Aos poucos, as crianças foram-se adornando do SALIPI. Tivemos de elaborar uma programação especial para contemplá-las. Alugamos um pequeno circo, com palhaços, malabaristas, cantadoras de histórias e tudo mais.Eram tantas que cada sessão não poderia durar mais de uma hora. As filas de espera cresciam. Por sorte, a professora Jasmine Malta incorporou-se ao grupo e passou a tomar conta dos miúdos.
Apesar do barulho e do sucesso, um detalhe me incomodava: as crianças contempladas tinham, quase todos, o mesmo perfil: eram brancas e estudavam em escolas da rede privada de ensino. Decidimos então buscar uma parceria com o SETUT (Sindicato das Empresas de transporte Urbano de Teresina) Foi a melhor das parcerias que firmamos. A cada duas horas, uma dezena de ônibus despejava no Centro de Convenções bateladas de alunos da periferia da cidade.
Eram crianças pobres que jamais sonharam com a possibilidade de visitar um espaço tão bonito. As professorinhas se desdobravam para controlar a molecada. Finalmente, estávamos atingindo um dos objetivos perseguidos pelo SALIPI: cursos e palestras para professores (o Língua Viva) e atividades lúdicas para as crianças.
Numa tarde, ao chegar ao Centro de convenções, mal pude entrar: centenas de crianças visitavam estandes, participavam das atividades destinadas a elas, corriam, barulhavam. Ao me ver entre a molecada, uma livreira disparou: “ Só mesmo da cabeça de jerico do Cineas poderia ter nascido a ideia de encher este espaço com crianças pobres, sujas, fedorentas que não compram nada e atrapalham o nosso negócio". O disparo foi feito para que eu pudesse ouvir.
Aproximei-me da senhora e, com ensaiada naturalidade, afirmei: minha senhora, por favor, não me faça chorar. Como diria o poeta Manoel de Barros ao ser "elogiado" de imbecil, sou muito fraco para elogios. Parafraseando Quintana, a senhora passou; as crianças passarinhos...
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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