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Sexta-feira, 06 de março de 2026
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cantidiosfilho@gmail.com

19/02/2026 - 05h11

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19/02/2026 - 05h11

Espero a Chuva Cair de Novo

 

"Sinais presentes na Natureza para saber se teríamos chuva ou não."

 "Sinais presentes na Natureza para saber se teríamos chuva ou não."

Antes da semeadura dos grãos, era necessário fazer a leitura dos sinais presentes na Natureza para saber se teríamos chuva ou não. Uns insistiam na experiência das pedrinhas de sal; outros esperavam a floração dos mandacarus; muitos liam os sinais na barra do amanhecer... Seu Liberato, por exemplo, ficava sempre atento à posição do ninho do João-bobo. A mais insólita das leituras era a da Velha Zabel. De repente, com sua voz aflautada, afirmava: “Chove daqui pra manhã. Meu olho de peixe está formigando”. O tal “olho de peixe” era um calo seco, na planta do pé, que lhe doía quando a umidade do ar aumentava.

Para quem não conhece as agruras do semiárido tudo isso não passa de superstição boba. Para os sertanejos, a chuva vai muito além de simples fenômeno natural; tem uma dimensão divina. Não por acaso, no sertão, reza-se para chover. Em Campo Formoso, chovia pouco. Meu pai tinha o maior cuidado em manter as grotas que levavam água ao barreiro (que chamávamos de Fonte) sempre limpas, desobstruídas. Nenhuma gota de chuva poderia ser desperdiçada. Aliás, o único espaço cercado e com cadeado na porteira era justamente a Fonte. Ninguém podia entrar ali sem a expressa autorização do meu pai.

Quando saí do sertão, impus-me uma tarefa indeclinável: escrever um poema capaz de traduzir o que a chuva significa para mim. Infelizmente, faltam-me engenho e arte. Minha angústia findou quando abri o livro A Província Deserta, de H. Dobal, e deparei-me com o soneto “As chuvas”, que se inicia assim: “Nas mãos do vento as chuvas amorosas/Vinham cair nos campos de dezembro, / E de repente a vida rebentava/Na força muda que as sementes guardam”. Com simplicidade e beleza, o poeta diz o que eu jamais conseguiria dizer. O soneto “As chuvas” me representa; a mim e a milhares de sertanejos como eu. E ainda há quem pergunte para que serve a poesia.

(Fragmento de O aldeão Lírico)

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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais. 

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