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Sexta-feira, 06 de março de 2026
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Iane Carolina

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20/10/2025 - 07h52

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Vale Tudo, Brasil?

 

Debora Bloch; Beariz Segall como Odete Roitman (Foto: Catarina Ribeiro/ Globo | Globoplay)

 Debora Bloch; Beariz Segall como Odete Roitman (Foto: Catarina Ribeiro/ Globo | Globoplay)

Quem Matou Odete Roitman? Esta foi a pergunta que milhões de brasileiros se fizeram na última semana, devido ao desfecho da novela Vale Tudo. Mesmo que você não goste de telenovelas, tornou-se praticamente impossível não falar sobre o assunto que tomou o imaginário social e assumiu o protagonismo de propagandas, festas e temas diversos no país.

O remake de 1988 deixou muitas falhas na trama, mas trouxe atualizações necessárias para retratar a cara da alta sociedade brasileira e da corrupção embrenhada nos negócios de transações milionárias.

O arquétipo do vilão que têm suas razões de ser vilão: uma trama com um toque progressista, mas sem perder de vista que aquela pessoa está errada. Essa é a Odeite Roitman (Débora Bloch) da atualidade. Uma executiva milionária, bem-sucedida, que se relaciona com homens mais novos é tudo o que se odiava na década de oitenta, mas que hoje é exatamente o que a mulher moderna pode fazer se ela conseguir alcançar o sucesso. Tudo o que um homem rico nesta idade é e o que as mulheres também podem ser.

A questão é que o empoderamento de Odete vem com a arrogância de odiar pessoas pobres, negros, subornar quem precisa para conseguir o que quer, assassinar. O traço de modernidade que a personagem traz esbarra nas atitudes feudais, como o de arranjar casamento para os filhos como um negócio, mesmo que desvantajoso para todos, trazendo para a própria família parasitas como Marco Aurélio (Alexandre Nero) e Maria de Fátima (Bela Campos). Seria exagero dizer que vilões homens fazem pior?

Em uma situação dúbia de quem detesta as atrocidades de Odete, mas as justifica por conta de situações como a da filha, Heleninha (Paola Oliveira), que sofre não só de dependência química, mas de eterna dependência emocional e financeira, com a qual a maioria das pessoas pobres jamais foram incapazes de sonhar.

Ou da irmã, Celina (Malu Gali), que mesmo sendo uma espécie de madrinha dos filhos, escolheu deliberadamente não trabalhar e viver a vida de riqueza proporcionada por pela personagem central, compactuando com as atrocidades, como falir o empreendimento de Raquel (Taís Araújo) por ter se envolvido com Ivan.

Mas a novela se estende a outros personagens, como Marco Aurélio, que na primeira versão foge do Brasil com gesto obsceno. Desta vez seria demais deixar o ladrão de colarinho branco se safar diante da pressão que o povo brasileiro faz em busca de punição para pessoas corruptas.

No entanto, mostrou-se a face da canalhice que se tem com a simulação de doenças para que estes privilegiados respondam por seus crimes no conforto de suas mansões com tornozeleira eletrônica, enquanto a população carcerária, composta em sua maioria por pobres e semianalfabetos, cumpre sentença em regime fechado, sem perspectiva de ressocialização efetiva.

No fim, de todos os desfechos possíveis, a vilã mais amada do Brasil não morreu. Forjou o próprio assassinato e assim poderá viver nas Ilhas Cayman ou nos paraísos fiscais europeus sem que o fisco lhe cobre um centavo. Vale tudo, Brasil.

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