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Quarta-feira, 29 de Jul de 2026
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cantidiosfilho@gmail.com

29/07/2026 - 10h22

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A Força do Piauiês

 

"Com muito cuidado, perguntei: o senhor é do Piauí?"

 "Com muito cuidado, perguntei: o senhor é do Piauí?"

No final do milênio passado, resolvi fazer uma visita a José de Nicola Neto em Bragança Paulista (SP). Prosear com o Nicola é sempre um prazeroso aprendizado. Foi aí que decidi visitar a Bia, uma das meninas de dona Purcina. Minha irmã vive em São Paulo há muitos anos. O Zé prontificou-se a levar-me. Declinei da gentileza: a estrada estava em fase de duplicação, trânsito pesado e perigoso. Resolvi fazer o percurso de ônibus. Pedi-lhe apenas as coordenadas. Depois de me orientar, de sacanagem, afirmou: “O perigo é você encontrar um dos capiaus lá do sertão do Piauí e ficarem falando bestagens no meio da rua. Tome tento!”.

Sem maiores tropeços, cheguei à casa da irmã amada. Uma festa. A Bia, feliz, comanda uma família alegre, bonita. À tarde, convidei meu sobrinho mais velho, o Jeferson, e fomos conhecer a bela livraria que a Brasiliense acabava de inaugurar. Acho que foi a primeira megastore de São Paulo. Como diria o velho Borges, “um paraíso”.

De repente, começou a cair a famosa garoa, que fascina e assusta os nordestinos. Carregado de livros, pedi ao sobrinho que chamasse um táxi. O garoto, olhando para minha cara de pobre, disparou; “Tio, é caro”. Não deixei por menos: quem vai pagar sou eu, moleque.

O taxista eram um sarará miúdo, cabeça chata e sem pescoço. Idade inescrutável, olhar assustadiço... Encostei a cabeça no vidro da porta do automóvel, e falei um verso de Mário de Andrade: “São Paulo, comoção de minha vida...”.

O sarará voltou-se para mim e perguntou: “O senhor tá falando é dessa lubrina? Quando eu cheguei aqui, era todo dia. Eu vivia doente. Agora, já me acostumei”. Quando ele falou lubrina, pensei na recomendação do Nicola. Com muito cuidado, perguntei: o senhor é do Piauí? Diante da resposta afirmativa, avancei: daquelas bandas de São Raimundo, Caracol? O taxista, com uma pontinha de orgulho, afirmou: “Sou da Jurema”. Meu Deus, a fera era da minha aldeia. Joguei a cartada final: não me diga que o senhor conhece dona Purcina. Ele, praticamente, parou o automóvel e, visivelmente emocionado, declarou: “Se disser que conheço, tô mentindo. Eu tinha só dois anos de idade quando fui batizado. Ela é minha madrinha”. O Jeferson parecia não acreditar no que estava ouvindo. Aí foi minha vez de me comover. Falei: estaciona o carro aí numa birosca qualquer. Abracei-o e, como qualquer catingueiro que se preze, pedi ao balconista, em paulistês: traz aí um shopes e três pastel!. Mundinho pequeno, sô!

(postado em 2020).

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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais. 

 

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