Decididamente, não gosto das alegrias compulsórias. Trocando em miúdos, não me agrada a obrigação de ser ou parecer feliz porque o momento assim o exige. Guimarães Rosa tinha razão: “felicidade se acha é em horinhas de descuido.
Ao que importa: ontem à noite, enquanto as multidões cantavam, dançavam, bebiam e berravam, eu estava deitado na minha rede preferida, na melhor das piores companhias: Charles Bukowski. Estava terminando a leitura de “Vida e loucuras de um velho safado”, livro Howard Sounes. O autor, um jornalista inglês, conseguiu a rara proeza de escrever uma biografia na qual o biografado está inteiro, sem retoques. A maior dificuldade de escrever um livro sobre o velho Hank é que toda a obra dele tem caráter autobiográfico. Ainda assim, o livro é instigante e revela facetas pouco conhecidas do biografado. Dois exemplos: o primeiro, na juventude, Bukowski andou flertando com o nazismo; o segundo, a despeito da vida desregrada, o “velho safado” foi um pai presente e carinhoso com a filha Marina Louise. Bukowski era imprevisível.
Alheio à queima de fogos, aos berros do pessoal da Globo, aos tiros que enlouquecem os cães, eu nem me dei conta de que o ano-novo já mostrava os dentes. O ano já nasce com um herança por demais pesada para administrar. De repente, começa chover. Foi aí que me lembrei de uma garrafa de vinho do Porto, presente uma bela amiga. Levantei-me, bebi uma taça de vinho, deitei-me novamente e deixei que a “chuva amorosa” me acariciasse os sentidos... Não me lembro de ter vivido um réveillon melhor. O que devo acrescentar? Irmãos e irmãzinhas, vamos ajudar o ano-novo fazer a sua parte. Assim seja.
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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