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Quarta-feira, 22 de Jul de 2026
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cantidiosfilho@gmail.com

30/04/2026 - 11h06

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30/04/2026 - 11h06

A Beleza da Partilha

 

"Abriu a quentinha e, com um gesto acolhedor, convidou o carroceiro a compartilhar".

 "Abriu a quentinha e, com um gesto acolhedor, convidou o carroceiro a compartilhar".

Num domingo qualquer, um jovem sacerdote se esforçava para seduzir os fiéis com um sermão sobre o encontro de Cristo com os Discípulos de Emaús. Embora o tema seja fascinante, a palavra de Deus não parecia frutificar. Lembrei-me do Sermão da Sexagésima, de Pe. Vieira: “Fazer pouco fruto a palavra de Deus no mundo pode proceder de um dos três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus”. Digamos que a culpa fosse dos ouvintes... O certo é que na passagem em que Cristo reparte o pão e, finalmente, é reconhecido pelos dois discípulos, fiquei emocionado. Impossível ignorar a força da palavra partilha.

Dia desses, no bairro Ininga, onde moro, presenciei uma cena inesquecível. Meio-dia, sol a pino, um casal agasalhou-se à sombra de uma amendoeira. O homem era carroceiro, idade inescrutável, gestos lentos e cara sofrida. A mulher, catadora de papel, era rechonchuda, ativa, faladeira. Não sei que vínculo afetivo os unia. De repente, o carroceiro encostou-se na parede do muro, esticou as pernas e acendeu um cigarro. A mulher, sempre rindo e falando, abriu um saco de plástico escuro de onde retirou uma quentinha, dessas que se vendem nas biroscas da vida. Tirou um lenço colorido que trazia amarrado à cintura e o colocou na calçada como se fosse uma toalha. Em seguida, abriu a quentinha e, com um gesto acolhedor, convidou o carroceiro a compartilhar o grude. Como só havia uma colher, os dois passaram também a dividi-la. Cada um, depois da colherada, passava a ferramenta ao outro. Só me lembro de ter visto algo assim no sertão do Caracol onde faltavam comida e colher.

Por um instante, parei para apreciar aquela cena comovente: um casal extremamente pobre dividindo o que mal daria para alimentar um deles. Não me lembro de ter visto nada mais belo em matéria de partilha. Enquanto me afastava, pensei: Cristo não morreu em vão: alguma coisa efetivamente ficou.

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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais. 

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