Por ingenuidade ou desinformação, há quem acredite que, entre nós, as sementes do mal foram semeadas pelo “inominável”. Nada mais equivocado. Até onde se sabe, Satã ainda não escolheu o seu sucessor. O que o “abominável” fez, com arrogância e desenvoltura, foi proclamar: “não se reprima, não se policie, não se constranja em exercer a maldade que já existe em sua alma”. Evidentemente, em nome de uma boa causa: Deus, pátria, família e liberdade. Nada além. Não vou verter aqui sabença que não tenho. Mas recomento a leitura de Clóvis Moura, Jessé de Souza e Florestan Fernandes, um bom começo.
Mas vamos ao que importa: durante uma manifestação pró-Flávio, no Rio de Janeiro, um manifestante corpulento, fantasiado de ararajuba, conduzia, acorrentado, um infeliz negro, vestido de vermelho e preto, com o número 13 gravado na camisa. Diante da repercussão negativa da alegoria, o protagonista desculpou-se: “Não sou racista; era apenas uma sátira, uma brincadeira. O acorrentado era o Lula, que é o demônio”. A explicação, digna de um ruminante, não convenceu os órgãos que investigam o caso.
A cena me remeteu a uma foto famosa, “Todos negros”, do fotografo Luiz Morier, publicada na época da ditadura (1978), na qual policiais militares conduzem jovens negros, amarrados pelo pescoço, num morro do Rio de Janeiro. A foto premiada correu mundo.
Lembrança puxa lembrança: de repente, lembrei-me de Galdino de Jesus dos Santos, o indígena Pataxó, queimado vivo, no dia 20 de abril de 1997, por cinco rapazes brasilienses, um deles filho de um ministro. Galdino estava em Brasília com outros companheiros, aproveitando a comemoração do “Dia do Índio”, para reivindicar a demarcação de suas terras na Bahia. Errou o endereço da pensão onde estava hospedado, dormiu no banco de uma parada de ônibus da capital federal. acordou, na madrugada, convertido em “tocha humana”. Presos (apreendidos) os rapazes alegaram ser apenas “uma brincadeira”. O advogado de um deles afirmou que os rapazes não sabiam que a vítima “era um índio; pensaram que fosse apenas um mendigo”. Atentem para o advérbio APENAS.
Para mim, a mais clara revelação do que somos capazes deu-se numa escola de ricos de Teresina. Um grupo de professores discutia o assunto quando a diretora da escola apareceu. Sem pestanejar, afirmou: “Eu fico imaginado o sofrimento das mães desses rapazes”. Mais claro, impossível.
Conclusão: esse Brasil não foi inventado pelo “inominável”; é fruto de 300 anos de regime escravocrata, chaga que se mantém muito acesa. Quanto ao golpista que tentou solapar o Estado de Direito (08/01/23), não tem a importância que lhe atribuem. Um “mito” de cabeça oca e os pés de barro. Na verdade, não passa de um prisioneiro comum que, como tal, deve ser tratado. Nada além.
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.





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