h05

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14/12/2020 - 08h05

A GATA SONSA

Dia desses, avistei-a em minha aldeia. O tempo maltratou-a sem dó nem piedade. Mas, nos olhos, permanece o mesmo brilho sinistro.
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Era sonsa, dissimulada, sagaz. Uma típica gata vira-lata. Zanzava pelo bairro Aldeia, sempre descalça, vestido com a barra descosturada, cabelo em desalinho... A despeito disso ou, talvez por isso, era dona de uma beleza agreste e tinha um brilho sinistro nos olhos. O que importa: eu morria de amores por ela.
            
Aparecia em minha casa nos momentos mais inconvenientes, sem se fazer anunciar. Com incrível sem-cerimônia, entrava, comia os doces de dona Purcina, fazia-me uns agrados e desaparecia. Fazia o mesmo com outros garotos do meu tope. O pai aplicava-lhe surras homéricas sem maiores resultados.
            
Uma noite, enquanto eu tentava vãmente descobrir as diferenças entre vocativo e aposto, entrou sorrateiramente, sentou-se à minha frente com o rosto bem próximo ao meu. De supetão, perguntou: “Você me ama?”. À época, a palavra amor era usada com certa parcimônia. Ademais, a pergunta inopinada era brochante, para dizer o mínimo. Eu devo ter dito que sim. Ela, com um sorriso diabólico nos lábios, disparou: “Prove!”.  Antes que eu pudesse esboçar uma reação, disse: “Tire a lâmpada do bocal”. Como um autômato, obedeci. A saleta ficou mergulhada na penumbra. Ela pegou um garfo de metal e disse: “Enfie no bocal”. Sem pensar, cumpri a ordem fatal. Por sorte, a corrente elétrica era fraquíssima (produzida por um gerador ordinário) e soltei o garfo antes do toque no metal. O que se seguiu foi uma explosão colossal, escuridão total. Queimaram-se todos os fusíveis do bairro. Num átimo, a zinha escafedeu-se. Dona Purcina encontrou-me meio desorientado, mas lúcido o bastante para dizer: a lâmpada explodiu.
            
Dia desses, avistei-a em minha aldeia. O tempo maltratou-a sem dó nem piedade. Mas, nos olhos, permanece o mesmo brilho sinistro. Por precaução, afastei-me rapidamente: já não tenho idade para morrer de amor.
                       
(fragmento de O aldeão Lírico)

***
Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais. 

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