Além da miséria, outro traço identificava os moradores da UPES: éramos todos semianalfabetos. Oriundos do interior, de famílias pobres, carregávamos sobre os ombros as esperanças dos nossos pais. Tão insignificantes, nem nomes tínhamos. Alguns atendiam pelo nome do município de origem: Floriano, Angical, Tuntum; outros ganharam apelidos estranhos: Bogó, Lapinha, Alfenim, Trepinha, Caravelle... Apenas uns dois ou três trabalhavam.
Para enganar a miséria, inventamos uma corte com os devidos títulos nobiliárquicos: príncipes, ministros, duques, barões, conselheiros, etc. Coube ao Manuel Araújo o título de Duque de Bruges. O Manuel, natural de São Pedro, já trabalhava. Tinha uma bicicleta Monark, um relógio Lanco; um terno azul; duas camisas elegantes e uma namorada linda. Não bastasse todo esse patrimônio, era um rapaz bonito, educado, elegante.
Não era, contudo, o patrimônio que fazia de Manuel Araújo uma pessoa especial; era a generosidade. Nunca conheci ninguém tão desprendido. Das coisas que possuía só não nos emprestava a namorada. Fazíamos fila para vestir sua camisa Valisère; a outra, de malha fria, cor de mel, era disputada a tapas. A bicicleta era o transporte de todos nós. Muitas vezes privamos o Manuel de ir a algum lugar por lhe faltar a bicicleta ou a roupa. Nunca o vi queixar-se, recriminar ninguém, esconder alguma coisa.
Não sei por onde anda o Manuel Araújo. Parece que a vida não o tratou com o carinho que ele merece. De uma forma ou de outra, será sempre lembrado por mim como um exemplo de generosidade. Não era duque o título que lhe cabia; era o de príncipe, um príncipe da melhor linhagem.
(fragmento do livro O aldeão lírico)
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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