Durante meses, Flávio Bolsonaro tratou o fim da escala 6x1 como conto de fadas eleitoral de Lula. Chamou a proposta de “oportunista”, ironizou a promessa e fugiu de assumir posição. Bastou o segundo turno entrar no radar para um milagre ser operado: agora ele promete votar a favor nesta quarta. Diz que ouviu a população (78% dos brasileiros querem trabalhar menos sem perder salário). Antes tarde do que nunca, diriam as avós. Antes da eleição do que depois, corrigiriam os marqueteiros.
A campanha bolsonarista, claro, já prepara propaganda para apresentá-lo como pai da mudança. É o sujeito que tenta parar o trem e depois corre para aparecer na foto da locomotiva. Só que, segundo Gabriela Echenique, da Folha, Flávio garantiu a empresários que, se eleito, defenderá revisar a PEC. Vota hoje para desmanchar amanhã: uma face para o trabalhador, outra para o patrão.
O roteiro está no entorno dele. Rogério Marinho, coordenador da campanha, propôs a PEC da Hora Trabalhada e defende dar mais força ao acordo individual entre empresa e empregado, atrelando jornada menor a salário menor. Chamam de liberdade. Mas quem pode demitir negocia em pé de igualdade com quem precisa pagar o aluguel? É a velha “flexibilidade” do “se não quiser, tem quem queira”. Sem sindicato no meio, o que se desenha é uma negociação caracu: o patrão entra com a cara, e o trabalhador com a curiosidade de como irá sobreviver.
Flávio ainda diz que o governo bancará a compensação aos empresários. O trabalhador ganha descanso, mas pode acabar pagando a conta com seus impostos.
Ao prometer uma coisa nas câmeras e outra nos gabinetes, o senador entrega a Lula o discurso pronto: foi o governo que empurrou a pauta, enquanto o bolsonarismo zombava dela. E, para não perder o direito recém-conquistado, o eleitor teria de impedir a revisão, que só não vai acontecer se Lula ganhar. Flávio quer agradar a patrões e empregados ao mesmo tempo. Esquece que quem tem boleto também tem título de eleitor.
*****
Leonardo Sakamoto, jornalista - nas redes sociais.





Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião desta página, se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.