Agora, no dia 14 de novembro p.p., o IBGE e a SEPLAN-PI divulgaram os dados sobre o PIB (Produto Interno Bruto) do Piauí referente a 2023. É o 21º ano de divulgação do PIB de todas as Unidades da Federação, calculado segundo a mesma metodologia, alinhada com os padrões internacionais. Isso permite fazermos a análise de uma série histórica e, ao mesmo tempo, uma análise comparativa.
Tenho feito esse exercício nos últimos 10 anos. E alguns leitores sempre reagem: “mas o PIB não diz tudo, a Renda per Capita não mostra a desigualdade”. É verdade. Nenhum indicador, e mesmo nenhum índice (síntese de indicadores), diz tudo. Mas, o PIB e o PIB per capita continuam a “porta de entrada das estatísticas”. Além disso, o PIB se baseia numa base de dados imensa, talvez só perda para o Censo Demográfico; de fato, é “um grande índice” mais do que um indicador; tanto assim que pode ser desagregado por setores.
Fundamental são as hipóteses sobre as razões do indicador ser determinado valor. Algumas vezes são hipóteses que precisam ser melhor investigadas.
Qual o valor do PIB do Piauí em 2023? Em valores correntes, o PIB do Piauí em 2023 foi de R$ 80.917.000.000,00 (oitenta bilhões e novecentos e dezessete milhões de reais).
Qual foi o crescimento do PIB de Piauí de 2022 para 2023? E o do Brasil? O PIB do Piauí cresceu de 2022 para 2023, 3,1%, logo, abaixo do crescimento do Brasil que foi 3,2%. Como não existe “empate técnico” do PIB, ficamos abaixo da média nacional. Nos 21 anos, um crescimento menor do PIB do Piauí já aconteceu; a última vez foi em 2012. De lá pra cá, sempre crescemos mais que o Brasil. Vamos aguardar os valores de 2024 para ver se aponta para uma tendência.
Qual o crescimento acumulado do PIB do Piauí de 2002 para 2023? O crescimento tem tido bastante consistência. O PIB do Piauí cresceu 111,8%, mas perdeu duas posições: até 2022 ocupou o quarto melhor desempenho no país e primeiro do Nordeste; em 2023, ficou em sexto lugar, atrás de Mato Grosso (187,5%), Tocantins (173,1%), Roraima (151,6%), Acre (122,0%) e Mato Grosso do Sul (112,85), continuando o primeiro do Nordeste.
E a evolução do PIB per capita? Desde que se começou a calcular o PIB e o PIB per capita no Brasil – anos 1940 – o Piauí ocupou por muitos anos a última posição entre os estados. Em 2015, o Piauí passou a ocupar a 26ª posição e o Maranhão a 27ª. Em 2022, o Piauí sobe para a 25ª posição, à frente da Paraíba e do Maranhão. Essa situação se mantém em 2023: 25ª – Piauí com R$ 24.736,15 de PIB per capita anual; 26ª – Paraíba, com R$ 24,395,17; 27ª – Maranhão com R$ 22.020,63.
Em 2002, o PIB per capita do Piauí era 29% do PIB per capita nacional; em 2023 é de 46%. Uma melhora significativa. Mas, se crescermos o dobro do Brasil cada ano, vamos igualar a média nacional em mais de 50 anos.
E como tem sido a evolução dos demais estados? Este é o grande problema: em 21 anos, a desigualdade tem se reproduzido ou se reduzido muito pouco.
O Distrito Federal permanece com o maior PIB per capita: em 2023, R$ 129.790,44, mais do dobro da média do Brasil (R$ 53.886,67). Consequência da concentração da elite política dos três poderes no DF, mais do que de dinamismo econômico.
Apesar das variações conjunturais em alguns anos, os “grandes” continuam os mesmos: São Paulo, na 2ª posição, com renda per capita anual de R$ 77.566,27; Rio de Janeiro sempre na 4ª posição, com R$ 73.052,55; Santa Catarina na 5ª posição, com R$ 67.459,74; Rio Grande do Sul na 7ª posição, com R$ 59.736,20; Paraná na 8ª posição, com R$ 58.624,33. Em 2023 melhorou a posição do Espírito Santo que ficou na 9ª posição, com R$ 54.732,78. Todos esses estados têm um PIB per capita maior do que a média do Brasil.
As grandes mudanças significativas de posição são os estados de Mato Grosso, que da 11ª em 2002, avançou para a 3ª posição com R$ 74.620,05 e Mato Grosso do Sul que mudou sua posição da 20ª para a 7ª, com R$ 66.884,74 de PIB per capita anual. Portanto, também acima da média nacional.
Minas Gerais e Goiás ocupam uma posição intermediária, em geral entre 10ª e 12ª posição. É o caso de Rondônia na 10ª posição e do Tocantins que atingiu a 13ª posição, quando em 2022 ocupava a 21ª.
Seguem-se os outros estados do Norte: Amazonas, 14ª posição; Roraima, 15ª; Amapá, 16ª; Acre, 17ª e Pará, 18ª posição.
Nesses 21 anos, os nove estados do Nordeste permanecem ocupando as últimas posições na classificação do PIB per capita. Apesar de nos últimos anos, terem crescido mais que estados do Sudeste e Sul, partiram de um patamar muito baixo.
O quadro de 2023 praticamente não se alterou em relação a 2022: Rio Grande do Norte saiu da 20ª posição e foi para a 19ª; Bahia fez o movimento contrário, da 19ª posição para a 20ª; Pernambuco permaneceu na 21ª posição; Alagoas saiu da 23ª posição para a 22ª; Sergipe, ao contrário, saiu da 22ª posição para 23ª; o Ceará permaneceu na 24ª posição. Sobre as posições do Piauí, Paraíba e Maranhão já foi comentado acima.
Continuam a existir os Fundos de Desenvolvimento Regional (FDR) administrados pelo BNB para o Nordeste, Banco da Amazônia para o Norte e acho que BRB para o Centro-Oeste. São fundos vinculados ao investimento. O FPE e o PPM terminam sendo gastos em custeio. E o mesmo com as rendas sociais (Bolsa Família, BPC e auxílios), além das aposentadorias e pensões. Ou seja, as rendas transferidas para o Nordeste e o Norte são mais de custeio que de investimento. A desigualdade muda de patamar, mas se mantém: Política Social forte e Política de Desenvolvimento Regional fraca.
A produção das energias eólica e solar são um “enclave”: são produzidas aqui, e compradas em outras regiões, onde o dinheiro circula e dinamiza a economia. Sem falar que o imposto é recolhido no lugar de consumo. Mas isso não é um problema tão grave quanto o primeiro, tanto assim que vai ser universalizado com a Reforma Tributária.
O mesmo acontece com os minerais e com a produção de grãos, sobretudo no MATOPIBA. A renda do que é produzido é apropriado por capital que se reinveste, em sua maior parte, fora do Nordeste. Além da isenção fiscal, quando os grãos são exportados. Sem agregação de valor na produção primário-exportadora, agora batizada de commodities, o PIB não cresce significativamente.
O Piauí enfrenta esses problemas que são enfrentados por todos os estados do Nordeste e do Norte. Mas, precisamos olhar para nossas especificidades.
Os setores dinâmicos da economia: a agropecuária cresceu de 6,8% do PIB do Piauí em 2002 para 13,2%; a eletricidade (e saneamento) cresceu de 0,6% para 4,4%, no mesmo período.
Isso significa que a mineração já iniciada em Piripiri não foi captada no PIB de 2023; e a grande mineração em Paulistana continua esperando a conclusão da Transnordestina.
A intenção do salto industrializante e infraestrutura do novo governo, em 2023, não impactaram o PIB. Se bem que o hidrogênio verde não deixa de ser comodities, mas deve ter impacto grande. É um investimento de demorada implantação e maturação. É preciso acompanhar mais detalhadamente o que já avançou no Porto de Luís Correia e na ZPE (Zona de Processamento de Exportação).
Os empréstimos do governo estadual têm crescido; têm também um período de maturação. E sua destinação precisa também de uma análise mais empírica e detalhada.
Hoje ficamos por aqui. No dia 12 de novembro, participei de um Seminário sobre Política de Desenvolvimento Regional, com a presença de um professor da UNICAMP, promovido pela Pós-graduação de Ciência Política e Sociologia da UFPI. Muitas informações e ideias interessantes. A UFPI, a UESPI e o IFPI precisam entrar no debate público sobre caminhos do desenvolvimento do Piauí. O desenvolvimento não cabe apenas em um programa de governo ou PPA, por melhores que eles sejam.
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Antonio José Medeiros, Sociólogo, da Equipe do Instituto PRESENTE






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