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Quinta-feira, 23 de abril de 2026
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Cultura

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cantidiosfilho@gmail.com

02/04/2026 - 05h23

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02/04/2026 - 05h23

Não Era Mentira

 

"Gostaria que tudo não tivesse passado de uma simples mentira de 1º de abril..."

 "Gostaria que tudo não tivesse passado de uma simples mentira de 1º de abril..."

Na remota década de 1960, estudei no vetusto Ginásio Dom Inocêncio, em São Raimundo Nonato. O projeto pedagógico do colégio se sustentava no tripé: disciplina, religiosidade, patriotismo. À época, era dirigido por padres espanhóis, da Ordem Mercedária, alguns franquistas declarados. Tinham verdadeira obsessão pelas comemorações cívico-religiosas. Nos feriados nacionais, obrigavam-nos a vestir uma ridícula “farda de gala” para ouvirmos dilúvios de discursos, na famosa “Rodinha do Bitoso”, no centro da cidade.

Uma tarde, no dia 1º de abril de 1964, o sino da capelinha começou a tanger. Pensei tratar-se da morte de alguém graúdo. Mas o dobre era festivo e não dolente. De repente, o padre Carlos Martinez, com seu narigão à Raul Cortez, adentrou a sala resoluto. Como de praxe, nos levantamos preparados para ouvir alguma reprimenda. Em tom solene, o diretor afirmou: “Deus seja louvado: o Brasil livrou-se do comunismo! Vocês estão liberados”. Livres do comunismo e da insuportável aula de matemática, arranjamos uma bola de borracha e improvisamos um “racha” na pracinha em frente ao Ginásio. Como em qualquer pelada que se preze, a advertência: “do pescoço pra baixo, tudo é canela”. Não sei como terminou o jogo, não me lembro se ganhei ou se perdi. O que nunca esquecerei: nos 21 anos que se seguiram, perdemos todas. Nada contra os que decidiram comemorar o 31 de março. Particularmente, eu gostaria que tudo não tivesse passado de uma simples mentira de primeiro de abril...

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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais. 

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