Às mães sertanejas
Dia desses, parei num semáforo (sou do tempo em que isso era normal) e, num segundo, vi-me cercado por um enxame de garotos, quase todos do mesmo tope; todos eles da mesma cor: marrom-descaso. Obedecendo a uma hierarquia que desconheço, apenas um deles pediu-me “um trocado”; os outros, quietos, ficaram espiando. De repente, um deles adianta-se, saca do bolso uma flanelinha vermelha e, com ela, joga o bote certeiro: “Ajude uma criança, freguês! Só um real”. Decididamente, não sou o que se possa chamar de “freguês”, tampouco necessito de flanelas. A despeito disso, acabei comprando o pedacinho de pano amarrotado. Eu e dona Purcina sabemos por quê.
Menino ainda, morando em São Raimundo Nonato, presenciei uma cena que me marcaria para sempre. Numa manhã qualquer – naquela época, todas me pareciam iguais – passa um garoto entanguido vendendo lenha. A bem da verdade, não era lenha; era um simples feixe de gravetos de marmeleiro, coisa sem a menor serventia. Sem perguntar o preço, d. Purcina comprou-o. Seu Liberato, que a tudo assistira, cioso da sua autoridade de dono da casa, interpelou-a, com certa rispidez:
– Tá faltando lenha na casa?
– Não, respondeu a minha velha.
– Tá sobrando dinheiro? – insistiu.
– Também não.
– Então, por que diabo você comprou essa porcaria?
Sem levantar a voz, dona Purcina explicou:
– Hoje esse garoto passa vendendo lenha; se ninguém comprar, amanhã passará pedindo esmolas; se ninguém der, depois de amanhã, passará furtando o que encontrar pela frente.
E mais não disse porque mais não lhe foi perguntado. Sem argumentos para contestá-la, meu pai fez a única coisa que lhe cabia fazer: calou-se.
Por oportuno, vale lembrar que dona Purcina não era antropóloga, socióloga, psicóloga, assistente social, nem mesmo professora de uma escolinha isolada nos cafundós de Caracol. Era uma simples e competente doceira.
Teresina, 1º de julho de 1996.
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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