Facebook
  RSS
  Whatsapp
Sexta-feira, 04 de Set de 2026
Colunas /

Cultura

Cultura

cantidiosfilho@gmail.com

03/09/2026 - 10h58

Compartilhe

Cultura

cantidiosfilho@gmail.com

03/09/2026 - 10h58

Os Donos da Praça

 

"Na pequena praça, atuavam alguns personagens muito curiosos" (Foto: Cineas Santos)

 "Na pequena praça, atuavam alguns personagens muito curiosos" (Foto: Cineas Santos)

Até o final da década de 1990, a Praça João Luiz Ferreira (em Teresina-PI) era uma pequena feira livre onde se vendia um pouco de tudo, principalmente bugigangas e frutas. Na pequena praça, atuavam alguns personagens muito curiosos. Havia um vendedor de galinhas extremamente estiloso: calças pretas, camisa branca, chapéu de caubói, cinto com fivela reluzente e óculos espelhados. Sem nenhum pejo, dizia-se “empresário avícola” e se comportava como tal. O pau das galinhas era carregado por um pobre diabo, negro, sandália de couro, chapéu de palha roto, olhar distante. O “empresário” oferecia a mercadoria, mas não tocava nas aves. O carregador cuidava disso. Para ficar bem claro que os dois não pertenciam ao mesmo estrato social, o carregador das galinhas mantinha respeitosa distância do patrão. Não sei se o tal “empresário” se tornou granjeiro ou se foi rebaixado à condição de carregador de pau de galinha. A vida é uma gangorra. Desapareceu das ruas.

Havia um engraxate quase albino, muito magro, corcunda, que não tirava um cigarro da boca. Tossia muito, falava pouco. Ao meio-dia, guardava os apetrechos de trabalho, contava os caraminguás e rumava para uma bodega na Rua Benjamin Constant de onde só saía arrastado. Dizem que morreu tísico. A cadeira permaneceu vazia na praça por muito tempo.

Entre os vendedores de frutas, destacava-se um velho atarracado, barba sempre por fazer, pança estufada, voz pastosa, mas extremamente cordial. Trabalhava na companhia de dois filhos e primava pela qualidade do que vendia: só ele tinha banana-maçã “tirada de vez”.

Dos personagens que circulavam por ali, o mais fascinante era o homem cinzento. Usava um paletó de linho bastante surrado, mas limpo. Dir-se-ia um sósia de Ronaldo Golias, não fosse um cisto enorme no nariz. Seria um desses personagens que, de tão comuns, tornam-se invisíveis. Circulava pela praça com passos medidos, cabeça baixa, calado. Em mais de uma oportunidade, parei para vê-lo no seu fazer nada. Andava em círculos, ia de um extremo a outro da praça sem falar com ninguém. Numa manhã qualquer, encontrei-o em frente à banca do vendedor de frutas, com os olhos fixos numa penca de bananas. Freguês do velho, parei, escolhi as bananas mais vistosas e preparei-me para pagar. O homem cinza continuava na mesma posição: mão direita no bolso do paletó e os olhos grudados nas frutas. Pensei em comprar algumas para oferecer-lhe. Com receio de ofendê-lo, usei um estratagema: olhei para o vendedor e falei: meu irmão, estas bananas estão tentadoras. Escolha aí umas duas bem maduras para eu comer aqui mesmo com o meu parceiro, e apontei para o homem cinzento. Como que movido por um sentimento de repulsa, o cidadão foi-se afastando de mim, recuando e repetindo para ninguém: “Isso não! Isso não! Isso não!”. Sem saber o que dizer e um tantinho constrangido, desisti de comer a banana. O vendedor esboçou um sorriso falou baixinho: “Tem minhoca no juízo”. Um dia, desapareceu sem deixar rastros, mas o cinza que emanava dele ainda persiste na Praça.

*****
Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais. 

Comentários