Quem é sertanejo ou morou no sertão não estranhará o título da crônica. O cancão (gralha-cancã) é uma ave esperta, com um canto agudo e um apetite insaciável. “A gralha-cancã é onívora, comendo tudo, desde artrópodes, insetos, frutos, inclusive de várias cactáceas à ração de galinha, se acessível. Alimenta-se também de pequenos roedores, pequenas cobras, peixes e até outras aves menores; a gralha-cancã é uma ave “fria” que mata suas presas com diversas pancadas na cabeça”. Como se pode ver, é bem parecido conosco. Tem uma qualidade: é uma eficiente dispersora de sementes. Assim, não causa espécie encontrar-se no meio da chapada um viçoso pé de milho. É o chamado “milho de cancão"
Ao que importa: mão desatenta ou pássaro em fuga deixou cair um grão de milho numa nesga de chão entre uma calçada e um desses esgotos que correm a céu aberto nas ruas de Teresina. Solo rico em matéria orgânica, a semente germinou rapidamente. Em pouco tempo, um belo pé de milho incorporou-se à paisagem. Como passo pela rua diariamente, passei a acompanhá-lo com o mais vivo entusiasmo. Filho de lavrador, sei perfeitamente o que significa cuidar de lavoura de milho: muito trabalho e grandes incertezas. Se faltar chuva quando o milho está pendoando, tudo perdido...
Torci para que o serviço de limpeza pública não passasse por ali. O pé de milho, solitário e imponente, crescia viçoso. Uma manhã, apareceu pendoado. Parei para fotografá-lo. Incontinenti, lembrei-me de uma crônica antológica de Rubem Braga. A crônica deu título a um dos livros do escritor: Um pé de milho. Não resisto à tentação de transcrever um fragmento: “Um pé de milho sozinho, em um canteiro espremido, junto do portão, numa esquina de rua - não é um número numa lavoura, é um ser vivo e independente. Suas raízes roxas se agarram no chão e suas folhas longas e verdes nunca estão imóveis. Detesto comparações surrealistas - mas na lógica de seu crescimento, tal como vi numa noite de luar, o pé de milho parecia um cavalo empinado, de crinas ao vento e em outra madrugada, parecia um galo cantando”.
Minha alegria durou pouco: antes que o “meu” pé de milho gerasse a “boneca” que se transforma em espiga, mão violenta o quebrou impiedosamente. Confesso que sofri como sofria ao ver, tantas vezes, a lavoura de milho do meu pai completamente perdida... Para evitar sofrimentos diários (já não tenho idade para sofrer), alonguei o caminho: deixei de passar pela rua, que fica bem próxima à minha casa. Na minha memória, um pé de milho morto clama por vingança...
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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