Facebook
  RSS
  Whatsapp
Sexta-feira, 03 de Jul de 2026
Colunas /

Cultura

Cultura

cantidiosfilho@gmail.com

03/07/2026 - 09h33

Compartilhe

Cultura

cantidiosfilho@gmail.com

03/07/2026 - 09h33

A Dona da Copa

 

Elza Soares, na copa de 1962,  foi a “madrinha da seleção brasileira"

 Elza Soares, na copa de 1962, foi a “madrinha da seleção brasileira"

A vida da cantora Elza Soares tem um quê de melodrama mexicano. Nascida, segundo ela própria, no “planeta fome”, subiu aos céus e desceu aos infernos tantas vezes que, se fosse uma pessoa “normal”, já teria sucumbido. Com mais de 80 anos, com sérios problemas na coluna, continua cantando e encantando plateias de todas as idades. Hoje, Elza é cult, mas nem sempre foi assim.

Das muitas histórias que viveu, a mais empolgante delas deu-se em 1962, no Chile. A seleção brasileira, campeã em 58, chegou ao Chile como franca favorita, O time era praticamente o mesmo que encantara o mundo em 58, na Suécia. Pelé, Garrincha e Vavá formavam um ataque que aterrorizava qualquer adversário. Mas quis o destino que, logo no segundo jogo, Pelé se machucasse seriamente. Caberia ao jovem e impetuoso Amarildo substituí-lo. Caberia a Garrincha o papel de “salvador da pátria”. As coisas começavam a complicar-se.

Para piorar, digo, melhorar a situação, entre em campo uma mulata faceira, atrevida, sensual, com uma voz tão estranha quando os dribles de Mané. Elza Soares foi contratada por um empresário uruguaio para desempenhar o papel de “madrinha da seleção brasileira. Durante a Copa, a mulata fogosa faria alguns shows no Chile. Entre as duas estrelas do evento já rolava um clima. Digamos que a “conjunção dos astros” conspirava a favor. A cantora, como “madrinha da seleção”, tinha livre acesso à concentração do time brasileiro.

As coisas estavam nesse pé quando entrou em campo um personagem que nada tinha a ver com a história: Di Stéfano, o lendário meia argentino, que jogaria pela seleção espanhola. Contundido, nem chegou a entrar em campo. Mas consta que teria afirmado: “O Brasil não ganhará esta copa nem que ponha 11 Garrinchas em campo”. Verdadeira ou não, a história chegou aos ouvidos de Mané Garrincha que se sentiu desfeiteado. Num gesto insólito, teria declarado: “Gente boa, vou ganhar esta copa para minha namorada, a Elza”. O mais é do conhecimento de todos: jogou com todos e por todos. Fez até gol de cabeça, algo insólito na carreira do craque. Foi eleito o melhor jogador da Copa de 62 e voltou feliz nos braços de Elza.

Os dois viveram juntos por 16 anos, uma relação extremamente turbulenta. Garrincha, vítima do alcoolismo, descendo a ladeira. Elza Soares, vítima de uma campanha infame, acusada de estar “destruindo a carreira do ingênuo Mané”. 52 anos depois, ainda há quem acredite nisso. O que pouca gente sabe é que, por muitos anos, Elza sustentou o Garrincha, um descende dos fulniôs, que nunca aprendeu a lidar com dinheiro, contratos, cartolas, canalhas. A “dona da copa” deu a volta por cima.

( texto postado em 2008)

*****
Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais. 

Comentários