Dona Purcina saiu de cena há mais de 20 anos, mas continua me surpreendendo. Na semana passada, estive em São Raimundo Nonato, e dona Dezinha, minha irmã, me mostrou uma pedra polida, artefato usado pelos indígenas para macerar alguma coisa. A pedra fora encontrada na Serra Branca e está em nossa casa há muitas luas. Eu me lembrava da pedra; de sua utilidade, não.
A Dezinha me contou que, quando algum de nós apresentava sinais de defluxo (gripe), dona Purcina preparava um “xarope de pedra”: era tiro e queda. A beberagem era preparada assim: numa panela de ferro, a velha punha camadas de raspa de rapadura e folhas de marmeleiro, maduras. Enquanto isso, sobre brasas acesas a Matriarca punha a pedra polida. Quando já estava bem quente, adicionava um pouco de água e botava a pedra na água que, naturalmente, fervia. Cobria a panela, deixava a mezinha esfriar e nos obrigava a beber.
Desconheço as propriedades medicinais do “xarope”, mas posso testificar que nenhum de nós morreu de defluxo. Coisas de dona Purcina.
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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