Eu teria pouco mais de vinte anos de idade quando fui abordado por uma cartomante decrépita. Sem que eu lhe solicitasse os préstimos, segurou minha mão e disparou: “O senhor tem alma nova, por isso essa agoniação no juízo”. Fez uma pausa ensaiada e concluiu: “Há de morrer muito moço”. Não bastasse a previsão sinistra, ainda me levou cinco cruzeiros...
Diante de prognóstico tão auspicioso, tomei a seguinte decisão: se vou durar pouco, preciso viver muito. E atirei-me na vida com tal sofreguidão que não me sobrou tempo para sofrer. Por amor à verdade, a vida tem sido caroável comigo: as vergastadas que me aplicou foram suportáveis. Como carrego o gene do Homo Faber, fiz um dilúvio de coisas, algumas aproveitáveis. Essa labuta incessante me rendeu o respeito de muitos e o afeto de alguns. Para alguém do meu tope, está bom.
No domingo (20/09/26), o calendário me disse que cheguei aos 78 anos de idade, um número simpático. Sem queixas nem mágoas, eu poderia repetir o poeta Bandeira: “O meu dia foi bom, pode a noite descer”. Pensando bem, vou replicar Santo Agostinho: “mas não precisa ser agora, Senhor”. Assim seja.
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.





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