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Sabado, 07 de março de 2026
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cantidiosfilho@gmail.com

03/02/2026 - 05h25

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03/02/2026 - 05h25

Galo na Cabeça

 

"Espero que essa geração de sem-galo seja mais feliz, mais tolerante"...

 "Espero que essa geração de sem-galo seja mais feliz, mais tolerante"...

Numa dessas noites escaldantes que infernizam a vida dos teresinenses, busquei refrigério no quarto do meu filho onde o ar-condicionado funciona. Nenhum problema à vista: meu filho é um garoto sossegado, sério demais para o meu gosto, caladão. Ademais, dorme como o Garfield. A placidez do seu sono contagiou-me. Dormi de uma assentada até as cinco da manhã quando fui acordado por um ruído estranho, metálico, que lembrava vagamente o canto de um galo. Apurei o ouvido para certificar-me de que não estava sonhando. Era o canto de um galo, sim. Um galo rouco, "goguento", talvez. Aquele canto inusitado me deixou perplexo.

Moro na Lemos Cunha há mais de 40 anos. Nela, já vi um punhado de bichos estranhos: um casal de rasga-mortalha, duas ou três mucuras, um cuandu e até mesmo um filhote de búfalo tresmalhado. Galo, nunca! Decididamente não há galos na Lemos Cunha, pelo menos no trecho onde moro. O canto despertou meu filho, que estendeu o braço e “desligou” o galo. Era apenas o despertador do seu celular. Um galo virtual, se é que tal bicho existe. O certo é que o canto metálico escorraçou-me o sono e me fez aflorar à mente uma avalancha de lembranças adormecidas. A mais antiga delas remonta à meninice. Quando fazíamos o percurso entre Campo Formoso (no sertão do Caracol) e São Raimundo Nonato, às vezes, pernoitávamos na casa de um tio, que morava num lugarejo (já deve ser cidade) denominado Tranqueira. Obrigados a levantar muito cedo, éramos brindados com a clarinada dos galos, um espetáculo inesquecível. Parecia que todos os galos do mundo se reuniam ali para um concerto matinal. "De canto, luz e magia, teciam-se as manhãs de antanho", diria um poeta saudosista. Depois, ocorreu-me a lembrança de uma pequena fábula, em verso, num manualzinho de francês, adotado no ginásio. Era a história de um galo pretensioso e ingênuo que acreditava ser o seu canto o guindaste que levantava o sol para acender as manhãs. Uma noite, dormiu um pouco mais; quando acordou, o sol já brilhava no céu. Desencantado, nunca mais cantou. Finalmente, lembrei-me do belo poema “Tecendo a Manhã”, de João Cabral de Melo Neto, que se inicia com os versos: “Um galo sozinho não tece uma manhã: / ele precisará sempre de outros galos”.

Sem sono e sem planos, comecei a pensar nos milhares (talvez milhões) de meninos e meninas que crescerão sem jamais ouvir o canto de um galo de verdade. É até possível que, com os avanços da engenharia genética, os galos, como os outros machos, por obsoletos, deixem de existir.

De coração, espero que essa geração de sem-galo seja mais feliz, mais tolerante, mais pacífica e, principalmente, mais sensata que a minha. De qualquer forma, por mais alegres que sejam as suas vidas, sempre lhes faltará a bela e agreste poesia que o canto dos galos encerra. Bandeira Tribuzi tem razão: “Só a tensa garganta dos galos /tem a aguda ciência das horas”.

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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.

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