Assisti ao espetáculo “O Céu da língua”. monólogo desenvolvido e bem interpretado por Gregório Duvivier. Em humor quase pedagógico, feito com leveza e inteligência ao tratar de algo da essência humana, a linguagem, faz do monólogo um aliado às infinitas especulações em torno da língua e suas formulações.
A encenação sóbria, apenas um músico pontuando as inflexões narrativas com seu violoncelo e um prosaico retroprojetor, são suficientes para compor o plano de palco do ótimo talento de Gregório.
O recorte maior gira em torno do fenômeno das variações linguísticas, apresentado com filigranas de humor perspicazes, recorrendo a fundamentos teóricos deste campo. Há ressonâncias de Saussure, citação direta de Jakobson e suas funções da linguagem; e não há como não pensar, a meu ver, no filósofo da linguagem Wittgenstein, quando este conceitua as diversas práticas linguísticas como “jogos de linguagem”, criando o símile entre linguagem e jogo. A perfomance narrativa do espetáculo faz isso o tempo inteiro.
Dos usos da palavra, extraídos do “céu da língua”, esta boa metáfora, Gregório não esquece, e muito bem enaltece, a dimensão da língua como signo literário, como signo verbal sensível, muito bem representado pela grandeza de poetas como Camões, João Cabral de Melo Neto, Caetano Veloso. Neste, especificamente, há um tributo particular, quando traz a bonita intertextualidade de Caetano, na canção “Livros”, que Gregório canta singelamente, referindo-se ao clássico verso “tu pisavas nos atros, distraída” da canção “chão de estrelas”, de Orestes Barbosa e Silvio Caldas, que Caetano recria em outro torneio lírico “tropeçavas nos astros desastrada”.
“O Céu da língua” entra no céu da boca de nosso palato gustativo estético. gostei do sabor.
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Feliciano Bezerra, professor doutor da UESPI - nas redes sociais.





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