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Terça-feira, 21 de Jul de 2026
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cantidiosfilho@gmail.com

21/07/2026 - 05h53

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21/07/2026 - 05h53

O Paraíso Perdido

 

"No paiol, havia sempre mais que o necessário para o nosso sustento."

 "No paiol, havia sempre mais que o necessário para o nosso sustento."

Foram necessários pouco mais de cinco anos para que Campo Formoso se transformasse num lugar habitável. Num mourejar sem descanso, seu Liberato, com ardente paciência, ia imprimindo a marca do seu braço na aridez da chapada. Dona Purcina, com sua vocação agregadora, atraía parentes, contraparentes, aderentes e, naturalmente, a legião de doidos mansos que gravitava em torno dela. Aos poucos, nascia ali um arremedo de povoado.

As coisas seguiam o seu curso sem maiores contratempos. Da terra, tirávamos o básico: milho, feijão e mandioca. Meu pai tinha umas quinze cabeças de gado pé-duro; um punhado de miúças; alguns porcos; seis jegues e dois burros. Não bastasse isso, tínhamos algo extremamente precioso: o barreiro que nos garantia a ração mínima de água para o dia a dia...

Seu Liberato orgulhava-se de não dever um centavo a ninguém. No paiol, havia sempre mais que o necessário para o nosso sustento. Dona Purcina cuidava para que não faltasse a “mistura” do feijão. Naquela terra marcada pela penúria, éramos quase ricos.

Tudo estaria muito bem, não fosse o sonho (eu diria obsessão) de minha mãe: “dar estudo” aos filhos. A velha não se conformava em nos ver, semianalfabetos, metidos naquele cipoal onde reinavam as jararacas e as seriemas. Queria filhos letrados, formados, sabidos...

Depois de desasnar os dois mais velhos (Nanô e Dezinha) lá no sertão, tratou de encaminhá-los para a escola em São Raimundo Nonato. Alojou-os na casa de uma contraparente, mas tinha projeto bem mais ousado: construir uma casinha na cidade. Sonha da velha; pesadelo do velho, que não queria nem ouvir falar no assunto. Para seu Liberato, qualquer coisa além do básico era excesso.

Por sua conta e risco, em 1952, dona Purcina construiu sua casa em São Raimundo Nonato, num bairro denominado Aldeia. Com sua visão prospectiva, “fincou” sua morada num ponto equidistante entre o Ginásio Dom Inocêncio e o Grupo Escolar Padre Domingos da Conceição. Dali, podia acompanhar a trajetória dos filhos entre a casa e a escola, sem o risco de vê-los tresmalhados.

Quando a decisão de mudar-se para a cidade tornara-se irreversível, seu Liberato foi obrigado a apoiá-la. Via-se, contudo, no seu semblante, o quanto aquela “loucura” lhe desagradava. Na verdade, éramos dois os desconsolados: meu pai e eu. Ele, por antever a derrocada do Campo Formoso sem a presença flamejante de dona Purcina. Eu, intuitivamente, por imaginar as agruras que sofreria na cidade estranha. A pior parte: nossas previsões se confirmaram.

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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.

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