Ontem, remexendo no velho “baú de inutencílios”, encontrei uma preciosidade que me acompanha há mais de 70 anos. Trata-se de um pequeno porta-retrato de metal com uma gravura da Virgem Peregrina de Fátima. A “descoberta” provocou em mim um dilúvio de lembranças.
Eu teria uns 7 anos de idade quando a Virgem Peregrina chegou à minha aldeia, no sertão do Piauí. Um acontecimento. Para ser mais preciso, dois: a imagem milagrosa e o avião que a transportava. A cidade inteira vestiu as roupas domingueiras para comemorar o evento.
A irmã mais velha decidiu levar-me para ver, no adro da igreja matriz, a imagem que peregrinava pelos serões do Brasil. Não foi uma boa ideia. A ruazinha que dava acesso à igreja era estreita demais para comportar a multidão que para lá afluíra. Nunca senti tanto medo de morrer pisoteado. De repente, sem a mão protetora de dona Dezinha, senti-me perdido, à mercê da própria sorte... Em prantos, invoquei a proteção da mãe de Deus e me salvei. Um milagre. Desde então, evito multidões.
Pouco tempo depois, nas proximidades da capelinha do bairro Aldeia, encontrei, no monturo, o retratinho da Virgem entre flores murchas... Estava sujo de terra e sem o suporta de metal para mantê-lo de pé sobre a mesa. Não me contive de tanta alegria: voltei correndo para mostrá-lo a dona Purcina. Esqueci-me de que a velha não gostava de menino “achador” de coisas. Era taxativa: “começa achando, depois furtando”.
E deu início a um longo e doloroso interrogatório. Como não havia testemunhas, era só a minha palavra que, por amor à verdade, não valia muita coisa...A irmã querida foi taxativa: “Essa imagem pertence à Socorro Aragão”, uma menina que morava em frente à capelinha. Preparei-me para o pior. Dona Purcina mandou investigar. Enquanto aguardava o resultado da investigação, comecei a chorar, certo de que não me livraria de uma sova conversada... Mais uma vez, invoquei à “Mãe dos desvalidos”. Prontamente, fui socorrido: a imagem da menina estava na mesa da casa dela: outro milagre.
Agora, reencontro a imagem num momento em que estou muito precisado da intervenção divina. Estou certo de que não serei abandonado. Assim seja.
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.





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