Facebook
  RSS
  Whatsapp
Sexta-feira, 06 de março de 2026
Colunas /

Cultura

Cultura

cantidiosfilho@gmail.com

28/02/2026 - 05h38

Compartilhe

Cultura

cantidiosfilho@gmail.com

28/02/2026 - 05h38

O Flanelinha que lê Dobal

 

Leia, professor”. Antes de retirar-se, declarou: “Eu gosto de poesia” (Foto: Cineas Santos)

 Leia, professor”. Antes de retirar-se, declarou: “Eu gosto de poesia” (Foto: Cineas Santos)

Certa feita, eu transitava na Rua Paissandu quando, na altura do Lineu Araújo, foi abordado por uma flanelinha. Idade inescrutável, magro, barba mal cuidado, um tanto agitado. Preparei-me para a “facada”. Em vez de me pedir “um trocado”, o moço retirou do bolso umas folhas de papel amarrotadas e me entregou. Em tom imperativo: “Leia, professor”. Antes de retirar-se, declarou: “Eu gosto de poesia”.

Em casa, li a versalhada. Na verdade, mais confissão que poesia. De qualquer forma, no meio daquele amontoado de versos confusos, vez que outra, fagulhava um verso cristalino, coisa de que leu poesia...

Como transito pouco por aquela bandas, esqueci-me do cidadão. Muito tempo depois, voltei a encontrá-lo no mesmo local. Aproximou-se e cobrou: “O senhor leu os meus poemas”? Como já não me lembrava de quase nada, fiz duas ou três observações vagas e preparei-me para sair. O moço, muito agitado, afirmou: “Quero lhe pedir uma coisa”. Esperei: “ Algum livro do H. Dobal ou do Mário Faustino”. Um pedido insólito, digamos. No dia seguinte, voltei lá com dois livros, O tempo consequente, de Dobal, e A literatura em curso, uma seleta com poemas de Faustino. O Manoel – é este o nome do cidadão – iluminou a manhã com o seu melhor sorriso.

Fiquei curioso. Um flanelinha lendo Faustino e Dobal... Uns dois dias depois, estacionei o carro próximo do local onde o Manoel trabalha e aguardei. Não demorou nada, ela apareceu. Brandindo O tempo consequente. Não se conteve: “Este poeta é preciso!”. Acreditem, foi a melhor definição que já ouvi sobre o poeta Dobal.

Muito tempo depois, fui contratado para ministrar um curso na Medplan. Lá estava o Manoel, mais magro, mais agitado, envelhecido. Conversamos um pouco e o flanelinha me falou de sua vida: do casamento desfeito, do filho formado em história, da luta contra as drogas... Ficamos amigos. A cada dois dias, eu levava um livro novo para o Manoel. Uma tarde, convidei-o para participar do programa “Feito em Casa”. O moço chegou no horário combinado. Limpo, barbeado e com uns poemas novos numa folha de papel. Rendeu-me uma excelente entrevista. Com desenvoltura, Manoel falou de quase tudo. No final da conversa, pediu-me que lesse um poema dele. No que foi prontamente atendido. A entrevista teve certa repercussão.

Faz um tempinho que não vejo o Manoel. Dia desses, parei no local onde costumava encontrá-lo e perguntei por ele a outro flanelinha. O rapaz sorriu e afirmou: “Anda por aí. Aquilo é doido...”.

Se alguém tiver notícias do Manoel, por favor, me avise. Um cara que, na situação dele, lê boa poesia é alguém especial. Muito especial, mesmo.

***

Este texto foi publicado em 2020. Encontrei-o nas "lembranças" do Facebook. Eu estava lendo quando recebi a mensagem de uma amiga - Maria da Costa e Silva - com um foto do Manuel ao lado de uma bela jovem que o resgatou das ruas. Irene Arêa Leão é o nome da moça, que pertence a um grupo religioso. Mais uma vez, Manoel terá a oportunidade de sair das ruas. Deus seja louvado.

*****
Cineas Santos é pofessor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.

Comentários