Aproveitando que o INSS entrou na pauta por conta da tungada criminosa através de descontos ilegais em aposentadorias e pensões, vale ressaltar que há uma ameaça ainda maior sobre quem depende da Previdência Social: a desvinculação dos benefícios do salário mínimo. O atual governo garante que isso não vai rolar. Mas a pressão é grande.
Em nome da saúde das contas públicas, muita gente boa crescida no leite de pera defende que aposentadorias e pensões deixem de ser vinculadas ao salário mínimo, hoje em 1.518 cascalhos. Desvincular significaria que o reajuste anual desses benefícios ocorreria apenas pela inflação ou, talvez, nem isso. Com o passar dos anos, a situação distanciaria o seu valor do mínimo vigente - que voltou a ter ganhos reais, ou seja, acima da inflação, desde o início do terceiro governo Lula.
Isso atingiria também BPC, pago a idosos e pessoas com deficiência em situação de pobreza extrema, o seguro-desemprego, o seguro-defeso, o seguro-desemprego especial aos resgatados da escravidão.
Em entrevista que nos concedeu, Lula afirmou que seu governo não iria desvincular. O ministro da Fazenda Fernando Haddad me confirmou que a desvinculação não estava nas prioridades do governo.
Mas a defesa da pauta entre atores do mercado e seus representantes na mídia é forte. Toda vez que se discute a questão fiscal, a desvinculacão entra na pauta ao lado da redução de gastos obrigatórios em educação e saúde públicas - gastos que beneficiam os mais pobres. É fato que os déficits da Previdência Social vêm aumentando, mas há centenas de bilhões em subsídios aos mais ricos que deveriam ser cortados antes disso.
O caso da roubalheira no INSS precisa de xilindró aos envolvidos e devolução total (e com correção monetária) do que foi subtraído. Mas constrói-se, aos poucos, e silenciosamente, a ideia de que o Brasil não aguenta pagar o mínimo para garantir uma vida digna de quem não está na ativa. Essa safadeza é muito, muito maior!
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Leonardo Sakamoto é jornalista e colunista do Uol - nas redes sociais.
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